A editora Boitempo acaba de publicar um livro precioso: O Universalismo Europeu - A Retórica do Poder (144 pags.,R$ 27), de Immanuel Wallerstetn. Apesar do assunto difícil, a maneira com que o discurso político justifica o uso da força e as conseqüências que ela pode levar, o texto é claro, agudo e muito direto. Wallerstein elege o termo "universalismo" e seus derivados como centro para a análise e procura, então, compreender quais os significados que ele foi recebendo Ao longo dos anos e pelas diferentes formas de organizar e impor o poder.
Cada um dos capítulos gira em torno de uma hipótese semântica: primeiro, a que discute o discurso em torno da expressão "direitos humanos", que serve como inspiração para ações incontornavelmente justificadas,como o ideário das grandes organizações não-governamentais (como. a Anistia Internacional e os Médicos Sem Frontéiras) e, ao mesmo tempo, estampa escandalosamente afrontas a honestidade, como as escaladas militares que abateram o mundo nos últimos anos; depois, Wallerstein examina de onde pode ter surgido a hipótese de superioridade do Ocidente sobre outras culturas, utilizando como base a obra de Edward Said para, então, chegar ao debate sobre a chamada "verdade científica" .
Cheio de exemplos contemporâneos,o autor vai direto ao ponto: como justificar diversas intervenções militares que, no discurso, pretendiam restabelecer o que chamam de "direitos humanos” se elas mesmas desrespeitam a carta da ONU? O caso da invasão do Iraque, ainda em curso, é notável. Wallerstein, obviamente, aponta para o sentido catastrófico do governo de Sactdam Hussein,
mas do mesmo jeito nota que, para a população, a vida depois da chegada do exército da "coalizão" piorou muito.
O Universalismo Europeu, além das qualidades que já apontei, tem também o enorme diferencial de oferecer caminhos. Um deles seria a "inspiração" oferecida pelo magnífico estudos sobre orientalismo de Edward Said. Mostrando a maneira como o Ocidente construiu o sentido que lhe interessava para enxergar algumas sociedades orientais, sem ter o menor conhecimento sobre elas, Said pratica o saudável exercício de desmistificar discursos que parecem certeiros como os mísseis que matam milhares de civis pelo mundo afora. A essa altura do livro, já sabemos que o significado de "universal" aparece colado a interesses os mais diversos, normalmente voltados para a força impositiva do poder político.
O terceiro capítulo, o mais intrigante dos três analisa como a chamada "verdade científica" foi aos poucos dominando o imaginário e se afirmando como o único discurso realmente decodificador do mundo. O senso comum parece hoje verdadeiramente convencido da possibilidade de expressar a "verdade" da ciência, sem observar que, de fato, a atividade científica contemporânea, voltada quase exclusivamente para o desenvolvimento tecnológico, está bastante de acordo como mais nítido neoliberalismo - ou capitalismo hiperselvagem, para ser mais claro.
Wallerstein não cita, mas um evento contemporâneo derruba qualquer pretensão à verdade do discurso científico: há poucos meses,umgrupo de astrônomos notáveis se reuniu para discutir o estatuto de Plutão. A decisão final foi tomada por votação. Ora, se a questão resolveu-se (e eu aposto que provisoriamente, pois tudo no discurso científico é provisório) através de uma eleição, é fácil ver que se trata de um fato político. Ciência é política, sejamos diretos. A conclusão do livro é imediata: o uso da força bruta não funciona. Wallerstein propõe uma alternativa aos sentidos desgastados do universalismo contemporâneo. Para ele, é preciso resgatar o termo ligando-o a uma possível "multiplicidade de universalismos”.em que diferenças não apenas sejam respeitadas, mas possam conviver.
Por fim, vale observar que, indiretamente, diversas observações do livro servem para pensar também a posição brasileira no cenário internacional. Totalmente corroídos pelo trator do capitalismo mais violento e explorador possível-e já mergulhando no bu~ raco que essa mesma exploração
cava - seria algo inteligente observar se de fato ocupamos algum tipo de lugar privilegiado, como a classe política defende, mesmo no contexto regional, para almejar liderar qualquer coisa, desde blocos econômicos até tropas armadas. Não deixa de ser meio bizarro que o Brasil, ocupando um lugar notavelmente baixo em qualquer tabela de desenvolvimento ou distribuição de renda, queira reproduzir a exploração que sofre das nações poderosas.
O livro de Wallerstein está empenhado em encontrar possíveis caminhos. O bom leitor logo observará que existe um sentido oculto no texto. Não vou revelá-los, mas posso dar uma pista:quem distribuir exemplares desse livro para os amigos, estará colaborando para tornar os sentidos do mundo um pouco mais humanos e, de resto, provará ser um leitor empenhado. É desse tipo de intervenção que precisamos.
|