A república, na origem, foi idealizada cuidadosa e abertamente nos Documentos Federalistas: Nós não seremos uma monarquia e não teremos uma democracia. Não tivemos nada, portanto. Por 200 anos, vivemos um sistema oligárquico, no qual os homens ricos se dão bem e os outros são deixados à própria sorte.
Gore Vidal, The Decline and Fali of the American Empire, 1992
Um alerta de um observador insuspeito pode ter abalado setores do establishment americano: "Há similaridades fortes entre a situação atual dos Estados Unidos e de outro grande centro de poder do passado: Roma. O Império Romano durou mil anos, mas apenas metade deste tempo como república. A República Romana caiu por muitas razões, mas três merecem ser lembradas: o declínio dos valores morais e políticos, o excesso de confiança, a ostensiva invasão de terras estrangeiras e a irresponsabilidade fiscal do governo. Isso soa familiar? Em minha opinião, é hora de aprender com a história e tomar medidas para que os EUA passem pelo teste do tempo".
Apesar do amargo diagnóstico, o texto acima não é de um pensador heterodoxo, antiglobalização ou esquerdista. Os neomacarthistas deveriam pôr as barbas de molho. Trata-se de um trecho da apresentação ao Federal Reserve de David M. Walker, controlador-geral dos Estados Unidos, uma espécie de braço investigativo do Congresso. Como o próprio site do órgão se define, "um cão de guarda das atividades dos parlamentares". Entre as funções, estão supervisionar os programas federais, sugerir formas de tornar o governo mais eficiente e ético, além de prever tendências e desafios de longo prazo.
Walker diz que os EUA estão à beira de uma situação insustentável. Ele destaca como principais desafios o forte desequilíbrio fiscal, a deterioração da saúde pública, o nível educacional em declínio, a sofrível condição do meio ambiente, a guerra desastrada com o Iraque e a política errática de imigração. Segundo disse à Carta Capital, "o país está atado a valores velhos, dos tempos da Guerra Fria, e perdeu-se por completo no processo de globalização".
O controlador-geral americano é mais uma voz respeitável a integrar o coro dos críticos da hegemonia dos EUA e dos que prevêem o fim do império, hoje comandado por George W Bush. Recentemente, o sociólogo Immanuel Wallerstein, professor da Universidade Yale (Boston), lançou O Universalismo Europeu, no qual aponta o desgaste da retórica ocidental. Em textos complementares, Wallerstein afirma que, em uma década, novos pólos de poder no mundo estarão sólidos o suficiente para fazer frente à onipresença dos EUA, entre os quais, Europa, China e Rússia. Tanto o sociólogo como o funcionário público destacam a perda de dinamismo da economia americana como um dos sinais de que o império vive, se não os últimos dias, um inequívoco ocaso.
Para Walker, infelizmente, apesar dos desafios da nova ordem mundial que põem em xeque inclusive a superioridade americana na expertise tecnológica, "a maioria dos órgãos governamentais mantêm-se superburocratizados, míopes, com erro de foco e com o olhar para o passado", quando existia a Cortina de Ferro. O fiasco dos EUA no Iraque foi apenas uma amostra de que até mesmo o poder de polícia do mundo foi desmoralizado, diz. Para contextualizar os dizeres de Walker: o último imperador romano do Ocidente, Romulus Augustus, foi destituído do poder no ano 476, marcando o fim de uma hegemonia de quase um milênio. Bush precipitou a decadência da supremacia americana.
Wallerstein afirma que três forças empurraram o país para a atual crise, todas engendradas entre 1960 e 1970. Primeiro, houve uma acirrada concorrência econômica entre o Japão e a Europa, que afetou a produção americana. Em segundo lugar, completou-se o ciclo de descolonização do Terceiro Mundo com a conseqüente rejeição ao status quo imposto pela ordem americano-soviética. Por fim, proliferaram organizações civis de reação ao liberalismo e ao American Way of Life.
A consultaria nova-iorquina MD SASS mostra, em números, o que ocorre na sociedade americana. Há seis anos, o dólar representava 72,6% das reservas globais internacionais. Hoje, a participação caiu a 64,7%. O euro já responde por 25,8%. Cerca de 80% dos títulos públicos dos EUA estão em mãos de estrangeiros. Mas nada assegura que os papéis americanos sejam para sempre o porto seguro global. A MD lembra que o dólar perdeu 35% do valor em relação ao euro nos últimos cinco anos. Os títulos americanos renderam 20% no período. Prejuízo ao investidor, que uma hora se cansa do discurso da suposta solidez nórte-americana.
Há 77 milhões de cidadãos americanos entre 50 e 60 anos que se aposentarão em breve. De acordo com o Wall Street Journal, a típica família americana com chefe de família entre 55 e 64 anos tem cerca de 90 mil dólares em economias. Claro que há uma pequena complementação da Seguridade Social, mas a consultoria antevê pesadelos políticos e econômicos para breve, porque os EUA têm déficits gêmeos (interno e externo) na casa de 1 trilhão de dólares. Um buraco financeiro cavado por Bush, que reduziu os impostos e aumentou os gastos militares a níveis alarmantes.
De acordo com o Center on Budget and Policy Priorities, a participação dos salários na renda nacional dos EUA caiu ao menor nível desde a grande crise de 1929, e a dos lucros empresariais atingiu recordes de alta. Entre novembro de 2001 e dezembro de 2006, os salários cresceram à média anual de 1,9%, enquanto os resultados corporativos avançaram 12,8% anuais. Esse fenômeno está diretamente ligado aos modismos economicistas da globalização, como offshoring e outsourcing, que tiraram o emprego dos americanos.
Houve um sensível aumento também no abismo da desigualdade entre a população. Os últimos dados disponíveis, do censo de 2005, mostram que 16 milhões de cidadãos vivem "em profunda pobreza ou miséria”. O critério é a renda de menos de 9,9 mil dólares anuais para uma família de dois adultos e duas crianças. Os miseráveis são as famílias com proventos menores que 5 mil dólares/ano. Segundo a pesquisa, o número de pobres americanos cresceu 26% entre 2000 e 2005. A população americana é composta de 301 milhões de indivíduos, 45 milhões dos quais sem direito a nenhuma assistência médica pública.
Até os supostos avanços na regulação do livre mercado e nas garantias de concorrência, que levaram os EUA a se transformar na maior potência mundial, estão sob suspeita. Como relata Antonio Luiz M. C. Costa, a Europa, por ser mais rigorosa, tem ditado padrões superiores de qualidade.
Na questão política stricto sensu, o lingüista Noam Chomsky é taxativo. Em entrevista concedida em julho à TV Al-Jazira (disponível no YouTube), o intelectual diz existirem características de que os EUA estão em estado de falência. A falácia do slogan bushiano, de que a meta da guerra era provar que o país muçulmano produzia armas de destruição em massa, desmoronou. Tampouco o presidente convenceu a população de que o objetivo era promover a democracia na região. Atitudes como essa apenas reforçaram o ódio do mundo, não só o islâmico, contra a prepotência dos EUA, afirmou Chomsky.
Não fossem apenas as dificuldades internas, há os enormes desafios externos. A começar pelo front econômico. Nos dizeres de José Luis Fiori, professor de Economia Política do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), "o que está em curso não é propriamente uma crise. É uma transformação ou mudança profunda e lenta do eixo geopolítico e geoeconômico mundial". A análise faz parte do livro O Poder Global, a ser lançado em breve pela editora Boitempo. Fiori opina ainda que a recente crise do crédito imobiliário de qualidade duvidosa (subprime) gerou um tabuleiro de xadrez perigoso para a estabilidade global. "O maior medo que ronda o mundo é que a decisão americana (de proteger o sistema financeiro) desencadeie uma guerra de moedas" em que o dólar, eventualmente, possa perder a hegemonia de ser a reserva de valor global. Com conseqüências impossíveis de ser dimensionadas.
Um contraponto eminentemente econômico é feito por Mariano Laplane, do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais da Unicamp. Segundo ele, para o capital, a questão de Estados nacionais tem pouca ou nenhuma relevância. A partir dos anos 90, com a desregulamentação dos mercados financeiros e a queda do Muro de Berlim, surgiu um paradoxo. As instituições multilaterais criadas sob a égide dos EUA fragilizaram-se, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. No entanto, não significa que os capitalistas americanos estejam mais pobres. Simplesmente eles operam em todo o mundo, assim como os investidores asiáticos ou latino-americanos.
De todo modo, pondera, a desvalorização do dólar e a dependência simbiótica que têm os EUA e a China, por exemplo, em algum grau revela a perda do poder americano. "Talvez, estejamos passando para uma nova etapa, em que a acumulação de capital está submetida a outra lógica”, diz, e sublinha que a análise desconsidera os aspectos políticos, geográficos e sociológicos do momento. Sobre o futuro, Laplane não arrisca previsões. A única certeza é que não mais será possível associar a riqueza a poderes nacionais. Um palpite relevante sobre o que está em xeque, principalmente para os EUA.
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