O mundo pós-11 de setembro

05.07.2011

Revista Filosofia
Gustavo Dainezi


O mundo passou, nos últimos meses, por mais um daqueles momentos-chave de sua história. Com Bin Laden morto, encerra-se um capítulo da saga americana contra seus inimigos. Mas como entender todo o processo que se estendeu de 11 de setembro de 2001 até junho de 2011? E como pensar as consequências da queda das torres gêmeas, a assimilação deste acontecimento pelo povo americano e pelo mundo? Como entender pelo que passamos e como nos prepararmos para o que passaremos?

A mídia de massa, por mais que se esforce, pode fornecer apenas informações. Quando muito, alguma reflexão ligeira. Por isso, voltar-nos à bibliografia filosófica é condição fundamental para compreendermos nossa história viva em toda a sua complexidade.

O filósofo conta com o que grande parte da mídia não conta: com um distanciamento crítico. Além, é claro, do hábito de aprofundar-se com muita perspicácia na análise e de contar com uma visão aguçada de nuanças, movimentos e consequências que o olho leigo é incapaz de perceber.

Nesta edição, recomendamos uma seleção de livros que ajudarão a refletir sobre o ocorrido no início de maio, a morte de Bin Laden, mas também as causas e consequências do conflito político-cultural do mundo muçulmano em relação ao Ocidente, com marcas tão profundas que desencadearam eventos como o 11 de setembro. Essas obras ajudam a pensar o mundo contemporâneo, a entender as relações psicológicas e de poder que se estabeleceram depois dos atentados, e a significar com embasamento e propriedade aquilo que o mundo viveu nos dez últimos anos.

A primeira obra é uma coletânea de ensaios do filósofo que hoje ocupa posição de destaque no cenário mundial. Slavoj Zizek. A obra é Bem-vindo ao deserto do real.

Sua interpretação é, ao mesmo tempo, inesperada, fascinante e reveladora. Analisa, em um primeiro momento, como nos sugere o título, a relação do primeiro mundo com o real. O avanço tecnológico do século XX acabou por transformas, da maneira mais radical, a nossa experiência de realidade. Sempre uma realidade mediada. Sempre um relato. Ou uma ficção com aparência de real.

É o caso do cinema, que, inúmeras vezes, retratou a invasão americana, que, nesses casos, chegava à beira da aniquilação. Lacaniano, analisa este fenômeno, e tantos outros, sob a égide do psicanalista francês. A ficção dos filmes tornou-se realidade e, pelo prazer tantas vezes suscitado pelos filmes, o choque desta fantasia realizada foi ainda maior. E, para piorar, a imagem da destruição veio da mesma forma que a fantasia. Repetida inconscientemente na televisão, trazia uma realidade que invadia a fantasia, com toda a sua desgraça e peso, pois o trauma só aumenta quando os americanos se dão conta de que, em primeiro lugar, não estão sozinhos no mundo, depois, de que o atentado foi uma reminiscência de suas próprias ações anteriores, do próprio capitalismo globalizado que impulsionaram.

Com este fantástico livro, que reflete ainda sobre muitos outros pontos, ficam expostas questões centrais do pensamento americano, que se voltou à sua tradicional ideologia, vitimizando-se, pensando-se legítimo para agir conforme quisesse, pois sentiu ferida sua própria honra.

E isto nos leva ao nosso segundo livro, Estado de exceção, de Giorgio Agamben. A análise da cultura política norte-americana pós-11 de setembro é brilhante e sólida.

A discussão inicial gira em torno da conceituação de democracia e de tirania, ou, nos termos contemporâneos, ditadura. A instituição de temporários Estados não democráticos que concedem praticamente todos os poderes a uma só autoridade, que sob a justificativa de proteger a democracia pode, no final, ser justamente a causa de sua ruína.

Isto porque esta prática acabou tornando-se cada vez mais corriqueira, um verdadeiro hábito dos Estados contemporâneos. Até mesmo naquela situação “normal”, como a do Brasil, o poder legislativo perde, progressivamente, suas funções, tornando-se um mero aprovador de decretos, cada vez mais abrangentes.

Não escapam do Estado de exceção nem aqueles que são uma das bases do Estado contemporâneo: os direitos humanos. Como lembra Agamben, o Patriot Act, dispositivo central do Estado de Exceção Americano, que perdura até hoje, cria uma nova categoria de prisioneiros. Aqueles que podem ser detidos apenas por uma suspeita vaga, de qualquer ligação com o “Grande Outro”, como colocaria Zizek, ou seja, com o Terrorismo. Este prisioneiro é aquele que Agamben chama de Homo sacer, resgatando o termo da Roma antiga. Este é o homem destituído de sua humanidade.

Agamben realiza, ao longo dos capítulos de seu livro, uma extensa reflexão sobre a intrincada dialética entre um Estado de direito e um Estado de exceção. Busca analisar todas as nuanças históricas da exceção política e refletir sobre as transformações dos sistemas jurídicos e, por conseguinte, da justiça como um todo. Trata-se de uma exceção e se esta exceção é constante, haverá também um sistema jurídico de exceção? Seria este sistema legítimo? É possível que a justiça seja por um momento interrompida em nome de um temor de perda de segurança?

O constante Estado de exceção que testemunhamos não se sustenta sozinho. Para que ele exista, é necessária uma cultura específica. Um clima social de constante perigo, de alerta constante, de desgraça iminente. O medo tem se tornado, cada vez mais, o sentimento padrão da sociedade ocidental contemporânea. Mas um medo transformado. Ideologizado, pois é o medo de um inimigo desconhecido, mal explicado, obscuro e difuso. Um medo paralisante e que domina toda a consciência. Este medo específico é o Terror.

O Terror, uma coletânea de artigos feito numa parceria Brasil-França, busca analisar este sentimento, que é uma das principais sequelas psíquicas deixadas pelos ataques de 11 de setembro.

Surge a partir da percepção de que a cena intelectual falhava gravemente ao analisar as transformações sociais pós-atentado e tenta atribuir sentido ao contexto social em que vivia. Caindo em bravatas e clichês, buscando sempre causas e mais causas, a intelectualidade mundial revelou-se despreparada para entender o 11 de setembro. E o livro se propõe a buscar aquilo que aparece de novo no cenário cultural humano.

Assim, a obra se divide em quatro seções, cada uma contando com a participação de pensadores das mais diversas áreas do conhecimento. Filosofia, Política, Psicanálise, Literatura, entre outras. A diversidade que, por um lado, pode horizontalizar a reflexão, por outro, nos faz compreender a extrema complexidade de um problema do presente. Problema que não conta com o distanciamento histórico que, com bastante eficácia, auxiliaria a sua compreensão.

Assim, pode-se esperar, aqui, ler de tudo um pouco. Mnas tudo sempre organizado e pautado a partir do tema da barbárie. Um tema que, desde sempre, é alvo das Ciências Humanas. O entendimento que temos dela é um problema central da questão do terror. Barbárie e Civilização novamente entram em discussão: ora como opostos, ora como praticamente simbióticos. O livro busca não somente esta caracterização, tradicional e importante, mas também outras dialéticas envolvendo a barbárie. Cada uma mais fascinante que a outra.

Primeiro, rivaliza-se Barbárie com Terrorismo. Após uma crítica inicial ao desvio da atenção intelectual de questões fundamentais que envolviam a Ética, é possível ler em texto de Jean-François Mattei a caracterização da Barbárie do Pensamento. E então, esquecemos de seu caráter fundamental, da busca pela sabedoria , que é a própria definição de Filosofia, e deixamo-nos levar pela confusão do caos, da katastrophé.

O contraste entre Terror e Barbárie leva, em última instância, a uma discussão sobre a incapacidade da razão em compreender os ataques. O bom e velho embotamento da razão é uma das principais consequências do clima de terror generalizado instaurado no pós-11 de setembro. Fascinante perceber a dinâmica entre a paixão aterrorizada e a razão quase paralisada.

Linguagem e Barbárie é o segundo tema. Interessante a apropriação de um assunto muito importante nas Ciências Sociais, que são as diferentes manifestações linguísticas e a especificidade de cada civilização – que sempre suscitaram muito debate, principalmente sobre a validade da tese da superioridade de umas sobre as outras.

Na origem da palavra “bárbaro”, temos o verbo gaguejar. Nota-se a grande importância que sempre se deu às formas de linguagem, o que Kathrin Rosenfield deine no primeiro artigo desta parte do livro, detentora de “poder de ordenar e regrar a sociedade”.

Daniel Piza, analisando com astúcia e perspicácia o cenário cultural-político-econômico, nos brinda com um texto interessantíssimo que é por si só um guia de estudos aos mais curiosos. O conservadorismo é posto em cena e seus motivos sãop destrinchados brilhantemente.

Democracia e Barbárie leva-nos diretamente à referência da missão americana de instaurar este sistema de governo naqueles que são considerados seus principais inimigos. Política e Ideologia são tratados em artigos fascinantes.

A quarta divisão é aquela mais conhecida: Civilização e Barbárie. Aqui, artigos que abordam a mais clássica divisão entre nós e o outro. O Grande outro, motivo de medo, quebra de protocolo, embotamento da razão, que só se recupera na reflexão. Livros recomendados para que triunfe o entendimento e a clareza.

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Gustavo Dainezi é formado em Comunicação Social pela ECA/USP. Desenvolve projeto de Mestrado em Filosofia pela FFLCH/USP. Atua desde 2009 como consultor pelo Espaço Ética.