O sociólogo americano Immanuel Wallerstein é o próximo conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento, promoção da Copesul Cultural, em Porto Alegre. Pesquisador da Universidade de Yale e um dos destacados críticos da globalização capitalista e da política internacional dos Estados Unidos, Wallerstein discute nesta entrevista, concedida por telefone, em inglês, alguns de seus temas de pesquisa, como a divisão das ciências e o legado de Marx. Não haverá conferência do Fronteiras do Pensamento na próxima semana.
O encontro com Wallerstein ocorre em 4 de setembro, no Salão de Atos da PUCRS, às 20h, com a participação do professor de Filosofia Nelson Boeira, da UFRGS. Os ingressos já estão esgotados.
Cultura - Em um artigo cujo título faz a pergunta "A Índia Existe?", o senhor afirma que a História é uma construção: "O historiador inventa a história assim como um artista inventa um quadro". A partir dessa perspectiva, qual a importância do fato?
Wallerstein - Claro que o fato é uma construção. E a principal questão aqui é: o que é o fato real? Esse é o problema: o fato real não existe. Existe um número infinito de fatos, nós selecionamos alguns e dizemos que são fatos. Quem faz essa seleção? Como faz? Sabemos que mesmo historiadores muito competentes discordam profundamente sobre alguns fatos. Os fatos estão lá, eles são também criações. Nós não abordamos toda a história do universo quando escrevemos História, selecionamos o que nos parece fazer sentido. E chamamos isso de fatos. Pegue alguns livros de História do Brasil e verá que esses livros discordam sobre como determinados fatos ocorreram.
Cultura - O senhor afirma que nenhum pensador pode manter um pensamento intacto cem anos depois, e que, em 1948, Marx teria escrito O Manifesto Comunista de forma diferente daquela feita em 1848. Marx é ainda visto por muitos pesquisadores como um tipo de profeta que prenunciou o futuro. Qual o valor de Marx hoje?
Wallerstein - Marx, obviamente, sendo um homem inteligente, escreveria de forma diferente 150 anos depois. Marx foi um pensador significativo, que teve enorme influência, e muitas de suas análises ainda hoje se mantêm. Não todas. Eu mesmo escrevi vários artigos sobre como se lê Marx. Muitas das pessoas que o vêem como profeta na realidade não o leram. Quando você o lê de perto, entende melhor o que ele pensava, e não o que dizem que ele pensava. Marx é muito importante ainda hoje, mas o que temos de pensar dele é que ele era alguém que sabia o que sabia no século 18, teve pensamentos importantes, mas não sabia o que aconteceria nos séculos 20 e 21.
Cultura - Qual o papel do nacionalismo e das religiões no fortalecimento das instituições democráticas contemporâneas?
Wallerstein - O nacionalismo é muito forte atualmente em todo o mundo. Mas sua relação com o fortalecimento da democracia depende muito das circunstâncias. Democracia é um conceito escorregadio, mais ainda do que nacionalismo. A religião é um modo de expressão política em vários países, mas não em todos. Por exemplo, não creio que a religião tenha o papel de uma força significativa na França atualmente. Não conseguimos explicar a vida na França a partir das instituições religiosas. Não estou certo sobre o quanto a religião é forte no Brasil, historicamente um grande país católico. Há movimentos católicos importantes no Brasil, mas as igrejas protestantes, e esse é um fenômeno importante, é preciso analisar por que cresce, qual seu impacto. Se olhar para o Estado brasileiro, vejo os partidos disputando poder, em sucessivos regimes, e o papel da religião me parece bastante limitado para explicar o que ocorreu nos últimos 50 anos. Então, não diria que é uma força política forte, embora tenha importância por influenciar a vida de milhões de pessoas.
Cultura - Qual o maior desafio para a ciência social na atualidade?
Wallerstein - Acredito que o mais importante para o mundo do conhecimento hoje é superar a separação entre a chamada filosofia e a ciência. Temos de reunificar o conhecimento, conceitualmente e epistemologicamente. É um enorme desafio, mas é o mais essencial para o desenvolvimento das Ciências Sociais, Ciências Naturais e as chamadas Humanidades.
Cultura - Com isso, o senhor quer dizer que as ciências devem dialogar entre si?
Wallerstein - Antes do início do século 19, ninguém acreditava que havia uma significativa diferença entre o que hoje chamamos de filosofia e o que hoje chamamos de ciência. A distinção entre as duas formas de compreender o mundo, filosoficamente e cientificamente, é uma criação do início do século 19, e não é muito saudável. Nos legou danos enormes, mas foi institucionalizada nas universidades. E o grande desafio atualmente da filosofia e da ciência é superar essa separação.
Cultura - Qual a vantagem?
Wallerstein - A vantagem é a realidade. Essa distinção é artificial.
Para não ficar boiando
No mesmo dia de sua conferência em Porto Alegre, o sociólogo americano Immanuel Wallerstein participa de uma sessão de autógrafos também no Salão de Atos da PUCRS, às 22h. O Universalismo Europeu - A Retórica do Poder é a obra do pensador que está saindo pela Boitempo Editorial. Em 144 páginas, o autor discute o discurso dos poderosos para justificar ataques a outros países e as contradições das chamadas intervenções humanitárias - entre elas, a missão do Brasil no Haiti. A apresentação é de Luiz Alberto Moniz Bandeira.
Wallerstein é autor também de Impensar a Ciência Social - Os Limites dos Paradigmas do Século XIX (Editora Idéias e Letras). Neste volume, ele reúne uma série de textos, debatendo, entre outros temas, o pensamento de Karl Marx, os conceitos de tempo e espaço e o legado do historiador Fernand Braudel. "Impensar", segundo o sociólogo, equivale a submeter a uma revisão radical a maioria dos pressupostos que hoje constituem a base das perspectivas dominantes. Wallerstein rejeita, aí, a idéia de progresso como um movimento irreversível e linear. |