Livro apresenta coletânea das manifestações que tomaram as ruas do Brasil

01.08.2013

Paulínia Extra
Michele Carneiro


Os principais temas abordados são o direito ao transporte público e à cidade, a violência nas manifestações, partidarismo, luta política e democracia

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A coletânea Cidades rebeldes chega às livrarias do Brasil a partir do dia 5 de agosto, consolidando uma nova coleção da Boitempo, de livros de intervenção a preço de custo, intitulada “Tinta vermelha” em homenagem ao texto que o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu durante o Occupy Wall Street.

O livro convoca o pensamento crítico independente para refletir os fatos recentes, em meio a uma guerra de interpretações das vozes rebeldes, que se estendeu inclusive às ruas (na disputa de cartazes empunhados pelo conjunto heterogêneo). Os textos abrangem vários temas e são quase todos inéditos.

Participam dessa coletânea autores nacionais e internacionais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski entre outros convidados. Além de analisar a conjuntura política e social, o lançamento pretende contribuir com o debate iniciado pelo Movimento Passe Livre (MPL) – que também participará com um artigo –, ajudando a consolidar suas bases teóricas e práticas. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa.

Os principais temas abordados são o direito ao transporte público e à cidade, a violência nas manifestações, partidarismo, luta política e democracia. O livro também contará com registros fotográficos do coletivo ‘Mídia Ninja’ e ilustrações diversas sobre as manifestações. A obra, editada em parceria com o portal Carta Maior, segue a linha do livro Occupy – movimentos de protestos que tomaram as ruas, com o mesmo formato e preço (R$ 10 o impresso, R$ 5 o e-book).

Apresentação

As vozes das ruas: as revoltas de junho e suas interpretações
Raquel Rolnik


Podemos pensar essas manifestações como um terremoto que perturbou a ordem de um país que parecia viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz, e fez emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos. Além disso –e isso é o mais importante – fez renascer entre nós a utopia… No campo imediato da política, o sismo introduziu fissuras na perversa aliança entre o que há de mais atrasado/excludente/prepotente no Brasil e os impulsos de mudança que conduziram o país na luta contra a ditadura e o processo de redemocratização; uma aliança que tem bloqueado o desenvolvimento de um país não apenas próspero, mas cidadão.

Os autores desta coletânea apontam várias agendas como o epicentro do terremoto. Para Ruy Braga, “a questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira”. O direito a ter direitos, que alimentou as lutas dos anos 1970 e 1980 e inspirou a Constituição e a emergência de novos atores no cenário político, parecia esvanecido no contexto da formação de uma espécie de hibridismo de Estado, desenvolvimentista e neoliberal, com uma cultura política e um modelo político-eleitoral herdados da ditadura. Nas palavras de Carlos Vainer (parafraseando Mao Tse Tung), “uma fagulha pode incendiar uma pradaria” e, no nosso caso, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento da tarifa nos transportes públicos convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O MPL – São Paulo formula a questão da tarifa em seu ensaio neste livro como uma afirmação do direito à cidade. De acordo com o texto/manifesto, a circulação livre e irrestrita é um componente essencial desse direito que as catracas – expressão da lógica do transporte como circulação de valor – bloqueiam. João Alexandre Peschanski, compartilhando dessa visão, analisa a proposta da tarifa zero, sua apropriação possível pelo sistema capitalista e, ao mesmo tempo, seu potencial transformador da sociedade.

Nas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana no Brasil, como o tema dos megaeventos e suas lógicas de gentrificação e limpeza social. As palavras de Ermínia Maricato – “os capitais se assanham na pilhagem dos fundos públicos deixando inúmeros elefantes brancos para trás” – me lembraram um cartaz que vi em uma das passeatas: “Quando meu filho ficar doente vou levá-lo ao estádio”. A questão urbana e, particularmente, a agenda da reforma urbana, constitutiva da pauta das lutas sociais e fragilmente experimentada em esferas municipais nos anos 1980 e início dos anos 1990, foram abandonadas pelo poder político dominante no país, em todas as esferas. Isso se deu em prol de uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para, como diz Vainer, facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/ Olimpíadas é a expressão mais recente… e radical.

Entretanto, não se compra o direito à cidade em concessionárias de automóveis e no Feirão da Caixa: o aumento de renda, que possibilita o crescimento do consumo, não “resolve” nem o problema da falta de urbanidade nem a precariedade dos serviços públicos de educação e saúde, muito menos a inexistência total de sistemas integrados eficientes e acessíveis de transporte ou a enorme fragmentação representada pela dualidade da nossa condição urbana (favela versus asfalto, legal versus ilegal, permanente versus provisório). A “fagulha” das manifestações de junho não surgiu do nada: foram anos de constituição de uma nova geração de movimentos urbanos – o MPL, a resistência urbana, os movimentos sem-teto, os movimentos estudantis –, que, entre “catracaços”, ocupações e manifestações foram se articulando em redes mais amplas, como os Comitês Populares da Copa e sua articulação nacional, a Ancop.

O direito à cidade é também reivindicado por coletivos ligados à produção cultural, como relata Silvia Viana, que colocam a ocupação do espaço público como agenda e prática. (…) O texto de Silvia Viana aponta para uma diferença substantiva que se estabeleceu nas interpretações – e apresentações – das manifestações: a clivagem entre “pacíficos” e “baderneiros”. Como em outros snapshots da guerra de significados, a ocupação da cidade foi disputada por diferentes sentidos. A tropa de choque, que no cotidiano executa pessoas sumariamente nas favelas e realiza despejos jogando bombas de gás nos moradores, entrou e saiu de cena ao longo das manifestações, lembrando que, no país próspero e feliz, a linguagem da violência ainda é parte importantíssima do léxico político.

O artigo de Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira sobre o Rio de Janeiro demonstra a relação entre um projeto excludente de cidade e a militarização dos territórios populares. Ao lê-lo, ecoou em minha memória um dos slogans ouvidos nas ruas: “Que coincidência! Sem polícia não tem violência”. Para a linguagem da polícia – e da ordem – a ocupação das ruas é baderna; para vários movimentos sociais ali presentes, a retomada do espaço urbano aparece como o objetivo e o método, que determina diretamente os fluxos e os usos da cidade. Nas palavras do MPL – São Paulo “A cidade é usada como arma para sua própria retomada: sabendo que o bloqueio de um mero cruzamento compromete toda a circulação, a população lança contra si mesmo o sistema de transporte caótico das metrópoles, que prioriza o transporte individual e as deixa à beira de um colapso. Nesse processo, as pessoas assumem coletivamente as rédeas da organização de seu próprio cotidiano”.

(…)Desilusão/denúncia em relação à democracia e as formas de expressão pública? Na chamada agenda da “crise de representação” novamente convergem pautas e leituras contraditórias. (…) A questão da representação não envolve apenas a crise dos partidos e da política e, portanto, a necessidade de uma reforma política, uma das principais agendas das ruas. Segundo Venício A. de Lima, “os jovens manifestantes se consideram ‘sem voz pública’, isto é, sem canais para se expressar”.

(…)Qual a conexão entre o movimento no Brasil e outros tantos do planeta, como o que ocorreu ao mesmo tempo em Istambul, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, os Indignados da Espanha? Esses movimentos transformaram da praça Tahrir, no Egito, à praça do Sol, em Madri, da praça Syntagma, na Grécia, ao parque Zuccotti, nos Estados Unidos, passando pela praça Taksim, na Turquia, em palcos de protestos majoritariamente compostos por jovens, convocados por meio de redes sociais, sem a presença de partidos, sindicatos e organizações de massa tradicionais. Slavoj Žižek analisa essa questão com maestria em seu ensaio. (…) Nos diversos países que citei, assim como nas cidades brasileiras, os modelos de desenvolvimento e as formas de fazer política estão em questão. De acordo com Leonardo Sakamoto, a “civilização representada por fuzis, colheitadeiras, motosserras, terno e paletó [...] mais cedo ou mais tarde terá de mudar”. O velho modelo de república representativa, formulado no século XVIII e finalmente implementado como modelo único em praticamente todo o planeta, dá sinais claros de esgotamento. Contra esse modelo baseado em estruturas verticais e centralizadas, movimentos como o Occupy e outros propõem formas horizontais de decisão, sem personificação de lideranças nem comando de partidos e comitês centrais. Esta foi também parte da “surpresa” das ruas: onde estão as bandeiras e os carros de som com os megafones? Quem são os líderes? Quem manda? O apartidarismo ganhou sua versão fascista, antipartidária, quando militantes de partidos quiseram aderir às manifestações e foram espancados… pelos próprios manifestantes. O leitor deste conjunto de artigos provavelmente concordará comigo que a voz das ruas não é uníssona. Trata-se de um concerto dissonante, múltiplo, com elementos progressistas e de liberdade, mas também de conservadorismo e brutalidade, aliás presentes na própria sociedade brasileira. Como diz Sakamoto: “Uma vez posto em marcha, um movimento horizontal, sem lideranças claras, tem suas delícias – assim como as tem um rio difícil de controlar – e suas dores – assim como as tem um rio difícil de controlar”.

As propostas alternativas ao modelo dominante precisarão ter seu tempo de formulação e experimentação. Aos aflitos com a falta de novos modelo, eu perguntaria como teria se sentido alguém, em 1871, um dia depois da Comuna de Paris… Temos que aprender a não nos assustar com isso também, e, como diz Mauro Luis Iasi: “Devemos apostar na rebelião do desejo. Aqueles que se apegarem às velhas formas serão enterrados com elas”.

Sumário

É a questão urbana, estúpido!
Ermínia Maricato


Em São Paulo, o Facebook e o Twitter foram às ruas
Leonardo Sakamoto


Estrada de metal pesado
Mike Davis

O transporte público gratuito, uma utopia real
João Alexandre Peschanski

Será que formulamos mal a pergunta?
Silvia Viana

Territórios transversais
Felipe Brito e Pedro Rocha de Oliveira

Quando a cidade vai às ruas
Carlos Vainer

Mídia, rebeldia urbana e crise de representação
Venício A. de Lima

A rebelião, a cidade e a consciência
Mauro Luis Iasi

Problemas no Paraíso
Slavoj Žižek

Não começou em Salvador, não vai terminar em São Paulo
Movimento Passe Livre – São Paulo

Sob a sombra do precariado
Ruy Braga

A vez do direito social e da descriminalização dos movimentos sociais
Jorge Luiz Souto Maior

A liberdade da cidade
David Harvey

As Jornadas de Junho
Lincoln Secco



Ficha técnica

Título: Cidades rebeldes
Subtítulo: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil
Autores: Vários
Textos de capa: Paulo Arantes e Roberto Schwarz
Páginas: 112
Preço: R$ 10,00 [ebook R$5,00]
ISBN: 978-85-7559-341-7
Coleção: Tinta vermelha
Editora: Boitempo
Apoio: Carta Maior