O 18 de brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx

09.04.2011

Diário Liberdade
Da Redação.

Retirado do Blog da Boitempo - [Ruy Braga] Passados quase 160 anos de sua publicação original, por que razão um livro dedicado à história do golpe de Estado que colocou um ponto final na curta (de 24 de fevereiro de 1848 a 2 de dezembro de 1851) experiência da Segunda República na França ainda despertaria interesse?

Em primeiro lugar, O 18 de brumário de Luís Bonaparte representou nada menos do que a confirmação do marxismo como instrumento científico de análise social. Afinal, após descobrir, em A ideologia alemã (1846), os fundamentos praxiológicos da concepção materialista da história, desdobrando-os em um programa político revolucionário endereçado ao proletariado mundial (Manifesto Comunista, 1848), ainda faltava ao marxismo recém-inventado explicar a contento a natureza íntima dos fenômenos sociais concretos.

E, colocado à prova, o marxismo revelou-se uma teoria insubjugável. Superando a historiografia liberal que, ignorando a determinação dos conflitos sociais pelos interesses das classes, concentrava-se na ação de indivíduos e de pequenos grupos para compreender as transformações da cena política, Marx soube não apenas perscrutar a mecânica totalizante da crise que levou à conflagração da República Social francesa e abreviou a "Monarquia de Julho" encabeçada por Luís Filipe, mas, ao mesmo tempo, soube antever a estrutura triangular que as lutas de classes assumiriam no século posterior. Diante do "perigo" da revolução proletária e da crise do regime constitucional burguês, levanta-se, anunciando a era de violinistas diletantes e pintores desprovidos de talento artístico, porém hábeis em galvanizar massas inorgânicas, um abobalhado Bonaparte...

No intuito de apreender o sentido do colapso quase instantâneo da vacilante República Social francesa, Marx saberá preencher com músculos vistosos a ossatura de sua teoria do Estado esboçada em obras anteriores, além de deixar para a geração ulterior de revolucionários socialistas decisivas indicações acerca da relação da classe operária com os camponeses e da necessidade de uma direção politicamente capaz de assumir as tarefas da Revolução Social. E, no momento em que variantes democráticas "bonapartistas sui generis" despertam do pesadelo neoliberal na América Latina, nada melhor do que redescobrir a obra que sedimentou as bases de todo um precioso debate político e acadêmico.

Texto escrito devido a publicação de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte , para Coleção Marx e Engels lançado pela Editora Boitempo.