Obra de Marx esta acessível no Brasil

15.07.2012

Jornal Pessoal n.516
Lúcio Flávio Pinto


Comecei a ler Karl Marx em 1964. quando lia Jean-Paul Sartre e Soren Kierkegaard, filósofos aprisionados ao mesmo pacote interpretativo pelo lacre do existencialismo (o primeiro ateu; o segundo, católico; o que dá uma ideia do arbitrio da classificação).

Padre Carlos Coimbra, orientador do Clube de juventude da Paróquia da Trindade, do qual eu fazia parte, me encaminhou ao advogado (e economista, como muitos dos primeiros economistas paraenses) Roberto Santos, também pensador e militante católico, à sombra da AP (Ação Popular).

Roberto me entregou La Pensee de Karl Marx, de Jan-Yves Calvez, em dois rombudos volumes das Editions Sociales, de Paris. É uma das melhores introduções a Marx por um critico sério e honesto, mas deficiente de traquejo na ciencia econômica. O livro nunca foi publicado no Brasil, o que é uma perda. Com ele, montei esquemas de estudo rastreando bibliografias e definindo momentos no processo de formação intelectual de Marx.

Na visão de Calvez, essa preocupação demarcada por sua libertação das varias alienações, que o limitavam, a começar pela religiosa, ate que Marx estivesse em condições de dar consequência a meta da sua vida: ao invés de "simplesmente" (como se a tarefa fosse simples) interpretar a história, faze-la. Da perspectiva acadêmica a ação militante: fazer a revolução.

Nunca mais parei de ler Marx e sobre ele. É a mais apaixonante vida que urn verdadeiro e denso intelectual já teve. É uma das obras mais vigorosas com as quais tive contato. Uma paixão irresistível e profunda, que não foi abalada pelo surgimento do "socialismo real", onde devia ter brotado o comunismo igualitário, e pelo seu fim.

A União Soviética e seus satélites, como já na primeira hora Trotsky percebera, sem conseguir purgar os próprios erros, e Milovan Ojilas confirmaria, nada tinha a ver com as anotações de Marx. Mas ele seguramente foi um péssimo profeta. Foi generoso ao se incorporar as primeiras lutas operarias, na metade do século XIX, mas foi um fiasco como guia da revolução. Um líder operário fez-lhe critica devastadora a respeito, como se pode ler na compilação preciosa feita por Hans-Magnus Ezensberger, que também nunca chegou ao Brasil.

O que não foi editado no nosso pais de indispensável na literatura marxista e marxiana? Muito mais do que aqui teve abrigo. Se tivesse vivido mais do que seus 65 anos, Marx talvez tivesse reagido, ao testemunhar o tipo de devotos das suas ideias, com sua celebre frase: se isso é marxismo, então não sou marxista. Fala-se muito de Marx. Lê-se pouco dele.

Pode parecer, depois da derrocada da União Soviética e de suas extensões, que ler Marx se tornou um anacronismo. Pelo contrário: despido da sua crosta de voluntarismo revolucionário e arbitrariedade conceitual, ele se revela um pensador mais vital do que nunca.

É o momento para apreciar sua qualidade estilística, sua ironia, a fluência do seu raciocínio, sua sabedoria enciclopédica e a vivacidade da sua condição intelectual, favorecida pela multiplicidade dos seus interesses e a diversidade das experiências que teve, ora como acadêmico formal ora como jornalista em cima dos fatos, teorias e informações.

Comprar as obras completas de Karl Marx (sem deixar de lado a parceria com Friederich Engels, posto em condição secundaria pela monumental dimensão do amigo) e um investimento de retorno garantido para quem quiser aprender a pensar, a entender o seu tempo e a desfrutar o prazer da leitura de um verdadeiro clássico, nesse ponto da estatura de um Goethe, para ficarmos na língua alemã.

Nela, e claro, temos – ou dizem que temos, já que não leio em alemão – a melhor obra completa de Marx. Há a russa, das Edições Progresso, de Moscou, com sua marca confessional, de bíblia dogmática. Também não leio em russo e apenas posso repetir o que dizem dessa edição. Um excelente opus é a espanhola, da Crítica, de Barcelona. Fiquei no 11º volume e não sei se chegaram a completá-la. Garantem que a italiana foi ate la, mas parei pelo meio do caminho, pelos mesmos motivos: os financeiros. Tenho as valiosas edições francesas, das Sociales e da Costes, mas estão incompletas e as vezes seguem critérios um tanto caóticos.

Ha uns quatro anos a editora Boitempo, dirigida pela paraense Ivana Jinkings (filha do livreiro Raimundo Jinkings), realiza a maior empreitada em matéria de Karl Marx e Friederich Engels da história editorial brasileira. Já lançou 12 volumes, sete exclusivamente de Marx, quatro em coautoria com seu maior amigo e um só de Engels. Corretamente, a editora ainda não abordou a obra máxima de Marx, que é O Capital, já com duas boas edições no Brasil (pela Civilização Brasileira e a Abril).

Para mim, o mais valioso lançamento até agora foi a versão integral de A ldeologia Alemã, critica arrasadora dos intelectuais alemães contemporâneos. Tínhamos apenas trechos desse livro, o que melhor conjugou o espirito de critica acida que Marx manejou como jornalista com sua formação acadêmica. Uma delicia para quem quer aprender como analisar a obra alheia. O titulo que a Boitempo deu a sua iniciativa e Coleção Marx-Engels. Talvez não pretenda ser tão exaustiva quanto a espanhola Critica, que também se lançou a correspondência de Marx (sonho com uma edição completa da sua epistolografia, na companhia de Engels). Mesmo que não a adote (e isso e sugerido em alguns dos volumes já publicados), a coleção da Boitempo está se transformando na principal fonte de conhecimento da obra de Marx no Brasil. Não sem tempo.

Jornal Pessoal • No 51611 • JUL • 2012 • 1ª QUINZENA