Dicionários

24.02.2011

Terra Magazine
Sírio Possenti


Estou preparando o curso que vou ministrar aos calouros da linguística. A disciplina trata de "linguagem e investigação em ciências humanas". O departamento considera importante encarar esta questão logo no começo do curso, para ficarem claras (ou adequadamente "confusas"), o mais cedo possível, certas características e funções das línguas. É que nas ciências - nos campos de saber - o cuidado com os termos que designam conceitos é crucial - inclusive, claro, os conceitos que dizem respeito às línguas.

Uma digressão: Gosto particularmente das teses de um epistemólogo francês, Granger, sobre esta questão. Sua tese básica sobre o papel da linguagem no conhecimento consiste em propor que ela funciona em três patamares. O primeiro é o da língua "materna", já uma forma de conhecimento, decorrente de um longo "vivido" dos que a falam. Povos classificam o mundo de várias maneiras, e marcam esta classificação fundamentalmente na língua, por meio de categorias como masculino / feminino, animado / inanimado, concreto / abstrato, dividindo mais ou menos um espectro como o das cores ou um conjunto de ações (por que os verbos "comer" e "alimentar-se", se um bastaria? por que incorporar um estrangeirismo como "salvar", se existe "gravar"?). São formas de organizar o mundo. Que se descobrem aprendendo a analisar os fatos.

Diferentemente do que ocorre numa língua corrente, as linguagens técnicas são instrumentos para pesquisas específicas (financiadas, claro, e obedecendo a interesses nem sempre neutros e apenas objetivos). Por exemplo, as categorias gramaticais são bem mais "severas" do que as comumente empregadas para falar de língua (nenhuma teoria gramatical "permite" dizer que uma forma é inútil, por exemplo, porque a "utilidade" de uma forma na estrutura de uma língua e no seu funcionamento cultural não é definida pelo gosto de uma pessoa ou de um grupo - a não ser que este grupo seja muito poderoso (o poder faz dicionários!). Ou: a nomenclatura da psicanálise é diferente das categorias da linguagem quotidiana. Às vezes é tão peculiar que outros campos sequer admitem que os objetos de que fala existem - "inconsciente", por exemplo. "Classe", para o marxismo, não é a classe do Ibope, e o "Ser-aí" de Heidegger é um conceito nada comum. O juízo categórico de Kant não tem nada a ver com os juízos categóricos de qualquer comentarista político ou apolítico sobre o presidente Chaves ou sobre a importância de Hosni Mubarak para o equilíbrio do Oriente Médio (por falar nisso, em vez de assistir ao Painel do Wiliam Waak na Globo News, ou para ter um contraponto a ele, que tal a entrevista de Tariq Ali ao Roda Viva? Procure do Google. É uma boa audição para pessoas decentes e curiosas).

Ainda "acima" desse funcionamento, que já é pouco familiar (demora bons anos para ser aprendido), deveria funcionar um sistema semiológico ainda mais severo, mais organizado, mais estrutural, no qual cada termo só fará sentido pelas relações com os outros. Para servir às ciências humanas, deverá, no entanto, ser significativo. Um termo de comparação são as linguagens formais, cuja sintaxe e suja semântica, porém, se definem apenas no interior do sistema, sem "significação", portanto (quem quiser pode ler a apresentação do projeto grangeriano feita por Michel Lahud; ver "A semiologia segundo Granger", disponível no Google).

Estou relendo textos sobre língua e cultura, em que se encontram os clássicos exemplos sobre distribuições de cores e sistemas de parentesco e fenômenos similares (como os numerosos casos de Quase a mesma coisa, de Umberto Eco, que discute dificuldades e soluções de traduções em que esteve envolvido). Mas, especialmente, relendo O vocabulário das instituições indo-europeias, de Benveniste.

Os "casos" discutidos por Benveniste, além de curiosos, são exemplos de análises engenhosas e detalhadas. Comparando fatos de diversas línguas indo-europeias (não se baseia em um manual de redação ou em aulas autoritárias pela TV ou em dicionários online juvenilmente "atualizados"), propõe conclusões interessantíssimas - sólidas e merecedoras de discussão. É exemplar a demonstração de que pecu (de que derivam pecuária, pecúnia e pecúlio) teve antigamente o sentido de "riqueza em pé, móvel", incluindo bípedes (escravos), mais tarde passou a ter sentido mais estrito, denotando animais quadrúpedes, depois animais miúdos, finalmente, só ovinos.

Outro caso delicioso é o da oposição sus - porcus, em latim (para cuja análise, no entanto, mobiliza dados de diversas línguas e fontes diversas), para concluir que não assentava a oposição selvagem x doméstico (porcus sendo o animal domesticado), mas a oposição adulto x filhote, que, mais tarde, quando a forma sus desapareceu, passou a ser ocupada pela dupla porcus x porcellus.

Uma nota quase pessoal, para terminar: esta oposição continuou mudando, pelo menos em algumas variedades linguísticas descendentes do latim. No "meu" bergamasco, por exemplo, a oposição não é derivada das formas porcus e porcellus. A derivada de porcus desapareceu, e sua função foi ocupada pela descendente de porcelus (Berg. porcel). E a função de porcelus foi ocupada por porcelí (uma tradução literal seria porco / porquinho, mas a correta é porco / leitão. Afinal, ninguém come um porquinho à pururuca, nem lê Os três leitões). Determinar o sentido exato de porquinho em português pode ser um projetinho. As conotações afetivas características do diminutivo português devem ser consideradas.

Agora, imagine um filólogo estudando documentos de nossa língua dentro de dois mil anos. Suponha que ele encontre a forma presidenta. Deverá, provavelmente, explicar o fato considerando pelo menos três fatores: a flexão gramatical, a ocupação do cargo por mulheres e uma ideologia feminista - isto é, um discurso que não só constate, mas também valorize o fato de uma mulher (ou de várias) ocuparem cargos tradicionalmente masculinos. É um fenômeno análogo ao que leva a distinguir pecúnia de pecúlio e a esquecer que peculiar deriva de pecúlio.

Vai ser divertido.

Mas, podemos ver, também, menos metaforicamente o discurso sociopolítico como um discurso que elabora dicionários, nos quais as fórmulas são construídas como novas entradas ou como novos sentidos. Bernard Gardin, a propósito de uma análise dos discursos produzidos nos anos 1970 no debate sobre o "programa comum" da esquerda, propunha considerar um debate desse tipo como "o estabelecimento de um dicionário". De fato, diz Gardin, trata-se, nesse debate, "para cada grupo: (1) de impor seus próprios significados aos significantes que fazem parte do vocabulário político comum: liberdade, igualdade, democracia, justiça... (esses termos que fazem crer que todos os grupos dizem a mesma coisa) e de combater a mesma tentativa por parte do adversário: recusar seu emprego dessas unidades; (2) de dar a verdadeira significação dos termos típicos do adversário, denunciando os significados ocultos: de impedir, portanto, que esses signos do adversário se instalem na língua; (3) de impor seus próprios signos linguísticos: significante e significado: participação, programa comum... ... Cada grupo político constrói, então, dois dicionários: o seu, que ele quer ver transformado em dicionário da língua, e o do adversário, que ele quer ver desaparecer." A metáfora subsiste na pena de Bonnafous e Tournier (1995: 68) quando escrevem que "o homem no poder brinca permanentemente de dicionário". Esse "jogo" não é de fato um jogo. E raramente é um jogo de soma nula. Um homem no poder, ao falar, carrega com ele no mundo real os outros homens, com as consequências de seus erros e de suas clarividências, de suas mentiras e de suas verdades. A metáfora do dicionário tem a vantagem de sublinhar que a polêmica de que a fórmula é objeto se opera, em larga medida, num nível metadiscursivo, nível ao qual daremos uma atenção especial.

O trecho acima é do livro de Alice Krieg-Planque (A noção de "fórmula" em análise do discurso; quadro teórico e metodológico. São Paulo: Parábola), que Luciana Salgado e eu traduzimos nas férias (!) de verão, há um ano. Tem, a meu ver, uma utilidade enorme, em termos metodológicos, para quem quer fazer análises de discursos, especialmente hoje, com os sistemas de busca, cada vez mais sofisticados - e que eu preciso aprender a usar.

Mas, além da utilidade metodológica, o livro contém teoria, expressa posições, cita outros autores, cujos textos vão, ora mais, ora menos, na mesma direção do da autora. A passagem acima transcrita é exemplar, a meu ver, de uma posição de enorme interesse - e de grande poder heurístico (isto é, que permite gerar conhecimentos) quando se trata da língua, em especial de seu funcionamento ligado ao poder.

Qualquer pessoa pode verificar que os discursos (políticos, mas também outros ) elaboram dicionários, ou seja, definem sentidos para palavras ou expressões. O que é uma economia "saudável", por exemplo, depende da escola a que o economista se filia (sem inflação, sem desemprego, com crescimento, tecnologicamente avançada, não exportadora de commodities etc.). Ou: o que é terrorismo? Em geral, é algum tipo de violência (e o que é violência?) cometida (e o que é cometer?) por um adversário.

Do livro A linguagem do império (de Domenico Losurdo, Rio: Boitempo): "Se o garoto palestino que protesta contra a ocupação jogando pedras é "terrorista", devemos considerar campeão da luta contra o terrorismo o soldado israelense que o mata a tiros? Não se trata de um exemplo imaginário. Uma advogada israelense, empenhada em defender os palestinos, conta sobre um 'menino de dez anos morto perto de um checkpoint à saída de Jerusalém por um soldado contra o qual tinha apenas jogado uma pedra'".

Os exemplos podem ser multiplicados. Jovens que cometem algum desatino (?) são em seguida designados como bandidos ou como desajustados ou violentos. Por que a diferença? Em geral, ela tem a ver com a cor da pele e/ou com a renda familiar.

Podemos ler jornais para ver que tipo de dicionários tentam fazer. E podemos analisar dicionários para descobrir de quais discursos provieram (por que determinada confissão é religião e outra é seita?). Que palavras registram e como as definem? Que palavras (ou flexões) excluem?

Os dicionários são um pouco como os catálogos de plantas ou de animais. Só que, em vez de definir uma planta ou animal como botânico ou zoólogo, o dicionarista às vezes a define como paisagista ou como gourmet...

E o que dizer dos debates sobre presidenta, quando não foram só burrice? Eram parte de uma luta para fazer um pedaço do dicionário do português.

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.