'Cidades Rebeldes' analisa conjuntura e protestos

03.08.2013

Município Baiano
Da redação


As manifestações que atingiram o Brasil em junho trouxeram à tona uma série de demandas heterogêneas impossíveis de ser atendidas pelo atual sistema político e econômico e se inserem em um quadro de crise global de representação política. Essas e outras interpretações sobre os protestos que começaram exigindo a redução da tarifa do transporte público foram analisadas no calor do momento em 15 artigos reunidos no livro Cidades Rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Editora Boitempo, com lançamento previsto para a próxima semana.

Segundo Mauro Luis Iasi, professor-adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, que assina um dos textos do livro, as manifestações que estouraram na Turquia, no Brasil, na Grécia e na Espanha recentemente têm como cenário comum uma crise nos modelos de representação política das sociedades democráticas.

"É a crise de uma afirmação que foi vendida como autoevidente de que não há outra forma de representação a não ser eleger bancadas de deputados, senadores e representantes do Poder Executivo. Como se a eleição fosse o único ato em que a população participa do processo político", opinou ao iG .

Para Iasi, no caso brasileiro, quando houve manifestações nas ruas exigindo a redução na tarifa do transporte público, foi como se a população reivindicasse influir nas decisões políticas concretas e diretamente. Segundo ele, esse poder de reivindicação ficou evidente quando os prefeitos e governadores acataram reduzir a passagem pouco depois de terem vindo a público munidos de planilhas de custos para argumentar que a medida seria impossível.

Outro elemento que denota a crise de representação política, segundo Lincoln Secco, professor do Departamento de História da FFLCH-USP (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP), deriva da própria dinâmica da democracia capitalista, que, segundo ele, tende a aproximar os partidos políticos, afastando-os dos eleitores.

"Quando há poucas diferenças entre candidatos, as pessoas perdem a noção de que o voto muda alguma coisa. Nos últimos 20 anos, grande parte dos políticos, dos acadêmicos e da imprensa passou a dizer que não existe mais esquerda ou direita. As pessoas acreditaram, portanto, que eles são todos iguais", disse ao iG o professor, que também assina um artigo no livro Cidades Rebeldes.

Essa descrença no atual modelo político pôde ser sentida nas manifestações em São Paulo. Uma pesquisa feita pelo Datafolha mostrou que dos 65 mil manifestantes que se reuniram no Largo da Batata, na zona oeste, para participar do protesto de 17 de junho, 84% não possuíam preferência partidária. Em algum momento, esse apartidarismo se confundiu com antipartidarismo, com muitos dos presentes nas passeatas gritando "sem partido" e com a hostilização de militantes de algumas legendas .

O Brasil e os países em protestos


As manifestações no Brasil tiveram coincidência temporal e simbólica com protestos nas principais cidades da Turquia. No final de maio, manifestantes em Istambul protestaram contra a derrubada de árvores no Parque Gezi, da Praça Taksim, para a construção de um projeto imobiliário privado. A violenta repressão policial atraiu a solidariedade da população, que passou a comparecer em peso às ruas. A mobilização tomou outras cidades do país, ampliando a pauta de reivindicações - como, por exemplo, mais direitos humanos e a renúncia do premiê Recep Tayyip Erdogan, acusado de autoritarismo pelos manifestantes.

No Brasil, os protestos tiveram um movimento semelhante. "Tanto lá como cá houve maciça participação de jovens de classe média com diferentes objetivos. A fragmentação da pauta de reivindicações, a solidariedade depois da repressão policial e a ausência de partidos políticos parecem ter sido comuns", apontou Secco.

A mesma pesquisa Datafolha mostrou que, em São Paulo, os manifestantes que saíram às ruas em 17 de junho protestavam contra o aumento da passagem (56%), contra a corrupção (40%), contra a violência e a repressão policial (31%), por um transporte de melhor qualidade (27%), contra os políticos (24%) e pela tarifa zero (14%).

Essa profusão de descontentamentos no Brasil e na Turquia provoca surpresa. Até pouco tempo atrás, a Turquia era vista como um exemplo a ser seguido pelos governos dos países vizinhos, do mundo árabe, pois era capaz de aliar um sistema democrático ao islamismo moderado e apresentar crescimento econômico na casa dos 3,5%. No Brasil, apesar de a economia apresentar sinais de retração, relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) divulgado no ano passado mostrou que a pobreza no País caiu 36% em seis anos e que a desigualdade social, medida pelo índice de Gini, atingiu o menor índice da história em 2011.

Apesar disso, segundo Secco, a classe média brasileira que foi às ruas não se sentiu diretamente beneficiada pelos programas de complementação de renda do governo, que ampliaram o poder de consumo dos mais pobres. "A classe média se viu ameaçada pela ascensão de uma nova classe trabalhadora aos seus espaços de circulação e considera que paga impostos para sustentar serviços públicos ruins. Ela paga duas vezes, pois precisa sustentar escolas e planos de saúde privados", afirmou.

Iasi indica também que não só o Brasil, mas todos os países do mundo passam por um momento de crise em seu padrão de sociedade que se manifesta de maneiras diferentes de acordo com cada realidade local. Para o professor, as revoltas que explodem em Atenas, Madri, São Paulo e Istambul têm como pano de fundo comum a falência de um modelo civilizatório centrado em uma identidade que relaciona o bem-estar ao consumo, o crescimento econômico capitalista ao desenvolvimento social.

"(No Brasil), a pessoa pode ter acesso a aparelhos eletrônicos, pode eventualmente viajar de avião, mas, quando fica doente, tem de pagar um plano de saúde muito caro. Ela tem acesso à universidade, mas com condições de permanência e de estudo precárias. As pessoas querem mais do que consumir. Isso fica patente, por exemplo, no questionamento do modelo político", explicou Iasi.

Entretanto, segundo Iasi, esse sentimento comum de insatisfação ainda não aponta para uma ruptura com o modelo estabelecido, deixando um vazio de alternativas que pode abrir caminho para um cenário perigoso. Em São Paulo, por exemplo, militantes de grupos da extrema-direita infiltraram-se em alguns protestos, em uma mostra de reação violenta à política partidária e democrática. Menos de 100 manifestantes também foram à Avenida Paulista pedindo a volta da ditadura militar no País.

"Historicamente, ( onde se verificou esse vazio ) se atualizaram alternativas totalitárias, de extrema-direita. E para quem julgava que isso estava superado no Brasil, teve de se surpreender com a retomada desses discursos e sua reapresentação nas manifestações."

Fonte: Último Segundo