Suave apocalipse

24.06.2012

O Estado de S. Paulo - Aliás
Roberto Simon


Impasses da Rio+20 sinalizam um mundo que sabe racionalmente que o perigo está aqui, mas não acredita nele, diz filósofo esloveno.

Slavoj Zizek é um pensador pessimista, com moderação. Lança críticas à ordem geopolítica global e à política de causas miúdas “que servem apenas para você se sentir bem”, mas se engaja com entusiasmo no movimento Occupy Wall Street. Aponta a desesperança de uma Europa em crise total, mas olha com simpatia para o Brasil dos últimos anos. Reconhece a importância de encontros como a Rio+20, mas vaticina que jamais poderão evitar o pior. No caso, um mais metafórico que literal apocalipse, “que não quer dizer apenas desastre, mas hora da verdade”.

Na entrevista a seguir, concedida com exclusividade para o Aliás, Zizek – que lança Vivendo no Fim dos Tempos (Boitempo) no mês que vem no País – faz um balanço da conferência verde do Rio de Janeiro em meio a um cenário de desolação global.

Eventos como a Rio+20, reunindo centenas de líderes mundiais, ONGs, empresas, etc, podem encontrar um denominador comum em relação ao desenvolvimento sustentável?

Sou um pessimista moderado. Claro que devemos usar de todos os recursos à disposição – estratégias de mercado, maior taxação sobre poluidores, regulação do Estado, etc – para lidar com a questão. Mas será que estamos levando realmente a sério a ameaça de uma crise ecológica global? Embora saibamos racionalmente que o perigo está aqui, de certa forma não acreditamos, não levamos a sério. Então os líderes sentam, conversam e aceitam compromissos insuficientes. Então, há o que chamo de “medidas de superstição”, que servem para fazer você se sentir bem. Somos bombardeados com mensagens como “Recicle”, “Não jogue fora seu jornal”, “Não desperdice garrafas de Coca-Cola”. Está bem, mas isso não resolverá o problema.

Grandes decisões em cúpulas internacionais não seriam capazes disso?

Elas nunca serão satisfatórias. Precisaríamos de uma coordenação internacional imensa, de um novo eixo global, que não existe. Imaginemos que as atuais tendências climáticas se mantenham: partes do mundo como a Somália, a África Subsaariana e o norte da China se tornarão progressivamente inabitáveis, enquanto outras, como o norte da Sibéria, passarão a ser perfeitamente habitáveis. Teremos de começar a pensar em mover grandes populações, milhões de pessoas, de um lugar da Terra para outro. Alguns Estados já estão considerando o que chamam de “geoengenharia”, com imensas intervenções na natureza para moldá-la. Mas não há consenso político internacional para tanto. Nem dá para colocar toda a culpa por essa ideologia nos governos. Veja o caso do Brasil: você escutam essa história de aquecimento global e, quando saem de casa, veem todo aquele verde, plantas crescendo, tudo vivo ao seu redor. Você simplesmente não consegue aceitar a ideia da ameaça ecológica.

Por que em seu livro o sr. chama a ecologia de um dos quatro cavaleiros do apocalipse?

Espere um minuto: eu constantemente digo que há um lado exagerado nesse medo, das profecias maias, de 2012, do “fim dos tempos”. Não afirmo que ocorrerá uma catástrofe em poucos meses, mas que estamos nos aproximando de uma espécie de ponto zero. O que eu estou dizendo é que em quatro, cinco domínios humanos vivemos uma perspectiva de “catástrofe”. Assistimos ao boom da China com a consciência de que o planeta não tem recursos suficientes para a continuidade dele. Sabemos que se o aquecimento global não nos levar literalmente ao fim do mundo, vai alterar as condições para o desenvolvimento em cada país. Ninguém sabe ao certo as consequências. Uma imprevisibilidade que se mostra também a nível da ciência, com a biogenética, a interação do computador com o cérebro humano, etc – tudo muito fascinante, mas ninguém sabe onde vai dar. Tampouco sabemos como e se o capitalismo financeiro vai se autorregular – e se haverá novos apartheids e exclusões sociais em massa. Vemos que um mercado global cada vez mais abrangente não significa que seremos parte de um todo, um grande mundo civilizado.

O sr. dedicou parte de sua vida acadêmica ao estudo de Hegel, assim como outro intelectual polêmico, Francis Fukuyama. Só que ele anunciou o ‘fim da história’, enquanto o sr. está falando de algo bem diferente disso...

Deixe-me lhe dizer algo que talvez o surpreenda. Fukuyama é obviamente um liberal-conservador, quase o filósofo oficial do establishment americano. Ele foi ridicularizado por sua tese sobre o fim da história, mas temos de reconhecer com honestidade que se analisarmos todos esses grandes traços permanentes de que falei agora – a internacionalização do capital financeiro, o drama da ecologia, as questões da biogené- tica – a formulação de Fukuyama não pode ser simplesmente invalidada. Peguemos o caso do Brasil. O que fizeram os governos Lula e Dilma senão aceitar como fatos a democracia parlamentar e o capitalismo, para torná-los mais justos e responsáveis socialmente, abandonando, porém, qualquer perspectiva de ruptura? Isso é Fukuyama! Nós tomamos as molduras básicas do capitalismo liberal como imutáveis. Com a ambição única de reformá-lo. Ninguém questiona mais o sistema em si. Claro que sou um opositor das ideias de Fukuyama, mas ele não pode ser descartado tão facilmente.

E não há qualquer espaço para essa crítica estrutural de que está falando?

Veja, eu me coloco cético quanto ao pequeno reformismo político, as medidas paliativas que se referem à ecologia, etc. Mas tomei parte do movimento Occupy Wall Street porque julguei que ali não se tratava de um protesto em relação a uma questão concreta – guerra, racismo –, mas uma crítica em relação aos fundamentos básicos do sistema financeiro capitalista. Aí talvez se possa achar uma chave anti-Fukuyama.

Por coincidência, gregos e egípcios foram às eleições no mesmo dia. O sr. vê alguma relação entre a crise na Europa e a emergência da chamada Primavera Árabe?

O que eu acho é que, ao contrário do que pensam alguns intelectuais ocidentais, a Primavera Árabe está longe de se reduzir a uma demanda por democracia. É todo um sistema econômico global que se revelou insustentável, com consequências políticas ainda por se adivinhar. O que posso dizer é que o capitalismo global está a procura de novos fóruns. Desde 2008 ficou claro que o equilíbrio global está rompido e nem as economias mais avançadas do mundo conseguirão manter seus Estados de bem-estar social construídos em décadas. É uma crise muito complexa e um momento muito perigoso, em que tudo que havia até agora no mundo parece simplesmente não funcionar mais. Talvez eu seja naïf no que foi dizer agora, mas penso que países como o Brasil ao menos têm pela frente uma perspectiva de manutenção dos avanços construídos ou até uma ligeira melhoria. Nos EUA e na Europa a perspectiva que se tem é de tudo piorar. Com o risco, como disse, de novas exclusões e fundamentalismos.

Então, apesar da Primavera, o fundamentalismo continua vivo no mundo?

A verdadeira questão que deve ser levantada neste momento é: por que o capitalismo atual produz fundamentalismos, em diferentes formas? Bem-vindo a tempos interessantes. Você sabe o que isso significa? Na China, quando se detesta alguém, diz-se: “Bem-vindo a tempos interessantes”. É ruim quando coisas interessantes acontecem. Quando se está feliz, nada interessante acontece, você vive em paz.

Interessante, a despeito do cenário sombrio que o sr. descreve no mundo, é o seu relativo otimismo em relação ao Brasil.

Estou consciente disso. Talvez porque os esquerdistas europeus sejam hipócritas. Eles gostam de revoluções e coisas acontecendo, mas preferem ficar distantes, para que possam simpatizar com os movimentos e não fazer nada. Como Venezuela, Vietnã, Cuba, etc. É longe, então você pode ficar feliz, mas não precisa fazer nada. Quero dizer com isso tudo que não tenho respostas, mas perguntas. Sou um ateu, mas gosto de me referir à expressão “apocalipse” pois ela não significa apenas catástrofe. É também o momento da verdade em que as coisas são revistas. Ou seja, meu apocalipse não quer dizer desastre e fogo apenas. Significa sobretudo a hora da verdade.