Sob o "espírito"de Hegel

15.08.2011

Coleção Guias da Filosofia: Karl Marx
Emerson Sena da Silveira


Vivendo em um século de revoltas e revoluções, onde hoje é a Alemanha, região dispersa em pequenos estados e reunificados sob o comando da Prússia, a partir de 1870, Georg Wilhelm Friedrich Hegel e Karl Heinrich Marx, importantes filósofos do século 19, foram fascinados tanto pelas obras de Kant e Rousseau quanto pela Revolução Francesa.

Século 19, o tempo de sonhos revolucionários e pesadelos restauradores; da vontade romântica do indivíduo face às estruturas frias e autoritárias da burocracia estatal ou da família patriarcal; das seitas religiosas e grupos de utopia e ação política, à esquerda e à direita; dos embates entre gigantes da filosofia e os desafios das ciências e das metodologias de investigação do social e da natureza. Por outro lado, século de buscas de leis universais, racionais e passíveis de conhecimento científico: em 1859 são publicados os livros Para a crítica da economia política (Karl Marx) e A origem das espécies (Charles Darwin). Em 1873, Marx enviou a Darwin (de quem se diz admirador) um exemplar do livro O Capital, falando do seu apreço ao livro A origem das espécies. Diz-se lenda a recusa deste à suposta dedicatória daquele, no livro O Capital.

Para referir-se à relação entre as duas teorias, serão mescladas breves remissões biográficas, noras conceituais e a categoria “religião secular” que designam cerras estruturas socioculturais articuladas em torno de algumas noções. Entre essas noções, a de uma ordem essencial da realidade que se desenvolve, independente das vontades individuais, partindo racionalmente da vida mental ou da vida material e guiada por um processo imanente (Espírito Absoluto ou Classe Proletária) ou transcendente (Deus) até sua plenitude, Nessa concepção, dar-se-ia a superação da alienação, surgida desde a evolução de uma unidade original quebrada (o surgimento das classes sociais, a emergência da consciência humana) por algum motivo (acumulação primitiva do capital) e cujo processo visa alcançar a plenitude da realização. Oscilando entre proximidades e distanciamentos, a relação entre as duas teorias é, às vezes, atropelada por equivocadas interpretações de "discípulos". No caso de Marx, as dificuldades remontam aos manuscritos esquecidos e depois redescobertos pelo Instituto Marx-Engels-Lenin, de Moscou, e pelos sociais-democratas alemães. Soma-se a isso o fato do ativismo revolucionário em torno da herança teórica ofuscar ideias, distorcer e apagar algumas.

Em relação a Hegel, podem-se visualizar três grandes momentos em sua teoria: Espírito Subjetivo, Espírito Objetivo e Espírito Absoluto. Neles, é analisada a relação interna do Espírito consigo mesmo (lógica ou a maneira como o Espírito se mostra para si mesmo sem uma alteridade real; Silveira, 2001). Esse Espírito torna-se objetivo (consciência e mundo) e atinge plena consciência de si através da alteridade (liberdade e vida plena).

Convém lembrar que outro filósofo alemão refugiado do nazismo nos EUA, Eric Voegelin*, através de Hegel e dos jovens hegelianos, Marx herda as tradições do protestantismo intelectualista luterano, defensor de uma democracia humana radical.

E quem foi Hegel? Nascido em agosto de 1770 e filho de funcionário público, foi para Tübingen (seminário da Igreja Luterana), em 1788, onde se graduou em teologia e filosofia e exerceu o pastorado, o qual, em 1793, recusa como profissão. Em 1801, começou a lecionar na Universidade de Jena e, em 1806, devido às guerras napoleônicas, migra de cidade e se casa com Marie von Tucher, com quem teve dois filhos. Foi para Universidade de Berlim, em 1818, tornando-se reitor. Entre suas principais obras estão: Fenomenologia do Espírito (1806), Ciência da Lógica (1812-1816) e Enciclopédia das Ciências Filosóficas (1817-1830). Após sua morte, em 1831, seu legado intelectual foi disputado pelo que se chamou de direita e de esquerda hegelianas.

Entrincheirados na Universidade de Berlim, a direita hegeliana defendia a ortodoxia evangélica e o conservadorismo político. Os de esquerda, os Jovens Hegelianos, entre os quais destacam-se Bruno Bauer, Ludwig Feuerbach* e Karl Marx, acentuando uma interpretação materialista, tornaram-se ateístas na religião e socialistas na política.

E quem é Karl Heinrich Marx? Neto de rabinos, nasce, em 1818, o último de sete filhos de origem judaica de uma família da cidade de Trier, na época, Renânia. Herschel Marx, advogado e conselheiro de justiça, descendia de uma família de rabinos e, quando Marx tinha seis anos, converteu-se ao cristianismo luterano em virtude das restrições impostas à presença de judeus no serviço público. Em 1830, Marx iniciou seus estudos. Mais tarde, na Universidade de Bonn, estuda Direito, transferindo-se para a Universidade de Berlim onde, em 1841, cursou o doutorado em Filosofia, concluindo-o com a tese Diferenças da filosofia da natureza em Demócrito e Epicuro.

Impedido de seguir a carreira acadêmica, tornou-se redator da Gazeta Renana (Rheinische Zeitung), em 1842, jornal da cidade de Colônia, onde conheceu Friedrich Engels. Depois de críticas, em um estilo irônico, ao governo prussiano, a Gazeta é fechada, em 1843. De 1845 a 1848, vive em Bruxelas, onde participou de organizações clandestinas de operários, e redigiu, com Engels, O Manifesto Comunista. Forma-se entre os dois uma sólida amizade que o acompanha até 1883, quando foi enterrado como apátrida (sem pátria), no cemitério de Highgate, em Londres.

Com Engels, período em que apura mais seu estilo, sem os anteriores arroubos inflamados, elabora artigos sobre a Guerra Civil Americana*. No Brasil, a editora LP&M (Coleção Pocket) publicou um conjunto de artigos (da Gazeta Renana e sobre a Guerra Civil dos EUA, entre outros), sob o sugestivo título de "Liberdade de Imprensa". Esses textos, pouco lidos, mostram a permanência de leituras pouco inteligentes tanto por parte da direita (por exemplo, a ultraconservadora revista Veja) quanto da esquerda (militantes e intelectuais) sobre o legado teórico de Marx.

REALIDADE, HISTÓRIA E CRÍTICA
A frase "Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem... A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos", do livro Dezoito Brumário de Luís Bonaparte (de 1852), pode ser voltada contra Marx: a tradição da filosofia alemã, hegeliana inclusive, pesava sobre seu pensamento. Todavia, esse livro marca um dos momentos em que, saindo da oposição binária entre burguesia e proletariado, mencionam-se as frações de classe e outras classes sociais (aristocracia), a pequena burguesia (pequenos comerciantes e profissionais liberais) e o "lupemproletariado" (massa de desempregados). Entretanto há uma tensão estruturante: se a história e a sociedade são guiadas por estruturas dialéticas objetivas, materiais, racionais, qual o papel da ação humana e da subjetividade?

Assim, pode-se dizer que, embora haja dois aspectos principais do sistema de Hegel que influenciaram a teoria de Marx - a filosofia da história e a concepção dialética -, essa não foi a única influência recebida: também foram relevantes a economia política inglesa e o socialismo utópico* francês. Mas o presente artigo pautou-se por assinalar que o conjunto de escritos e livros – Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, A Questão Judaica e a Ideologia Alemã (escrito com o industrial alemão Friedrich Engels) – permitem vislumbrar a relação entre a teoria de Hegel e a de Marx.

Para Hegel, histórica e conflitiva, a realidade está em constante processo (vir-a-ser) e é racional. Em sua teoria, a oposição ou negatividade (o conflito) passa a ser visto como elemento importante. Embora aos estudantes universitários, quando introduzidos no pensamento de Hegel, a dialética aparecesse fragmentada em três momentos, tese (afirmação), antítese (negação) e síntese (negação da negação), ele não empregou tal formulação! Não se reconhece mais sua validade, mesmo que portadora de fraco sentido didático.

Enquanto o sujeito desse mundo em movimento é o Espírito do Mundo (Consciência Absoluta), a historicidade é concebida como história do progresso da consciência da liberdade. Nesse sentido, as formas concretas de organização social (Império, Estado Absolutista, Estado Constitucional) correspondem a imperativos ditados pela consciência humana (a realidade é determinada pelas ideias dos homens). Daí advém o diagnóstico de que o ser humano é o ser alienado de si. No entanto essa alienação (o intermediário entre nosso desejo e sua fruição) era histórica, havendo, portanto, de ser superada uma vez que ele realizasse em si plenamente a universalidade do espírito.

Por outro lado, Marx critica a noção hegeliana de Estado como espaço político de realização do universal, da razão e do espírito humano: o Estado é a sociedade civil alienada de si mesma, ou seja, o particularismo das classes sociais que, no caso do modo de produção capitalista, é o da classe burguesa, imposto ao conjunto da sociedade como universalidade (ideologia como ocultação da verdade e justificativa de dominação). A saída seria a revolução comunista, síntese de todas as emancipações humanas: religiosa, civil, social e econômica.

A mais noção de Hegel, o que é real é racional e o que é racional é real, permite vislumbrar a devastação produzida no campo das ciências sociais e humanas: a "filosofia da forma" entra pela porta dos fundos nas teorias historiográficas e sociológicas e se instala como "religião civil". A identidade entre pensamento e história, por meio da noção de racionalidade e télos (o sentido de toda ação), foi adotada por legiões de "profetas" (como podem ser chamados alguns e poucos grupos de políticos, historiadores, filósofos) descobridores/intérpretes de "leis/estruturas" subjacentes. Tornaram-se, por um lado "sacerdotes" defensores de verdades e "inquisidores" de hereges, mas por outro, incapazes de imaginar outras formas de pensar a história e a cultura dos homens e das sociedades.

Assim, apesar da crítica de Hegel e Marx ao romantismo, a importância da síntese entre pensamento e ação lhes servirá de inspiração. No contexto dos debates filosóficos hegelianos, a ideia da identificação entre a atividade intelectual e a prática social foi assumida pela teoria de Marx, em sua famosa formulação nas Teses Contra Feuerbach (de 1845): "Até agora os filósofos ficam preocupados na interpretação do mundo de várias maneiras. O que importa é transformá-lo" (11ª Tese sobre Feuerbach). Será preciso, partindo da crítica da religião (tarefa que Marx supõe já realizada), através da luta revolucionária, transcender a mediação, superando a ideologia e as estruturas alienadoras do modo de produção capitalista. É a emergência da teoria da práxis, fonte da escatologia marxista (Voegelin, 1961), colocando a militância marxista como modo de vida, uma espécie de "religião civil" nos países que adotaram o marxismo como princípio organizador da sociedade.

Marx afirmou inverter a dialética hegeliana: eliminou o Espírito como essência, já que a origem da realidade social não reside nas ideias, na consciência que os homens têm dela; mas na ação concreta (material) dos homens, portanto no trabalho. A noção de que o trabalho é o ato ontológico fundamental dá a medida da inversão operada. Daí a famosa noção: não são as ideias que determinam o ser social, mas o ser social que as determina.

Se, para Hegel, a realização progressiva do Espírito é um processo de consciência, para Marx, é, entre outras noções, a marcha da classe proletária rumo ao comunismo e que se confunde com a marcha da história, uma marcha racional com um télos (o que finaliza e conduz à plenitude). No entanto, o que se tirou com uma das mãos, acrescentou- se com a outra: o Sujeito (essencial e objetivo) retorna novamente. Ao invés do Espírito Absoluto, é uma classe social (proletária), portadora da verdadeira liberdade. Combinando Hegel e referências à teoria de Darwin, conclui-se: a totalidade da história pode ser expressa sob uma simples grande lei natural. Voegelin tinha razão: de um arcabouço teórico, às vezes orientado por um ingênuo iluminismo, o marxismo tornou-se "religião secular", ao espalhar-se como uma corrente de movimentos revolucionários. Isso é o resultado da "dogmatização" da teoria de Marx, algo que, em vida, sempre repudiou.

SENTIDO DA HISTÓRIA

Entre 1848-50, Marx esperava a grande revolução a partir da evolução das revoltas de 1848 na Europa. Em um trecho do Manifesto Comunista observa: "A revolução burguesa na Alemanha será apenas o prelúdio de uma evolução proletária imediatamente subsequente". Quando a revolução falhou, muitas explicações foram procuradas, e seus ecos estão nos livros A Luta de Classes em França (de 1850) e O 18 Brumário de Luís Bonaparte (de 1852). Em 1850, no Discurso à Liga Comunista, desenvolve pela primeira vez a estratégia da luta de classes, cunhando a palavra de ordem: "evolução permanente": a História Humana é concebida como a história das lutas entre as classes. Segundo o Manifesto Comunista "o Governo do Estado moderno é apenas um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia".

Ou seja, dentro da história haveria um sentido que, dialeticamente, ergue-se a partir das contradições de classe, expressão dos "férreos" processos de produção da vida material dos homens. Tais processos formam a infraestrutura sobre a qual se ergue a superestrutura: arte, direito, religião, política. Os modos de produção, no interior dos quais se articulam as relações sociais e as forças de produção, permitem que deles surjam as classes sociais, variadas historicamente, mas sempre em conflito porque ocupam objetivamente posições opostas, no modo de produção: uns, os donos dos meios de produção (fábricas, máquinas, ferramentas etc.); outros, expropriados e forçados a vender sua força de trabalho em troca de um salário para sobreviver.

Na História, desde que o homem necessitou transformar a natureza para sobreviver, sucedem-se os modos de produção (governado por "leis" internas) em um crescente movimento espiralar, trazendo em si mesmos contradições objetivas. Superados, desembocam em novos modos de se produzir/organizar a vida dos homens.

Mas, apesar disso, o Manifesto Comunista guarda trechos de profunda beleza e aguda análise de filosofia política: “Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia calcou aos pés as relações feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus 'superiores naturais' ela os despedaçou sem piedade, para só deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do 'pagamento à vista'. Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. [...] A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até então reputadas veneráveis e encaradas com piedoso respeito. Do médico, do jurista, do sacerdote, do poeta, do sábio fez seus servidores assalariados. A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias”. E uma das suas mais impressionantes frases: "Tudo que é sólida desmancha no ar". Ou seja, os tempos modernos, tempo do capital e do trabalho, e das lutas entre as classes, são tempos de mudança constante e permanente (influência da concepção dialética da teoria de Hegel), mas tempo sem encanto algum, governado por "leis" econômicas racionais e impessoais. A força dessas "leis" só faz aumentar, entre partes da elite e das sociedades, o desejo de retorno ao "Velho Mundo" (conservadorismo moral). Mas, na estrutura da sociedade capitalista (irreversível, mas cuja crença, e desejo, de superação permaneciam em Marx), é um sonho que se torna ou hipocrisia ou uma aventura à moda de Dom Quixote*. Por isso, avalia-se que Karl Marx soube harmonizar melhor o imperativo Iluminista e o desejo Romântico do que Hegel.

Assim, é preciso “soltar” as interpretações teóricas das prisões “metafísicas” a que a prática política e social (entre o fim século 19 e a metade do século 20) relegou as ideias de Karl Marx. Observese que houve outras formas de ler a teoria de Marx como o Marxismo Ocidental*, desviando-se parcialmente do "Espírito Hegeliano", cabendo citar Antônio Gramsci, na Itália nas décadas de 1920 e 1930, possibilitando, com sua leitura, um desdobramento prático: a aliança entre os partidos comunistas e setores dos partidos cristãos italianos para empreender mudanças sociais.

Cabe lembrar que a violência praticada pela União Soviética sob o governo de Stalin (milhões de camponeses/centenas de membros do PC morreram com coletivizações forçadas e expurgos políticos) e a repressão a homossexuais na atual Cuba dos Castro constituem desdobramentos desse coquetel de interpretações "religiosas" de ideias hegeliano-marxistas e interesses político- econômicos de segmentos ligados às burocracias e aos partidos políticos.

O problema é a interpretação “determinístico-metafísica” que alimentou certa militância "político-religiosa" em torno da herança teórica de Hegel e Marx. Esta, cruzada com a noção de ideologia como ocultação do real e dominação de uma classe (burguesa) sobre outra (proletária), permite visualizar um limite, expresso na seguinte concepção: somente o que meu grupo, intelectual ou militante, pensa e faz intelectual e politicamente é científico e verdadeiro; o que os outros fazem é falso ou é ideologia (máscara) de interesses político-econômicos de classe.

Pode ser feita uma analogia a partir da sociologia da religião com o conceito de seita, grupos voluntários de homens que se consideram eleitos, contrapondo-se a um mundo mal, porque só eles conhecem o sentido da história (télos), ideia comum a grupos de ultradireita e extrema esquerda.

Inspirando-me em uma tipologia ideal weberiana, imagino o que algumas pessoas poderiam pensar: “é preciso resgatar o mundo das trevas”. Ou, no caso de certos grupos marxista-leninistas, instaurar a igualdade, mesmo que com armas, tomando-se o poder do Estado. Marx não aprofundou a perspectiva utópica (comunismo), mas procurou analisar profundamente o capitalismo. Isso é feito em sua obra maior, O Capital, cujo primeiro volume escrito pessoalmente (os outros dois foram publicados por colaboradores a partir da reunião de notas), é dotado de boas doses de “veneno hegeliano” teleológico e metafísico.

Mas, identifica-se outro fio a percorrer as duas teorias: a questão da liberdade humana e das férreas necessidades (do mundo material, da vida social) e a busca da emancipação humana (cívica, econômico-social e existencial), uma tarefa ainda inacabada (permanentemente?). Nesse sentido, parte da teoria de Marx é muito atual. Já o pensamento de Hegel... Bem, isso é assunto para outro artigo.

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(*) A origem das Espécies
Com um título "quilométrico" na primeira edição (1959), posteriormente abreviado para The Origin of Species (A Origem das Espécies), o livro do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882) é um marco da biologia moderna. A teoria da evolução e outras questões discutidas em suas páginas tornaram- se paradigmáticas para as ciências naturais. A repercussão foi tão intensa no século 19 que até mesmo os cientistas sociais utilizaram referenciais do darwinismo para tentar explicar os fenômenos da sociedade.

(*)Eric Voegelin
Filósofo e historiador alemão, Erich Hermann Wilhelm Voegelin, ou Eric Voegelin (1901- 1985) estudou direito na Universidade de Viena e, com a ascensão do regime nazista na Alemanha e a anexação da Áustria, exilou-se nos EUA. Pensador identificado com o pensamento de direita, Voegelin foi um crítico do marxismo. Alguns de seus livros publicados no Brasil são Hitler e os Alemães, Reflexões Autobiográficas e os cinco volumes de A Ordem e a História.

(*) Ludwig Feuerbach
Um dos "jovens hegelianos", o filósofo alemão Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872) escreveuA Essência do Cristianismo e tem como um dos eixos de seu pensamento a teologia humanista. Karl Marx debaterá a filosofia de Feuerbach em diversos escritos.

(*) Guerra Civil Americana
A Guerra Civil Americana, ou Guerra de Secessão, ocorreu com maior intensidade nos EUA entre os anos de 1961 e 1965. Em um resumo dos fatos, o conflito envolveu os Estados Confederados do Sul, rural e escravista, contra os Estados da região norte, na condição de Estados Unidos da América, com maior grau de industrialização e abolicionista. Os estados do Norte venceram ao final das batalhas, e a unidade dos EUA foi sacramentada.

(*) Socialismo utópico
Os socialistas utópicos - em alusão ao livro Utopia, de Thomas Moore (1478- 1535) - acreditavam que o socialismo (isto é, uma sociedade fundada na igualdade entre os homens) poderia acontecer de forma gradual, sem rupturas, de forma quase consensual. As principais figuras do socialismo utópico na França foram Saint Simon (1760-1825) e Charles Fourier (1772- 1837). Entre os ingleses, destacou-se Robert Owen (1771-1858). A tradição do marxismo, por oposição aos "utópicos", proclamouse "socialismo científico".

(*) Dom Quixote
Incialmente publicado como El Ingenoso Hidalgo Don Quixote de La Mancha (1605, segunda parte de 1615), Dom Quixote é a obra-prima do escritor Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616) e a principal obra literária espanhola de todos os tempos. O personagem Dom Quixote, que desafia moinhos de vento, tornouse sinônimo de um lutador sonhador, meio delirante, meio romântico, que trava batalhas "quixotescas".

(*) Marxismo Ocidental
Embora não seja uma definição consensual, o termo "Marxismo Ocidental" remete à produção de análises e reflexões feitas por autores, sobretudo europeus, que eram críticos ao marxismo pregado na União Soviética e propunham uma releitura da obra de Marx. A expressão teria sido cunhada primeiramente pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty. Entre os mais importantes marxistas ocidentais, nomes como Henri Lefebvre, Theodor Adorno (e os frankfurtianos em geral) e Antonio Gramsci. A revista New Left Review, criada nos anos 1960, contribuiu para a difusão dessas ideias.

REFERÊNCIAS
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INSTITUTO DE MARXISMOLENINISMO. Karl Marx: Biografia. Moscou: Progresso. Lisboa: Avante, 1983.
LANDSHUT, S. e MAYER. JP. Der historische Materialismus. Die Frühschriften, 2 vols. Leipzig, 1932.
MARX, K. A Guerra Civil na França. São Paulo: Boitempo, 2011.
_____. O Dezoito de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.
_____. Sobre a Questão Judaica. São Paulo: Boitempo, 2010.
_____. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.
_____. Manuscritos Econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004. MARX, K.; ENGELS, F. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
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SILVEIRA, R. Judaísmo e Ciência Filosófica em G.W.F. Hegel. Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2001.
VOEGELIN, E. Estudos de Ideias Políticas: de Erasmo a Nietzsche. Lisboa: Ática 1996.
_____. Science, Politics and Gnosticism. Chicago: Regnery Gateway, 1961.

Emerson J. Sena da Silveira é cientista social, doutor em Ciências da Religião e professor do Departamento de Ciências da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É autor, entre outros livros, de Corpo emoção e rito: antropologia dos carismáticos católicos (Armazém Digital, 2008). E-mail: emerson.silveira@ufjf.edu.br