Tese de doutorado é porta de entrada para filosofia de Giorgio Agamben

20.05.2012

AGEMT
Rute Pina


Filósofo profuso e autor de uma obra bastante diversificada, o italiano Giorgio Agamben foi objeto de estudo do doutorado de Jonnefer Francisco Barbosa, professor do Departamento de Filosofia da PUC-SP. A tese “Limiares da Política e do Tempo na filosofia de Giorgio Agamben” (defendida no último dia 17 de abril) foi centrada em três eixos fundamentais: os conceitos de vida nua e formas de vida, estado de exceção e soberania e o problema da comunidade.

Segundo Jonnefer, um dos objetivos da tese era “resgatar esse legado filológico da interpretação que Agamben faz de Benjamim, a partir de ‘Sobre o conceito da História’ (1940)”. Ele aponta também para a dificuldade de encontrar traduções e estudos sobre o autor no Brasil. “Boa parte das releituras dos textos de Agamben toma seus conceitos como elementos para fomentar outras questões, como a análise da linguagem ou da comunicação, e não problematizam seus conceitos próprios”, disse.

Giorgio Agamben graduou-se em Direito na Universidade de Roma com uma pesquisa sobre o pensamento político de Simone Weil, participou dos seminários de Le Thor em 1969, onde teve aulas com o filósofo alemão Martin Heidegger, de quem, segundo Jonnefer, herda seus processos metodológicos e chegou a trabalhar como ator – fez um pequeno papel em “O Evangelho segundo São Mateus” (1964), de Pasolini. Seus primeiros textos notórios, os quais lhe asseguram prestígio na França e Itália, eram voltados para o estudo literário da estética, como em “Categorias italianas” e “Estâncias – a Palavra e o Fantasma na Cultura Ocidental”. Somente a partir da década de 80, sua obra se insere no debate da política, em seu sentido institucional, iniciado com os estudos do Homo Sacer. Walter Benjamin, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Hannah Arendt foram grandes influências para a composição de seu pensamento.

No conjunto de sua obra, Agamben critica as tradicionais distinções que opõe conceitos antes considerados dicotômicos, ultrapassando polaridades como homem e animal ou natureza e cultura. Suas preposições eram elaboradas com base no princípio de Walter Benjamin de limiares, que marca a condição fronteiriça de diversos campos do saber. “A imagem para Agamben, por exemplo, tem uma problemática que ao mesmo tempo é estética, política e ontológica”, explicou Jonnefer.

Estado de exceção e soberania – Uma das chaves da filosofia de Agamben são seus estudos sobre o estado de exceção, a transformação do excepcional em regra e o significativo aumento de poder do estado em momentos de crises.

O autor faz uma análise do conceito partindo de uma visão crítica de Carl Schmitt, conservador jurista alemão do III Reich, que definia o soberano como aquele que decide sobre o estado de exceção, ou seja, quem instaura a normalidade das instituições e do direito e tem o poder de decisão em última instância. “No contexto da ascensão de Hitler, Schmitt propõe esse conceito numa tentativa de dar conta de uma anomia do poder puro proposto por Benjamin, o poder que escapa tanto do poder constituinte como do poder constituído”, afirmou Jonnefer.

Agamben resgata as discussões entre Benjamin e Schmitt sobre o poder puro “para tentar entender esta dinâmica de poder e soberania no ocidente hoje”, como afirma Jonnefer. A política dos EUA pós-11 de setembro, que implementou uma série de medidas patrióticas visando à manutenção da ordem e defesa contra novos atentados terroristas, é um dos exemplos que Agamben nos mostra de estados de exceção modernos.

Homo Sacer e a vida nua – A problemática da vida é outro tema importante na filosofia de Agamben. “É a grande questão política do ocidente para ele”, diz Jonnefer. O filósofo italiano traz para a modernidade a figura do homo sacer (“homem sacro”, em latim), que originalmente designava, nas palavras de Agamben, “uma obscura figura do direito romano arcaico, na qual a vida humana é incluída no ordenamento unicamente sob a forma de sua exclusão”. O homo sacer é aquele que pode ser morto por qualquer um, sem que um homicídio seja cometido; é dono uma vida passiva, neutra e sujeita as decisões do soberano.

Agamben traz a figura do homo sacer para os tempos atuais como o homem possuidor de uma vida nua, ou seja, de uma vida puramente biológica – o termo se aproxima ao conceito de Aristóteles de zoé, a vida puramente nutritiva. A vida nua é criada e pode ser representada, por exemplo, pela situação do ser humano nos campos de concentração da 2a Grande Guerra, como Auschwitz. “Para ele, há uma espécie de vínculo quase mágico, arcaico entre o soberano, que ele cita nos estudos de estado de exceção, e a vida nua do homo sacer. É uma duplicidade que liga o corpo do homo sacer àquele que decide sobre sua própria morte. Para ele, esta é a grande dicotomia que está presente em toda a nossa história”, explicou Jonnefer.

É importante observar que muitos desses conceitos se relacionam aos estudos da biopolítica, entretanto o Prof. Jonnefer alerta para particularidades entre Agamben e Michel Foucault. “Para Foucault, a biopolítica tem seu marco na história do ocidente. Desde o século XVIII temos a vida biológica entrando nos cálculos do poder, com o debate da fisiocracia. Já para ara Agamben, esta entrada da vida se dá já no período clássico, a exemplo do bárbaro, que para os gregos era um animal em formas humanas”, conclui.