– Que bom vir tão longe para conhecer uma experiência dessa importância, dizia o líder estudantil italiano ao então ministro de relações exteriores da China, Chu-En-Lai. E recebeu a resposta correspondente:
– Tão longe do quê? Ainda mais porque a China se considera o Império do Centro e só mais recentemente – nos últimos três séculos – é que se impôs a hegemonia ocidental no mundo
Immanuel Wallerstein, em seu mais recente livro publicado no Brasil – O universalismo europeu, da Boitempo – afirma: “A luta entre o universalismo europeu e o universalismo universal é a luta ideológica central do mundo contemporâneo.” Toda força hegemônica pretende falar em nome da universalidade. O ocidente o fez apropriando-se do conceito de “civilização”. O lema “civilização ou barbárie”, do argentino Domingos Faustino Sarmiento, segue sendo determinante no seu modelo hegemônico.
Como recorda Wallerstein – cujo livro tem, significativamente, como subtítulo, “A retórica do poder” – a expansão do capitalismo através da hegemonia das potencias ocidentais se deu através de conquista militar, de exploração econômica e da disseminação de brutalidades como a dizimação das populações indígenas da América e a escravidão. Mas trataram de legitimar essa forma de expansão pelo que representaria a disseminação da civilização, do desenvolvimento econômico e do progresso.
Essa expansão seria “natural”, benéfica e historicamente inevitável.
De uma primeira perspectiva teológica, vinculada â conquista e â colonização, se passou a uma versão secular, centrada no racionalismo e no progresso material. Uma vez apropriado do conceito de civilização, se dá a reivindicação do direito de intervir para impô-lo contra a barbárie. Wallerstein retoma polêmica de Bartolomé de las Casas, para demonstrar como termos similares são utilizados pelo bloco dos EUA com a Inglaterra, para desenvolver o que hoje chamam de “guerras humanitárias”. O nome do capítulo do livro diz tudo: “Quem pode intervir? Os valores universais contra a barbárie”.
Quando os EUA conseguiram apenas quatro dos quinze votos do Conselho de Segurança da ONU ao propor a invasão do Iraque. A primeira resposta dos EUA foi a de que agiam “em legítima defesa” sob o pretexto de que o governo do Iraque possuía armas de destruição massiva. Quando este argumento se revelou uma falácia, passaram a apelar para o argumento de que tirar um ditador do poder seria um “bem moral”. Tratar-se-ia de “defender inocentes”, argumento que levou Norberto Bobbio, Jurgen Habermas e John Rawls defenderem a “guerra humanitária” na Bósnia.
“Na prática a intervenção é um direito apropriado pelos fortes”, diz Wallerstein. Como resultado ninguém se atreveu a falar em punição – mesmo que moral – para os invasores do Iraque. A ênfase nos direitos humanos como eixo das políticas internacionais acabou sendo o instrumento dessas intervenções, sua cobertura “humanitária”, fortalecendo o argumento do “dever dos civilizados de suprimir a barbárie”. |