Onda de protestos populares no Brasil é retratada em livro

03.08.2013

Jornal de Londrina - Cidades
Fábio Calsavara


Cidades Rebeldes, editada pela Boitempo e Carta Maior, reúne textos de diversos autores sobre as manifestações populares que invadiram as maiores cidades do Brasil, Londrina inclusive, em junho. O JL conversou com um dos autores, João Peschinski



A onda de protestos populares que atingiu o país em junho, levando milhões de pessoas às ruas das maiores cidades do país – Londrina inclusive – foi registrada no livro Cidades Rebeldes - passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, das editoras Boitempo e Carta Maior. A obra é uma coletânea de textos de autores convidados que realizou, nas palavras da escritora Raquel Rolnik – responsável pelo texto de apresentação da obra –, uma “bela e forte tentativa de interpretação das revoltas”. O livro será lançado oficialmente na segunda semana de agosto.

Os textos buscam lançar luz sobre as discussões despertadas pelas manifestações, que vão desde a reivindicação do passe livre até questões mais profundas como direitos civis e cidadania. O JL entrevistou um dos autores do livro, João Alexandre Peschanski. Ele é editor-adjunto da Boitempo Editorial e doutorando em sociologia na Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), e tratou da “utopia possível” da implantação do passe livre no transporte coletivo.

Serviço:Título: Cidades Rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do BrasilEditoras: Boitempo e Carta MaiorPáginas: 112Preço: R$ 10 [eBook R$5]Disponível em pré-venda em www.boitempoeditorial.com.br

Entrevista
João Alexandre Peschanski, editor-adjunto da Boitempo Editorial | “Transporte público precisa ser dissociado da lógica de mercado”

JL - Qual é hoje o maior empecilho para a implantação de fato do passe livre como política pública?

João Alexandre Peschanski
- O sistema de transporte coletivo tal como ele é no Brasil apresenta várias ineficiências. Uma delas é que, em geral, a prestação do serviço é cedida a empresas privadas. Estas empresas só têm interesse em aceitar essa participação se isso gerar mais lucro do que qualquer outra aplicação financeira, como bolsa de valores. Essa situação leva o empresário a um sucateamento progressivo da frota, porque todo o investimento que poderia ser feito na compra ou melhoria dos veículos fica para o empresário na forma de retorno financeiro. O transporte público precisa ser dissociado da lógica de mercado, tem que ser visto como a prestação um serviço voltado ao bem-estar da população.

De onde o poder público poderia tirar recursos para custear esse transporte público gratuito a todos?

Na medida em que o transporte não deve ser tratado como uma brecha lucrativa para as empresas, tem que ser visto como uma política que economiza dinheiro para a sociedade em outras frentes. Por exemplo, se aumenta a disponibilidade de transporte público, você está diminuindo diretamente os custos relacionados à saúde. As duas principais causas de internação hospitalar pública no Brasil hoje são doenças respiratórias e acidentes de trânsito. Faz sentido que o Estado e a comunidade, como um todo, façam um esforço por meio de esforços para custear o transporte público. Com isso haveria uma economia muito grande em outros setores. Os benefícios são amplamente maiores que os custos.

Temos exemplos de Municípios como Ivaiporã, no interior do Paraná, que conseguiu implantar um sistema de transporte público gratuito baseado em publicidade veiculada nos ônibus. Essa alternativa também seria viável em cidades de maior porte?

A criatividade humana é sem limites quando se coloca frente a um objetivo. Recentemente vi uma proposta em Jundiaí, no interior do estado de São Paulo, de se aplicar o transporte coletivo gratuito. As pessoas, para usarem o serviço precisariam de cupons. E esses cupons seriam trocados com os usuários do sistema que levassem certa quantia de lixo reciclável a um determinado lugar na cidade. Existem outras possibilidades, que inclusive reduzem os encargos sociais dessas políticas. No caso da publicidade, é interessante pesar com a população o que ela pensa a respeito, mas creio que seja uma alternativa válida sim.

O estopim das manifestações em todo o país foi o aumento do preço da passagem do transporte coletivo em São Paulo. Dá para medir a importância desse tema na vida do brasileiro?

Houve, em um primeiro momento durante as manifestações, a impressão que a população estava sendo “mal agradecida” aos políticos, já que o país estaria vivendo um período de prosperidade. Isso aos olhos da classe política. A população exigiu, entre outros assuntos, uma vida mais digna. É insuportável para alguém que depende dos meios de transportes públicos levar quatro horas para ir e vir do trabalho. Isso é inaceitável, assim como é inaceitável que os sistemas públicos de saúde e educação também sejam tão ruins. Havia uma revolta, uma noção de que as coisas não estavam indo bem, e isso explodiu nas ruas após a fagulha da questão da passagem.

Na última página do livro, a editora deixou claro que a obra foi “produzida no calor da hora”. Essa era a intenção, de registrar os fatos no momento em que eles ocorreram?

A obra é resultado dos acontecimentos. A gente decidiu publicar em 18 de junho, dia em que ocorreram as maiores manifestações. Havia todo esse crescente dos protestos. Em parte, decidimos após o grande número de acessos no blog da editora. Fizemos uma cobertura sistemática dos fatos, e de repente tínhamos 100 mil acessos em um único dia, um salto enorme. Muitos dos nossos autores perguntaram se havia espaço para a publicação. E pensamos, por que não? Tudo nos levou a essa publicação, essa junção de fatores.

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Título: Cidades Rebeldes – passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil
Editoras: Boitempo e Carta Maior
Páginas: 112
Preço: R$ 10 [eBook R$5]
Disponível em pré-venda em www.boitempoeditorial.com.br