Dia 8 de janeiro de 1973. Na versão oficial da ditadura, órgãos de segurança estouram um “aparelho subversivo” da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) na Chácara São Bento, em Paulista. O resultado é a morte de seis “terroristas”. Este episódio contou com a participação de dois personagens em especial: o ex-presidente da Associação dos Cabos e Marinheiros do Rio de Janeiro Cabo Anselmo que, sob o codinome de Daniel, estava trabalhando para o delegado Sérgio Fleury, infiltrado no grupo, e a paraguaia Soledad Barret Viedma, uma das vítimas do massacre, então companheira do ex-militar – e que estava grávida. Os fatos que levaram ao trágico episódio são descritos, num misto de ficção e realidade, por Urariano Mota, no livro Soledad no Recife (Editora Boitempo), lançado mês passado.
O livro é narrado em primeira pessoa por um personagem fictício que nutre um amor platônico por Soledad – uma espécie de alter ego do autor, que jamais conheceu a uruguaia pessoalmente, mas que admitiu se “apaixonar profundamente pela personagem Soledad”. Esse integrante ficcional da história é o fio condutor dos acontecimentos que se seguem – reais – até a prisão e chacina dos revolucionários.
Soledad no Recife não é o primeiro livro de Urariano Mota sobre o período da ditadura militar. “Corações Futuristas também retratou o período e, nele, eu falava de uma forma não muito clara sobre esses acontecimentos no Recife”, admite. “Depois pensei, e agora? Então passei a trabalhar nesse novo trabalho.” Projeto que, aliás, “perseguiu” o autor durante vários anos. “Há 10 anos surgiu a ideia do livro. Só comecei a escrever em 2006, mas não conseguia dar sequência. Apenas no ano passado consegui concluir.”
Amigo de um dos seis mortos na ação, Urariano conserva no tom de voz uma grande revolta em relação ao Cabo Anselmo. “Soubemos que tudo tinha sido orquestrado pelo Cabo Anselmo e não concebíamos como aquela pessoa, a mesma da revolta dos marinheiros e companheiro de Soledad, podia ter feito aquilo”, disse. “Hoje está aí, sem querer falar do assunto para não atrapalhar seus planos de ser também anistiado.”
Além de Anselmo, o grupo era composto por Soledad Barret Viedma, Sol, 27 anos, neta de um fundador do Partido Comunista Paraguaio, Eudaldo Gomes da Silva (Zacarias), 25, Jarbas Pereira Marques (Sérgio), 30, José Manoel da Silva (Cirino), 32, Evaldo Luís Ferreira de Souza, 30, ex-marinheiro, e Pauline Reichstul, revolucionária de origem tcheca, de 25 anos – esta, irmã de Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso. Os corpos de todos eles – tirando Anselmo – foram fotografados na Chácara São Bento em 8 de janeiro de 1973.
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