Risco ingrato e arbitrário. Mas fazer o quê, cara pálida??

22.12.2007

Jornal do Brasil
Mariana Filgueiras

Apesar da lista de 15 especialistas ouvidos, escolher o melhor lançamento de 2007 é risco ingrato e arbitrário, como definiu o escritor Antonio Torres. Além de ninguém ter lido tudo, argumenta, há títulos condenados ao esquecimento pelo simples fato de estarem à margem da indústria de divulgação. O escritor joga as fichas, portanto, na poesia.

- Em O outro lado Ivan Junqueira devolve à poesia um padrão quase em desuso. Refratário aos tiques nervosos da pós-modernidade, ele passa ao largo das novidadices, como se, entre o moderno e o eterno, preferisse a segunda opção. Mas não é apenas por se situar na contramão dos modismos que devemos ler o seu novo livro. É pelo seu engenho e arte.

Os outros votos no gênero poesia foram do diplomata Felipe Fortuna, colunista do Idéias.

- Apreciei Página órfã, de Régis Bonvicino, livro de poemas políticos que ganhará maior importância à medida que o tempo avançar: está ali todo o inferno da cultura de celebridades e os segmentos marginalizados das urbes, tudo captado por uma linguagem que aparece muito pessoal e sensível.

Em coluna desta edição, Fortuna destaca o lançamento da edição bilíngüe, em maia-português, do longo poema guatemalteco Popol Vuh, na tradução de Gordon Brotherson e Sérgio Medeiros.

- Trata-se de um clássico desconhecido de muitos leitores e poetas. Agora não há mais desculpas: a edição é primorosa e traz um aparato crítico de primeira grandeza, o que é sempre raro entre nós.

Marx, dom Pedro II e Goya

O filósofo Leandro Konder aproveitou o voto para empunhar um protesto.

- Quero reagir contra a enorme campanha que, nos últimos anos, vem tentando excluir as idéias socialistas do quadro de referências dos brasileiros. Aponto como o melhor livro de 2007, provocadoramente, um texto difícil, mas importante, de Marx: A ideologia alemã, lançado em cuidadosíssima tradução pela editora Boitempo.

Aliás, o mesmo livro foi lançado também pela editora Record, com tradução de Marcelo Backes.

O ano de 2007 foi fértil também para lançamentos de remendos históricos importantes, como lembrado pelo escritor Moacyr Scliar:

- Foi um ano de bons lançamentos na área da história, talvez refletindo o interesse despertado pelo bicentenário da chegada da família real ao Brasil. Uma obra que se destaca é D.Pedro II de José Murilo de Carvalho, historiador que une uma sólida cultura e uma objetividade exemplar a uma excelente capacidade narrativa.

Ainda entre os votos em não-ficção, o bibliófilo José Mindlin lembra um que acaba de ganhar adaptação para o cinema e estréia nesta semana:

- Os fantasmas de Goya, por Jean-Claude Carriere, pois ele é um grande cineasta e um grande intelectual. A atmosfera que ele descreve da inquisição é magistral.