Nota de leitura: Vivendo no fim dos tempos

15.06.2012

Margem Esquerda 18
Kim Doria

Mais de duas décadas se passaram desde a queda do Muro de Berlim, seguida da formulação do cientista econômico e político Francis Fukuyama de que a humanidade havia chegado ao fim da história e haveria uma identidade entre instituições democráticas e mercado. A falência dos regimes socialistas teria, portanto, coroado o amadurecimento da sociedade global rumo à democracia liberal. Vivendo no fim dos tempos, de Slavoj Žižek, vem a provocar um “bloqueio de imaginação histórica”, assim como o pensamento bem estabelecido da contemporaneidade que marca o cenário democrático pós-político no qual nos vemos inseridos ao chamar atenção para a natureza autodestrutiva do capitalismo.

Trata-se de um livro de intervenção que busca atingir o imobilismo programático operante na sociedade contemporânea para, em seguida, apontar caminhos, assim como já havia feito em livros anteriores, como no Em defesa das causas perdidas, e conseguindo sempre se esquivar das críticas moralistas ao não perder de vista o sistema que opera por trás dos indivíduos que constituem essa sociedade. Segundo Žižek, o capitalismo está nos conduzindo a um ponto zero apocalíptico, devido ao desenvolvimento da crise ecológica, às consequências da revolução biogenética, aos desequilíbrios do próprio sistema e ao crescimento desenfreado da divisão e exclusão social. Somos induzidos a aceitar que o fi m dos tempos é inevitável, pois somente nele poderemos pensar retroativamente sobre como teria sido possível evitá-lo. Essa estratégia retórica nos leva a resgatar a perspectiva de um futuro ausente na concepção de “fim da história” de Fukuyama, assumindo para nós a responsabilidade de um sujeito histórico que, havendo diante de si um futuro utópico, reconhece que este estará sempre adormecido no presente.

A estrutura da obra traça uma analogia entre o processo de aceitação do fim dos tempos e o famoso esquema de cinco etapas do luto, desenvolvido pela psicóloga suíça Elisabeth Kübler-Ross: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Essas etapas dão nome aos capítulos do livro, cuja trajetória parte da análise da ideologia por meio de comentários acerca de obras da indústria cultural, piadas e situações ordinárias (negação); passa pelo exame de protestos violentos de contestação do sistema global, com ênfase na ascensão do fundamentalismo religioso (raiva); pela necessidade do marxismo de reinventar, de forma criativa, a crítica da economia política a partir de um resgate de Hegel e dos Grundrisse * (barganha); ao impacto na humanidade do colapso vindouro pelo mapeamento de novas formas de patologias subjetivas (depressão); levando, enfi m, ao surgimento de uma subjetividade emancipadora, ao apontar a origem de novas formas do comunismo, focado na análise de utopias literárias e dramatúrgicas (aceitação).

O movimento do livro parece traçar uma espiral, pois parte da análise de mecanismos subjetivos e estéticos, em um estágio alienado da sociedade atual, para chegar, ao fim, em um novo começo, analisando mecanismos subjetivos e estéticos de um processo emancipador adormecido no presente: a ideia do comunismo. “É preciso crer para ver”, afi rma Žižek ao evocar o conceito de “Evento” em Alain Badiou – aquilo que acontece somente a partir de um olhar engajado, o que apenas o olhar do sujeito que “crê” consegue enxergar. Em tempos de imobilidade social, nos quais não parece haver alternativas reais ao capitalismo nem mesmo com os movimentos de protesto que vêm tomando as ruas, Žižek intervém no plano subjetivo ao nos lembrar de um dos slogans mais significativos do Maio de 1968: é preciso ser realista e exigir nada menos do que o impossível.