o socialismo é mais urgente do que nunca

15.04.2013

Filosofia
Ruy Braga


O capitalismo está em crise profunda e, sem uma solução socialista para a crise atual, a tendência é o mundo se aproximar, cada vez mais, de um colapso da civilização. A opinião contundente é de Ruy Braga, um dos participantes do seminário internacional Marx: a criação destruidora, evento que reúne alguns dos mais importantes especialistas na tradição marxista. Braga, que é professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania da USP, além de autor de inúmeros livros, vai ministrar uma das aulas previstas, abordando o tema "Democracia, trabalho e socialismo", além de ser o mediador da mesa de debates "Crítica da economia política hoje". O professor analisa as consequências da crise econômica global e da nova configuração política no mundo, e aponta como fundamental o papel da obra de Karl Marx dentro do panorama atual. Para ele, não é possível enxergar e compreender o mundo moderno sem os conceitos de fetichismo da mercadoria, concorrência capitalista, exploração econômica, subordinação do trabalho ao capital, formação de capital fictício e outros aspectos difundidos por Marx.

"À medida que a crise capitalista se aprofunda, tenho certeza que mais e mais jovens irão se sentir estimulados a descobrir um Marx liberto de seu cárcere stalinista e aberto às novas práticas coletivas de auto-organização dos subalternos. Consequentemente, sua obra-prima será cada dia mais valorizada no ,futuro", decreta.

FILOSOFIA: É inquestionável que a ordem política e econômica atual traz, como consequência, a crise financeira e uma nova configuração política no Brasil e no mundo, deixando nítido seu caráter antissocial. Dentro desse cenário, é hora de relembrar o ideário da Filosofia marxista e o que ele tem a nos ensinar hoje?

Braga: Em primeiro lugar, é importante destacar que a crise econômica, que se iniciou em 2008, destruiu os dois principais dogmas econômicos neoliberais: mercados tendem ao equilíbrio, devendo ser protegidos da regulação pública, e finanças são dotadas de uma dinâmica virtuosa capaz de perpetuar a criação de valor excedente em benefício de todos. A atual crise desnudou várias das tendências poderosamente regressivas, que sempre estiveram presentes na história da mundialização capitalista: a ditadura dos bancos, o desemprego de massas, a polarização da renda, o ataque aos direitos sociais, o sequestro do futuro e a irracional idade da financeirização. Infelizmente, na Europa e nos Estados Unidos, a crise atual encontrou o movimento socialista na defensiva, acuado ideologicamente tanto pela derrocada das sociedades burocratizadas do Leste europeu quanto pela hegemonia de uma social-democracia acomodada ao neoliberalismo. Nesse contexto, apesar dos esforços de inúmeros intelectuais e ativistas sociais, o pensamento de Marx (e dos marxistas críticos) ainda não voltou à baila. E, afinal, como seria diferente, sem partidos políticos marxistas com influência de massas? No entanto, aqui cabe a observação: se não voltou, deveria. Não vejo a menor possibilidade de uma solução para a crise atual, em benefício da humanidade, que prescinda dos ensinamentos de Marx, desde a teoria do fetichismo da mercadoria, das crises cíclicas do capitalismo, do capital fictício etc. Isso sem mencionar a lição mais importante de todas: "a emancipação da classe trabalhadora será obra da própria classe trabalhadora".

FILOSOFIA: Existe um marxismo brasileiro?

Braga: Na medida em que o movimento de expansão do capital industrial se internacionalizou, por meio de um processo no qual relações sociais modernas se mesclaram com relações sociais arcaicas nos mais diferentes contextos nacionais, o marxismo foi obrigado a enfrentar o desafio do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo. Deixando de lado o livro de Kautsky sobre a questão agrária na Europa e nos Estados Unidos, que apenas tangenciou a Alemanha, Lenin, com o seu inspirado estudo intitulado O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, inaugurou um tipo de reflexão marxista, digamos, "autóctone". Outros exemplos, igualmente inspirados, devem ser lembrados: Antonio Gramsci, na Itália, e José Carlos Mariátegui, no Peru, por exemplo. No Brasil, temos uma longa tradição marxista, que remonta à década de 1930, e que se propôs à tarefa de pensar a particularidade do capitalismo brasileiro para além dos empobrecidos e abstratos esquemas stalinistas de análise. Refiro-me ao trabalho de marxistas como Mário Pedrosa, Fúlvio Abramo, Lívio Xavier e Aristides Lobo, por exemplo, que inspiraram toda uma geração de intelectuais debruçados sobre a discordância das temporalidades ensejadas pelo desenvolvimento do capitalismo no país: Florestan Fernandes, Boris Fausto, Francisco Weffort e Chico de Oliveira, para ficarmos apenas em alguns dos exemplos mais afamados. Isso sem mencionarmos a vertente propriamente marxista da teoria da dependência, representada, entre outros, por nomes como Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos e Vania Bambirra. Em suma, considero perfeitamente possível falarmos em um "marxismo brasileiro", caso entendamos, por isto, o esforço de atualização do instrumental teórico marxista, com o objetivo de decifrar a especificidade da reprodução contraditória das relações de produção capitalistas no Brasil.

FILOSOFIA: Como a rica obra de Marx, principalmente O capital, pode dar sua contribuição para que se entenda e se transforme o nosso tempo, do ponto de vista filosófico?

Braga: Em primeiro lugar, considero importante dizer que sempre que intelectuais se colocaram a tarefa de defender e atualizar o núcleo teórico marxista representado por O capital, o programa de pesquisa científica marxista avançou com qualidade. Isso não quer dizer o mesmo que "decalcar" o texto' Significa defender o núcleo refutando as refutações e, nesse caminho, ampliar o alcance da teoria, incorporando novos temas e desafios, se concentrando em desvelar as anomalias teóricas e empíricas criadas pelo próprio movimento do real. Foi assim com Kautsky, Lenin, Rosa Luxemburgo, Hilferding, Trotsky, Cramsci ete. Mais recentemente, a Sociologia marxista soube construir "cinturões" de defesa do núcleo teórico marxista, que estimularam a expansão e a retomada de temas clássicos relacionados à análise do desenvolvimento do capitalismo em diferentes contextos regionais. Com isso, o projeto de emancipação social marxista se fortaleceu. A base desse projeto não pode ser outra senão o real apreendido de forma consciente pelos sujeitos e "a realidade ...", para lembrarmos um velho revolucionário bolchevique "... é implacável com os erros teóricos" (Trotsky). Assim, talvez a lição mais importante que O capital nos deixou seja a de que o capital é a contradição em processo e sua irracionalidade é globalizante, isto é, sempre que a sociedade regula um aspecto de seu movimento, o processo se desloca para um plano mais universal. Veja o exemplo da atual crise capitalista, por exemplo, se deslocando dos planos locais e nacionais para os planos regionais, internacionais e mundiais.

FILOSOFIA: Qual a avaliação sobre a trajetória do marxismo no século XX e qual o legado deixado por ele para o século XXI?

Braga: O marxismo do século XX foi profundamente marcado pela Revolução de Outubro de 1917 e pela contrarrevolução stalinista (a partir de 1927), isto é, pelo "Termidor Soviético". A Revolução de Outubro foi a grande responsável por ampliar mundialmente a influência e a importância do marxismo. No entanto, a subordinação do movimento comunista internacional aos interesses da burocracia stalinista levou o marxismo rumo a um verdadeiro dilema: ou bem se transformava em um esquematismo estéril ou bem se afastava da prática política socialista. (De fato, do ponto de vista teórico, é inegável que o marxismo mais dinâmico do século XX foi aquele que se dedicou à análise das "superestruturas", em especial da cultura.) Com muitas contradições, algumas correntes revolucionárias trotskistas e luxemburguistas buscaram superar esse dilema de forma positiva. No entanto, tendo em vista o peso somado dos aparatos stalinista e reformista, o resultado em termos de importância histórica ainda hoje permanece bastante insuficiente.

FILOSOFIA: Como a tradição dialética deve se comportar em tempos de crise?

Braga: Sempre existirão as complexidades relativas ao método e às diferentes combinações entre a Ontologia e a Epistemologia. No entanto, simplificadamente, diria que a Dialética deve ser capaz de alimentar a imaginação marxista, ampliando nossas habilidades crítica e reflexiva. Devemos ser capazes de combinar, dialeticamente, forças externas aos processos internos, nossa "posicionalidade" à teoria, o micro ao macro, para conhecermos de forma "radical", isto é, indo até as raízes, a realidade contemporânea. Em especial, a da atual crise capitalista.

FILOSOFIA: Como fica hoje o conceito de luta de classes?

Braga: Tendo em vista a força da mundialização capitalista, é evidente que a estrutura de classes das sociedades capitalistas mudou bastante nos últimos 30 anos. Explicar as novas características da estrutura de classes é um enorme desafio teórico e empírico para o marxismo. Mas, ao contrário das sociologias acadêmicas, mesmo as mais críticas, que enfatizam a dimensão subjetiva das classes sociais, o marxismo procura destacar a importância heurística do conceito de classe, como exploração econômica de classe. Aos meus olhos, essa é a principal vantagem do conceito de luta de classes: balizar a teoria da reprodução contraditória das relações de produção capitalistas, por meio de uma articulação entre estrutura social e formas políticas de dominação de classe. Nesse sentido, trata-se de um conceito de grande atualidade: afinal, como explicar o que está acontecendo em Portugal, na Grécia e no Egito,por exemplo, sem o recurso à luta de classes?

FILOSOFIA: A obra O capital, durante boa parte das duas últimas décadas do século XX,foi praticamente relegada a uma condição de peça de museu. Em que medida o que consta nessa obra pode servir de referência para as novas gerações?

Braga: Como disse no início, simplesmente não vejo a menor possibilidade de compreendermos o mundo atual sem os conceitos de fetichismo da mercadoria, concorrência capitalista, exploração econômica, subordinação do trabalho ao capital, formação de capital fictício ete. À medida que a crise capitalista se aprofunda, tenho certeza que mais e mais jovens irão se sentir estimulados a descobrir um Marx liberto de seu cárcere stalinista e aberto às novas práticas coletivas de auto-organização dos subalternos. Consequentemente, sua obra-prima será cada dia mais valorizada no futuro.

FILOSOFIA: Com a queda dos países socialistas, alguns pensadores passaram a defender o fim das utopias, mola propulsora de várias gerações que se agarraram à Filosofia marxista na tentativa de alcançar uma sociedade mais justa e igualitária. Você acredita no fim das utopias ou elas ainda são necessárias?

Braga: A tese do "fim das utopias" já foi apresentada inúmeras vezes. Por exemplo, no início da década de 1960, alguns sociólogos liberais estadunidenses diziam que o modelo de desenvolvimento fordista do pós-guerra havia superado, indefinidamente, a tendência capitalista às crises, por meio da institucionalização e da planificação do progresso econômico. As lutas de classes teriam sido substituídas por simples conflitos redistributivos ete. No entanto, menos de uma década após a publicação do famoso livro de Daniel Bell (The end of ideology: on the exhaustion of political ideas in the fifties), o capitalismo entraria em uma explosiva combinação de crise política com crise econômica. Ou seja, o problema consiste em saber se, de fato, o sistema é capaz de superar a tendência às crises ou não. Olhando para o mundo de hoje, desconfio que ainda estamos muito longe disso.

FILOSOFIA: O socialismo ainda é um modelo viável e interessante?

Braga: Não apenas viável, como mais urgente do que nunca. Sem uma solução socialista para a atual crise, vamos nos aproximar, cada dia mais, de um colapso da civilização. Por um lado, somos diuturnamente desafiados pelo aprofundamento da crise social. Afinal, as desigualdades classistas aumentam em praticamente todos os lugares do globo. Vejam os índices de desemprego na Europa e no mundo árabe, por exemplo. Por outro, somos permanentemente ameaçados pela ruína ecológica. Não vejo outra solução. Para relembrarmos Rosa Luxemburgo, o dilema de nossa época pode ser reduzido à escolha entre o socialismo ou a barbárie.