“O Prêmio Nobel está com 55 anos de atraso”

15.11.2012

Revista CULT - Edições
Da redação

Para Michael Löwy, o título conquistado pela União Europeia pertence ao “movimento dos indignados”

No dia 12 de outubro, o comitê do Prêmio Nobel anunciou em Oslo, na Noruega, a União Europeia como vencedora do Nobel da Paz de 2012. Segundo a organização, a escolha do bloco se justifica por “mais de seis décadas de contribuições para o avanço da paz e da reconciliação, democracia e direitos humanos na Europa”.

Com muitos de seus aspectos existentes desde a década de 1950, a união dos 27 Estados-membros foi consolidada em 1993 sob o intuito de fomentar a unidade e o desenvolvimento político, social e econômico da Europa.

A seguir, Michael Löwy, pensador marxista brasileiro radicado na França e autor do livro A Teoria da Revolução no Jovem Marx, recém-lançado pela Boitempo Editorial, critica a escolha do prêmio: “não vejo muito sentido”, diz, ao citar a crise econômica, financeira e social que assola a zona do euro e o “fanatismo neoliberal” de seus responsáveis.

CULT – O que o senhor achou de a União Europeia ter ganhado o Nobel da Paz?

Achei bobagem. Não é a primeira vez que o prêmio é jogado para o ar. A verdade é que estamos felizes pois não há mais guerras na Europa como as duas Guerras Mundiais, mas tivemos guerras na periferia da Europa, na Iugoslávia. A Comissão esteve melhor inspirada quando deu o prêmio a Nelson Mandela.

Segundo o presidente do comitê, a União Europeia transformou a maior parte da Europa “de um continente de guerras em um continente de paz”. Concorda?

Não é por causa da União Europeia. Depois da Segunda Guerra Mundial se criou uma nova situação na Europa, em que já não havia espaço pra novas guerras. Isso data de 1945. O Nobel está com 55 anos de atraso.

Essa decisão é irritante, pois a União Europeia está vivendo uma verdadeira guerra econômica, comercial, financeira e social contra os trabalhadores, idosos e jovens por meio de suas políticas de austeridade e aportes para resolver o problema da dívida.

Estamos numa situação em que os responsáveis atuais pela União Europeia, a começar pelo seu presidente, são todos fanaticamente neoliberais, comprometidos com uma visão totalmente fundamentalista de mercado, e isso ocasiona situações dramáticas e muita indignação.

Mas tem acontecido um movimento de protesto impressionante contra essa política. Acho que se houvesse um prêmio Nobel coletivo a dar, seria a eles, o movimento dos indignados, que estão salvando a honra da Europa.

Eles que saíram às ruas, protestaram e conseguiram modificar a conjuntura política. A esperança de outra Europa está com eles.

O senhor acha que o prêmio tem algum efeito prático no sentido de conseguir apoio para enfrentar a crise?

Não. A situação é crítica, mas os remédios que estão sendo utilizados agravam a crise. Há uma espiral descendente. Quanto mais você arrocha e aperta para pagar a dívida, mais você cria uma situação de crise. Essa é uma política que está agravando a situação. O prêmio é um gesto simbólico que eles acham que vai servir para melhorar a situação, resgatar o moral, mas é algo que não tem efeito: daqui a algumas semanas vai estar esquecido.