Cabo Anselmo, personagem reconhecido como traidor da esquerda brasileira na ditadura civil-militar, se diz vítima de perseguição e aguarda indenização
Soledad, não viveste em solidão
por isso tua vida não se apaga
simplesmente transborda de sinais
Soledad, não morreste em solidão
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar.”
Mario Benedetti
“Muerte de Soledad Barrett”
Em 30 de julho, José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo, disse ao jornal Folha de S. Paulo estar “tomando porrada há muito tempo” e que “esse pessoal da esquerda ainda inventa muita mentira”. O ex-marinheiro entrou com pedido de anistia em 2004 junto ao Ministério da Justiça. A previsão é de que o julgamento sobre o direito à indenização seja realizado no segundo semestre de 2009.
Ao jornal paulistano, que há poucos meses denominou o regime iniciado em 1964 de “ditabranda”, Anselmo disse estar “assustado, amedrontado, assombrado e tremendamente pressionado". Líder da revolta dos marinheiros em 1964, Anselmo, conhecido como Daniel entre as organizações da esquerda armada, participou organicamente da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), ajudando, depois, a destruí-la. Dos “agentes duplos”, era um dos mais protegidos pelo delegado Sérgio Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo. Fleury figurava entre os principais torturadores no período da ditadura.
Em vários segmentos da sociedade, tal atitude do ex-agente duplo da ditadura é uma grande provocação. “Causa espécie que ele tenha a cara-de-pau de entrar com pedido de anistia; porque foi perseguido o rapaz, o pobrezinho”, ironiza o escritor Urariano Mota, já concluindo que “ele curtiu muito bem a vida, fodendo todo o mundo; ele viveu”.
Antagonista do enredo de “Soledad no Recife”, cabo Anselmo é considerado por Urariano Mota um homem preparado para “mentir sistematicamente”. “À Percival de Souza, ele não desmente a gravidez de Soledad. Mas, para a Rede Globo, ele afirma que não sabia que Sol estava grávida” recorda. O escritor pernambucano defende que, hoje, Anselmo simplesmente segue as instruções de seu advogado, como uma tentativa de amenizar o crime que cometeu.
Traição
Daniel desapareceu em 1973. No dia 8 de janeiro, ele reuniu no apartamento em que morava com Soledad o grupo de militantes atuantes em Pernambuco. Missão cumprida, da janela do local fez um sinal para a equipe do DOPS de São Paulo, chefiada pelo Delegado Fleury, que espreitava da rua. Anselmo abandonou o local e deixou os companheiros à própria sorte.
Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luiz Ferreira de Souza, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva, Pauline Phillippe Reichstul e Soledad Barret Viedma foram brutalmente assassinados no episódio que ficou conhecido como "Massacre da Chácara São Bento".
O corpo de Soledad foi encontrado nu e de pé, dentro de um barril, com os braços caídos para fora. Os olhos estavam esbugalhados, a boca entreaberta numa expressão de terror. Tinha muito sangue entre suas coxas e pernas. No fundo do barril, havia um feto de cerca de quatro meses perdido em uma poça de sangue coagulado.
A versão mais aceita para a traição é a de que, quando preso pelo DOPS, no início de maio de 1971, Anselmo teria negociado sua vida em troca da colaboração com a ditadura. (ESL, com informações de Vanessa Gonçalves, do jornal O Rebate)
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