Poesia, ensaios e tradução de autores clássicos marcaram o ano literário no Brasil

31.12.2011

Estado de Minas
João Paulo


Mercado em expansão ainda não definiu o modelo de livros em novas plataformas

No ano em que o Nobel de Literatura premiou um poeta, o sueco Tomas Tranströmer, inédito em livro no Brasil, a grande revelação para o leitor brasileiro foi outra poeta, igualmente ganhadora do Nobel (de 1996): a polonesa Wislawa Szymborska, que finalmente ganhou tradução no país. O lançamento dos Diários, de Maria Gabriela Llansol, primeira edição da escritora portuguesa por aqui, é mais uma afirmação da expansão do universo do sentido e da beleza.

No Brasil, a poesia também teve bons momentos, com novo livro de Francisco Alvim, O metro nenhum (um acontecimento, em se tratando de um poeta consciente, que só publica quando tem o que dizer). Vale destacar a confirmação de Ana Martins Marques, com Da arte das armadilhas, e de Lu Meneses, com Onde o céu descasca. Dois volumes de poemas ficam como referência histórica: Poesia traduzida, de Carlos Drummond de Andrade (organização impecável), e Poesia completa, de Lúcio Cardoso.

Na prosa de ficção, mais uma vez o melhor ficou para a revelação de um clássico, o argentino Museu do romance da Eterna, de Macedonio Fernández. Entre os autores nacionais, Cristóvão Tezza voltou ao conto com Beatriz, que recupera personagem de seu Um erro emocional; Michel Laub lançou o maduro Diário da queda; e Luiz Vilela voltou ao romance com Perdição. Bartolomeu Campos de Queirós, em seu primeiro romance fora da senda juvenil, lançou o intenso Vermelho amargo, obra-prima de lirismo e amargura.

A venda de livros aumentou, na média os preços caíram e as tiragens cresceram. O livro digital começa a despontar e ganhou até mesmo uma lista própria dos mais vendidos. O cenário não está definido e as editoras tateiam. A recente compra de parte da Companhia das Letras pela Penguin mostra que tem gente graúda de olho no mercado brasileiro e no vácuo dos catálogos de publicações digitais.

Russos e japoneses

Um dos sinais de maturidade literária é a oferta aos leitores de traduções de qualidade feitas diretamente do idioma original. Este ano, o brasileiro teve acesso a duas das mais importantes literaturas do mundo, a japonesa e a russa, em edições de altíssimo nível. Guerra e paz, de Tolstoi, na tradução de Rubens Figueiredo (foto), foi a mais celebrada – com razão. Dos russos vieram ainda traduções de Tchékov (Minha vida), Dostoiévski (O duplo) e da Nova antologia do conto russo (1792-1998). Da literatura japonesa, foram lançadas Trajetória em noite escura, de Naoya Shiga; 14 contos, de Kenzaburo Oe; E depois, de Natsume Soseki; O silêncio, de Shusaku Endo; O ganso selvagem, de Ogai Mori; e O mestre do go, de Yasunari Kawabata, todos vertidos diretamente do idioma original.

Papo de cabeça

Escrever bons livros sobre ciência é sempre um desafio. Em 2011, a safra foi de alto nível. E com um detalhe: são obras escritas não apenas por divulgadores, mas por cientistas de primeiríssimo plano, preocupados em levar suas ideias ao público não especialista. Entre os destaques estão Muito além de nosso eu, do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis (foto); e o estudo E o cérebro criou o homem, do português António Damásio. São dois livros sobre o funcionamento cerebral. O de Nicolelis, no tom de autobiografia científica, revela o que há de mais atual – e espantoso – na interface cérebro-máquina, com consequências impressionantes para o campo da saúde. Damásio, numa linha mais filosófica, se aprofunda nos mistérios da consciência e de seus desenvolvimentos.

A luta continua

Com o aprofundamento da crise internacional, Marx se mostrou mais uma vez o melhor caminho para compreensão do capitalismo. Depois de enterrado com a queda do Muro de Berlim, ressurgiu em novas traduções e estudos originais. No campo das obras originais, a Editora Boitempo lançou a primeira edição em português dos Grundisse, considerado o esboço de O capital. Pela mesma editora saíram duas obras de análise histórica de Marx, A guerra civil na França e O 18 brumário de Luís Bonaparte. Na área dos estudos de inspiração marxista, o livro mais importante do ano foi Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Zizek (foto), um clamor inspirado e polêmico pela recuperação do espírito revolucionário; seguido de Como mudar o mundo – Marx e marxismo, coletânea de ensaios de Eric Hobsbawn.

Realidade e memória

Em matéria de não ficção, o melhor ficou para A lebre com olhos de âmbar, de Edmund de Waal. O autor faz um mergulho proustiano nas lembranças da família para compor uma obra que é ao mesmo tempo memória afetiva e história cultural, guiada por uma coleção de miniaturas que passa de mão em mão. Quem quiser conhecer melhor a América Latina ganhou um presente: Os redentores, de Enrique Krauze, guia fundamental construído por meio de biografias certeiras de nomes como José Martí, Eva Perón, Che Guevara e Hugo Chávez. E é bom terminar com um título antigo, aliás, bota antigo nisso: Vida dos artistas, de Giorgio Vasari, considerado o primeiro livro de história da arte. Publicado no século 16, finalmente aporta no Brasil.

Histórias de vida

João Goulart – Uma biografia foi a melhor do gênero este ano. O livro de Jorge Ferreira recupera a figura histórica do ex-presidente Jango (foto), desfazendo equívocos que se colaram ao personagem. Com ampla pesquisa histórica e análises políticas consistentes, é uma obra que entra para a categoria das obrigatórias entre as pessoas dispostas a conhecer o país. No âmbito das biografias, merece destaque o belo volume P. W. Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa, de Brigitte Holten e Michael Sterll, que dá dimensão histórica, científica e existencial ao pesquisador dinamarquês. Outras boas biografias lançadas este ano foram Borges, uma vida, de Edwin Williamson; Antônio Vieira, de Ronaldo Vainfas; e Schopenhauer e os anos mais selvagens da filosofia, de Rüdiger Safranski.