Boitempo lança clássico do pensamento político marxista

19.04.2011

Fundação Maurício Grabois
Da Redação.

Décimo título da coleção Marx-Engels da Boitempo Editorial, O 18 de brumário de Luís Bonaparte traz a célebre análise de Karl Marx sobre o processo que levou da Revolução de 1848 para o golpe de Estado de 1851 na França. Escrito no calor dos fatos, entre dezembro de 1851 e fevereiro de 1852, teve sua primeira publicação em maio de 1852, com o título Der 18te Brumaire des Louis Napoleon, na estreia da revista alemã Die Revolution. A tradução brasileira tem por base a segunda edição, revisada por Marx em 1869, em Hamburgo.

Nesse texto fundamental, o filósofo desenvolve o estudo do papel da luta de classes como força motriz da história e aprofunda a teoria do Estado, sobretudo demonstrando que todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram a máquina estatal para oprimir as classes. Embasado por essa observação, Marx propõe, pela primeira vez, a tese de que o proletariado não deve assumir o aparato existente, mas desmanchá-lo.

A publicação de O 18 de brumário de Luís Bonaparte é também enriquecida com um texto de Herbert Marcuse inédito em português, escrito para a edição de 1965 da editora Insel (Frankfurt). Nele, Marcuse fala, já sob a luz do século XX, sobre como a interpretação de Marx acerca do golpe de Napoleão III antecipa a dinâmica posterior da sociedade: "Como se chegou a essa situação em que a sociedade burguesa só pode ainda ser salva pela dominação autoritária, pelo exército, pela liquidação e traição das suas promessas e instituições liberais? (...) Isso é cômico, mas a própria comédia já é a tragédia, na qual tudo é jogado fora e sacrificado. Tudo ainda é século XIX: passado liberal, pré-liberal".

Mesmo diante da conversão da irracionalidade em razão dominante e em face da derrota daqueles que se sublevaram nos anos seguintes ao terceiro Napoleão - como na Comuna de Paris, em 1871 -, Marx manteve a esperança para os desesperançados. E, como lembra Ruy Braga na orelha do livro, "no momento em que variantes democráticas ‘bonapartistas sui generis’ despertam do pesadelo neoliberal na América Latina, nada melhor do que redescobrir a obra que sedimentou as bases de todo um precioso debate político e acadêmico". Veja abaixo a integra do texto do professor Ruy Braga.

A ilustração de capa, na qual Marx pisa displicentemente no retrato de Luís Napoleão, é de autoria de Gilberto Maringoni. A publicação foi traduzida por Nélio Schneider e vem ainda acompanhada de um índice onomástico das personagens citadas no texto principal e de uma cronobiografia resumida de Marx e Engels - que contém aspectos fundamentais da vida pessoal, da militância política e da obra teórica de ambos -, com informações úteis ao leitor, iniciado ou não na obra marxiana.

Com a publicação dessa importante obra para os estudos do pensamento marxiano, a Boitempo Editorial atinge o marco de dez volumes lançados pela Coleção Marx e Engels, sempre em traduções diretas do alemão, com a participação de especialistas nos fundadores do marxismo e um aparato editorial que faz de seus livros uma referência no país.

Vale lembrar que, simultaneamente ao lançamento de O 18 de brumário de Luís Bonaparte, a Boitempo lançou a Coleção Marx e Engels em versão digital. Para mais informações sobre os títulos da Coleção, visite o site.

Apresentação de Ruy Braga para edição da Boitempo

Passados quase 160 anos de sua publicação original, por que razão um livro dedicado à história do golpe de Estado que colocou um ponto final na curta (de 24 de fevereiro de 1948 a 2 de dezembro de 1852) experiência da Segunda República na França ainda despertaria interesse? Em primeiro lugar, O 18 de brumário de Luis Bonaparte representou nada menos do que a confirmação do marxismo como instrumento científico de análise social. Afinal, após descobrir, em A ideologia alemã (1846), os fundamentos praxiológicos da concepção materialista da história, desdobrando-os em um programa político revolucionário endereçado ao proletariado mundial (Manifesto Comunista, 1848), ainda faltava ao marxismo recém-inventado explicar a contento a natureza íntima dos fenômenos sociais concretos.

E, colocado à prova, o marxismo revelou-se uma teoria insubjugável. Superando a historiografia liberal que, ignorando a determinação dos conflitos sociais pelos interesses das classes, concentrava-se na ação de indivíduos e de pequenos grupos para compreender as transformações da cena política, Marx soube não apenas perscrutar a mecânica totalizante da crise que levou à conflagração da República Social francesa e abreviou a “Monarquia de Julho” encabeçada por Luís Filipe, mas, ao mesmo tempo, antever a estrutura triangular que as lutas de classes assumiriam no século posterior. Diante do “perigo” da revolução proletária e da crise do regime constitucional burguês, levanta-se, anunciando a era de violinistas diletantes e pintores desprovidos de talento artístico, porém hábeis em galvanizar massas inorgânicas, um abobalhado Bonaparte...

No intuito de apreender o sentido do colapso quase instantâneo da vacilante República Social francesa, Marx saberá preencher com músculos vistosos a ossatura de sua teoria do Estado esboçada em obras anteriores, além de deixar para a geração ulterior de revolucionários socialistas decisivas indicações acerca da relação da classe operária com os camponeses e da necessidade de uma direção politicamente capaz de assumir as tarefas da Revolução Social. E, no momento em que variantes democráticas “bonapartistas sui generis” despertam do pesadelo neoliberal na América Latina, nada melhor do que redescobrir a obra que sedimentou as bases de todo um precioso debate político e acadêmico.