A boa-fé negociada

15.03.2013

Revista Filosofia (Escala)
Vivian Vigar

Em tempos de politicamente correto, em que a caridade e o bem-fazer estão em alta, as ideias de Bianchi e Žižek mostram estas atitudes serem apenas mais um jogo mercantil para a estimulação do consumo sem culpa

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Em constante renovação, o capitalismo hoje é travestido de máscaras ideológicas da tolerância, que velam a economia global em suas formas mais cruéis. O estímulo do consumo na atualidade se dá por meio da boa-fé das pessoas, que acreditam estar ajudando em causas sociais ou sustentáveis - ou também apenas se utilizam dos artifícios para livrar-se da culpa. De qualquer forma, entretanto, o resultado final desemboca naquilo que trará êxito ao eficiente ciclo do consumo, que precisa se ampliar e tornar essencial aquilo que não é.

As máscaras do capitalismo referem-se ao "cinismo descarado" deste sistema global que, ao invés de agir pontualmente a favor da emancipação da população explorada, prolonga o status quo por meio de discursos e práticas distorcidas. A "sustentabílidade" ou "inclusão social", por exemplo, que se tornaram necessárias para a continuidade da ordem mercadológica e, consequentemente, vêm perdendo sua funcionalidade real.

Sob o signo da responsabilidade social, cada vez mais os governos neoliberais estão delegando funções de cunho social, antes da incumbência restrita dos órgãos públicos, a empresas privadas. No Brasil, vemos isso na forma de projetos de incentivo à Cultura, Educação e Meio Ambiente, cujo valor, que é distribuído em forma de produto social, é abatido do imposto de renda e retoma para a instituição investidora como marketing. Isso não é novidade. A pergunta que surge é: qual a verdadeira preocupação da empresa que "investe" na inclusão social ou na Cultura? E a do Governo?

Dois intelectuais contemporâneos chamam a atenção quanto ao tratamento desta relação entre a sociedade e os poderes que a dirigem. O filósofo esloveno Slavoj Žižek (1949) e o cineasta brasileiro Sergio Bianchi (1945):Bianchi concentra o seu trabalho na representação da sociedade brasileira, enquanto Žižek busca tecer um conhecimento amplo sobre as diversas manifestações culturais pelo mundo. Percebendo o fenômeno - que não é exclusivamente brasileiro, apesar de funcionar por meio de mecanismos diversos e diferentes pelo mundo -, Slavoj Žižek explica por que, hoje, "caridade não é mais apenas uma idiossincrasia de alguns caras legais, mas o constituinte básico da nossa economia".

Hoje não mais compramos, vendemos e damos parte para uma "boa causa" como, por exemplo, para a Ecologia. No ato de consumir está cada vez mais implícito o ato caridoso, ou anticonsumista. Quando entramos em uma grande loja de café, por exemplo, podemos nos deparar com selos e cartazes que garantem que o café ali vendido é produto de uma negociação justa - o fair trade - que resulta no investimento e crescimento sustentável das comunidades que plantam os grãos. "Você não compra apenas um café, você compra o próprio ato do consumo [...] Você compra a própria redenção por ser um consumidor", diz Žižek, que chama isso de Capitalismo Cultural - empregando e adaptando o termo Capital Cultural, cunhado por Pierre Bourdieu: paga-se pelo produto e mais a política de "boa ética" proposta pela empresa.

Outro exemplo explorado pelo filósofosão as maçãs orgânicas. Provocador, Žižek acusa os compradores de maçãs orgânicas de preferi-las não realmente por acreditarem que será melhor do que aquelas com agrotóxicos ou geneticamente modificadas (e que custam metade do preço), mas porque assim eles podem pensar que estão fazendo "algo pela nossa Mãe Terra, pelo nosso planeta etc. etc,", Ele admite ser cético e cínico, argumentando ser esse o preço do "ato egoico de consumo".

ECO MERCADOLÓCICO

Em uma das cenas do filme Quanto vale ou é por quilo?, do cineasta Sérgio Bianchi, um dos personagens principais, Ricardo, um consultor para ONGs que precisam captar recursos para projetos, faz um vídeo institucional convidando parceiros para sua empreitada, explicitando o que constitui esse ato egoico aplicado mercadologicamente: "Consumidores da classe AA sempre imprimiram o seu padrão de consumo a outras classes. Hoje, a classe média também quer ter o luxo de ter princípios. Daí esse surto de ações sociais. Só no Brasil, estimam-se cerca de 20 milhões de voluntários. Para as empresas, esse público de 20 milhões é potencialmente gerador de lucros. Por outro lado, o consumidor quer que a empresa tenha responsabilidade social. A empresa socialmente responsável pode até vender mais caro que a concorrente, afinal está cobrando mais pelo bem comum. A sua empresa também pode se associar a esse projeto vencedor".

A cena acima, cuja carga cínica é construída pelo personagem ao longo do filme, pode ser contraposta a uma citação que Žižek faz de um livro de Oscar Wilde, A alma do homem sob o socialismo: "Os piores donos de escravos são aqueles que são bons para os seus escravos e que assim impedem que o núcleo do sistema seja percebido por aqueles que sofrem com ele e que seja entendido por aqueles que o contemplam. A caridade degrada e desmoraliza. É imoral usar a propriedade privada de forma a aliviar os males horríveis que resultam da instituição da propriedade privada". (Ironicamente, esta citação foi proferida em uma palestra de Žižek na RSA - Royal Society for the encouragement of Arts, Manufactures and Commerce -, uma organização não governamental e sem fins lucrativos, patrocinada por pessoas físicas e jurídicas, cujo objetivo é encontrar soluções práticas para os desafios sociais contemporâneos).

Enquanto Žižek teoriza sua visão de mundo, Bianchi constrói cenas impactantes sobre a hipocrisia e a pobreza (inclusive de "espírito") de nossa sociedade, colocando o espectador diante de uma verdade traumática. Para ilustrar o que entende por verdade traumática e alertar para a tendência que temos em não lutar e vivermos uma mentira, Žižek cita um trecho que Marx escreve em Crítica da filosofia do direito de Hegel: "É preciso tornar a pressão efetiva ainda maior, acrescentando a ela a consciência da pressão, e tornar a ignomínia ainda mais ignominiosa, tornando-a pública. É preciso retratar cada esfera da sociedade alemã como partie honteuse [parte vergonhosa] da sociedade alemã, forçar essas relações petrificadas a dançar, entoando a elas sua própria melodia! É preciso ensinar o povo a aterrorizar-se diante de si mesmo afim de nele incutir coragem".

Assim, os filmes do cineasta parecem concordar com Žižek quando diz que as viradas em direção à emancipação acontecem quando essa verdade traumática "não só é aceita de maneira distanciada, como também vivida por inteiro", quando "nos apavoramos com nós mesmos". É esse o efeito que Bianchi causa em seus espectadores: desgosto com a nossa própria condição de ser humano para, então, podermos escapar da mentira que é o "estado 'espontâneo' da vida cotidiana". Em outras palavras, metaforicamente, um soco no estômago, uma puxada de tapete de quem acha que está contribuindo para a sociedade fazendo caridade ou levantando uma bandeira de "boa causa".

Então, essa é a verdade traumática que Bianchi forja em seus espectadores ao filmar Cronicamente inviável. A primeira cena do filme, um homem mexendo em um vespeiro com uma tocha, simboliza o que estamos para assistir: o tráfico de órgãos, o abuso de autoridade por parte da Polícia Militar, o separatismo sulista, a alienação do povo no Carnaval, entre outros temas complexos. A "realidade brasileira" é enfatizada pelo diretor por meio de personagens como o casal carioca da classe média alta, Maria Alice e Carlos: ela demonstra compaixão para com as pessoas de classe mais baixa e ele, de visão pragmática sobre a vida, acredita na racionalidade como forma de tirar proveito da bagunça típica do Brasil. É dele um marcante discurso sobre a "institucionalização" do "trambique" nacional, tornando impossível sobreviver no país honestamente.

Além disso, ele ridiculariza a esposa por sua "vontade de ajudar o próximo" (sendo claro no filme que ela muito mais fala sobre a desigualdade do que faz) e seu hábito de humilhar a empregada doméstica, com a justificativa de que "a lei do menor esforço é a que rege o mundo. É preciso manter as pessoas em permanente tensão".

No filme Quanto vale ou é por quilo?, Bianchi fala não somente sobre a falta de Ética no "comércio" da caridade no Brasil, mas também traça um paralelo entre a situação dos negros brasileiros durante o período da escravidão e a situação, hoje, dos herdeiros (que não são, necessariamente, descendentes dos africanos), dessa "justiça" escravocrata que exterminou qualquer possibilidade de superação e emancipação, a curto prazo, das camadas dominadas. A discussão nos leva a um outro personagem desta obra, um jovem cuja história se cruza com a do consultor Ricardo quando ele o sequestra com a justificativa de que esse seria um mecanismo de "distribuição de renda e justiça social". Žižek compara - inclusive citando um "arrastão" no Rio de Janeiro - esse tipo de mecanismo de justiça social (ou vingança, ou justiça com as próprias mãos) ao conceito de "violência divina", desenvolvido por Walter Benjamin. "Mutatis mutandis, devemos repetir o mesmo propósito da violência divina: 'Ora, muito bem, cavalheiros teóricos críticos, querem saber como é essa violência divina? Vejam o terror revolucionário de 1792 a 1794. Aquilo foi violência divina. (E a série pode continuar: O terror vermelho de 1919...). Ou seja, devemos identificar sem temor a violência divina com fenômenos históricos que existiram concretamente, evitando, assim, qualquer mistificação obscurantista. Quando os que estão fora do campo social estruturado atacam 'cegamente', exigindo e encenando a justiça/vingança imediata, isso é 'violência divina' - recordemos o pânico que tomou o Rio de Janeiro há cerca de uma década, quando multidões desceram das favelas para a parte rica da cidade e começaram a saquear e a queimar supermercados: isso foi 'violência divina' ...

Como os gafanhotos na Bíblia, punição divina dos atos pecaminosos dos homens, ela ataca do nada, é um meio sem fim. Ou, como disse Robespierre no discurso em que exigiu a execução de Luís XVI: 'Os povos não julgam do mesmo modo que os tribunais; eles não dão veredito, eles lançam raios; eles não condenam reis, eles os jogam no vazio; e essa justiça vale tanto quanto a dos tribunais?". O sequestrador, um negro, agora preso e inconformado com a sustentação do poder em nossa sociedade, e cuja sagacidade e senso crítico são simbolizados pelos óculos de grau que usa, reflete a ideia de Žižek sobre uma enorme parcela da população, os "favelados", que "não são apenas um excedente desnecessário: eles se incorporam de várias maneiras à economia global". De dentro de uma cela superlotada, o presidiário diz: "Esse é o nosso navio negreiro. Dizem que a viagem era bem assim.

Só que ela só durava dois meses. E o principal, o navio ia terminar em algum lugar. Na escravidão, a gente era tudo máquina. Tudo máquina! Só que aí eles pagavam o combustível e a manutenção para que a gente tivesse saúde para poder trabalhar de graça para eles. Agora não. Agora é diferente. Agora a gente é escravo sem dono. Cada um aqui custa 700 paus para o Estado por mês. Isso é mais do que três salários mínimos. Isso diz alguma coisa sobre esse país. O que vale é ter liberdade para consumir. Essa é a verdadeira funcionalidade da democracia". Seriam as favelas e periferias dos grandes centros urbanos brasileiros um tipo novo de apartheid? Parece coerente usar esse termo para designar a conjuntura em que vive a população marginalizada (e, subsequentemente, carcerária) do Brasil e que assistimos nos filmes de Bianchi.

Diferente de Quanto vale ou é por quilo? e Cronicamente inviável, um terceiro filme de Bianchi, Os inquilinos, é uma narrativa de ficção linear, que não alterna com aspectos do gênero documentário. Nesse filme, o cineasta se concentra no desenvolvimento de um personagem central, Valter, trabalhador informal, ou seja, sem direitos ou garantias. O personagem, morador de um bairro de classe média baixa do subúrbio de São Paulo, tem sua consciência e rotina abaladas quando homens, aparentemente criminosos, alugam a casa ao lado.

Como se não bastasse a violência cotidiana que vive (o ônibus lotado, as brigas que assiste no trânsito, a falta de respeito do chefe, o contato com a miséria e por aí vão as situações com que o cidadão, principalmente o mais pobre, se depara diariamente), Valter, esposo e pai de um casal de adolescentes, entra num processo de paranoia, pois passa o dia todo fora, trabalhando, e a noite frequentando o curso de Educação para Jovens e Adultos (EJA), sem saber ao certo o que acontece e quais riscos ele e sua família estão correndo. Quando, finalmente, chega em casa, ele ouve os comentários da esposa sobre os vizinhos suspeitos que não trabalham, criam confusão na rua e fazem festas exageradas com prostitutas e som alto, que avançam pela madrugada e perturbam o sono do trabalhador honesto. São o medo e a incerteza instaurados em sua vida, provocados pelo" desconhecido conhecido".

DESCONHECIDO CONHECIDO


Para entender o termo é importante lembrar de um evento de 2002 quando, após os Estados Unidos falharem em comprovar a existência de armas de destruição em massa no Iraque, o então secretário da Defesa norte-americano, Donald Rumsfeld, tentou explicar a falta de evidências de ligação entre o terrorismo da Al-Qaeda e o Iraque com uma declaração pontuando três tipos de certezas: 1) conhecidos que conhecemos; 2) conhecidos que desconhecemos; e 3) desconhecidos que desconhecemos. "Há conhecidos que conhecemos, há coisas que sabemos que sabemos. Também sabemos que há conhecidos que desconhecemos, o que quer dizer que sabemos que há algumas coisas que não sabemos.

Mas também há coisas desconhecidas que desconhecemos, aquilo que não sabemos que não sabemos." Em 2004, Žižek escreveu um artigo acusando o governo Bush e Rumsfeld de promover a tortura de internos da prisão de Abu Ghraib - acusação essa que veio a ser confirmada poucos anos depois. Ele propôs, então, um quarto tipo de certeza: Q "desconhecido que conhecemos". Ou seja, "...as coisas que nós não sabemos que sabemos, que é, precisamente, o inconsciente freudiano, o 'conhecimento que não se conhece', como Lacan costumava dizer. Se Rumsfeld acha que os principais perigos no confronto com o Iraque foram os 'desconhecidos desconhecidos', ou seja, as ameaças de Saddam, cuja natureza não podemos sequer suspeitar, então o escândalo de Abu Ghraib mostra que os principais perigos residem nos 'conhecidos desconhecidos' - crenças, suposições e práticas obscenas renegadas que fingimos não conhecer, mesmo que elas formem o pano de fundo de nossos valores públicos".

Voltando à consciência do personagem Valter - e da população que vive o terror urbano -, vemos todos .os tipos de medos possíveis provocados por "certezas incertas" (ou seriam "incertezas certas"?), que não nos permitem verificar como ou de onde o perigo virá (desconhecido conhecido). A eminência de uma tragédia que nos cerca, causando a desconfiança entre os conterrâneos, mas ao mesmo tempo nos paralisando, pois seria obsceno (usando um termo de Žižek) declarar esse medo e agir contra ele levando em conta que tudo o que temos são incertezas.

Será que existe, de fato,uma preocupação de instituições privadas e do governo quando "investem" na "inclusão social" , ou será que existe apenas a intenção de manter o poder nas mãos de poucos? A impressão que temos ao interpretá-los é de que eles acreditam que vivemos em uma conjuntura violenta e traumática disfarçada de bons propósitos que visam o interesse de poucos.

As ideias de Bianchi e Žižek parecem se interceptar o tempo todo, demonstrando que é possível desenvolver um senso crítico e não se deixar enganar pela ideologia que tenta nos conduzir para dentro da caverna de Platão.

Referências

BAKER,C. lhe SAGE dictionary of cultural studies. Londres: Sage, 2004.

BIANCHI, S. Entrevista com o diretor do filme Quanto vale ou é por quilo? [16 de maio de 2005J São Paulo: Revista Época. Entrevista concedida a Ana Aranha e Cléber Eduardo. Disponível em: Acesso em: 17 jan. 2013.
__Entrevista Bianchi http://p.php. uol.com.br/tropico/html/textos/3025,1. shl - nA indignação de Sergio Bianchi", por Alan de Faria. Publicada em 21/10/2008.

ZIZEK, S. What rumsfeld doesn't know that he knows about Abu Ghraib. In These Times. mai 2004. Disponível em: Acesso em: 17 jan. 2013.
__ First as tragedy, then as farse. Depoimento em vídeo [24 de novembro de 2009J. Londres: RSA. Disponível em: < http://www.thersa.orglevents/video/ archive/slavoj-zizek-first-as-tragedy,-thenas- farse >. Acesso em: 17 jan. 2013.
__A visão em paralaxe. Tradução: Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2008.
__Em defesa das causas perdidas. Tradução: Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2011.
__Vivendo no fim dos tempos. Tradução: Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2012

Vivian Vigar é Mestranda do programa de educação, arte e história da cultura na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pósgraduada em Jornalismo cultural pela FAAP e graduada em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi