Ecletismo filosófico

01.03.2013

Revista Conhecimento Prático - Filosofia
Marcelo Gomes Franco Grillo

Capaz de transitar por vários campos do conhecimento, o pensador esloveno Slavoj Žižek teve recentemente mais dois livros lançados no Brasil: O ano em que sonhamos perigosamente e Vivendo no fim dos tempos, obras nas quais demonstra seu estilo "jornalístico" de produzir filosofia

Vivendo no fim dos tempos é o sétimo livro traduzido pela Editora Boitempo da obra do polêmico filósofo esloveno Slavoj Žižek. Autor de apurado senso crítico e agudo conhecimento em pensadores herméticos, como é exemplo Lacan, Marx e Hegel, Žižek não foge da sofisticação de sua formação intelectual. Orientado pelo marxismo e pela psicanálise, o filósofo esloveno é um dos poucos pensadores da contemporaneidade que transita por diversas áreas do conhecimento, assim como outros poucos filósofos o fizeram na história do ocidente, a saber: Aristóteles, na filosofia antiga e, Hegel, na Moderna.

Este ecletismo filosófico de Žižek (não no sentido pejorativo do termo) reaparece, cada vez mais refinado, nos recentes livros lançados no Brasil: Vivendo no fim dos tempos e O ano em que sonhamos perigosamente. Em ambos, Žižek não foge as suas análises sempre agudas, contra o senso crítico comum, o liberalismo de esquerda ou aqueles que veem na filosofia da linguagem o porto seguro para a crítica.

No primeiro livro, o filósofo esloveno tece críticas por campos do conhecimento dos mais diversos, desde o cinema, à teologia política e à literatura, a outros campos do saber mais pragmáticos, como a ecologia e a realidade virtual. Žižek se reinventa em um livro em que ele mesmo define como sendo de luta política, de combate aos dominadores: “Nossa luta não é contra indivíduos corruptos reais, mas contra aqueles que estão no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e contra a mistificação ideológica que os sustenta” (ŽIŽEK, 2012B, p. 16). Além de ser uma obra que busca dizer a superação do capitalismo é uma de suas construções intelectuais mais surpreendentes pela apurada estética na escrita e infalível corte psicanalítico de crítica social e econômica.

No segundo livro, uma coletânea de ensaios, Žižek dialoga com alguns dos acontecimentos político-sociais mais marcantes das primeiras décadas do século 21, em um reaproveitamento de Marx, no mínimo, instigante. Dialoga com a crise financeira de 2008, nos Estados Unidos e sua influência na Europa, com os movimentos como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street. É um livro de diálogo filosófico com a política do século 21.

O diálogo instantâneo da filosofia com o mundo

Autor de uma filosofia instantânea, analítica dos acontecimentos históricos contemporâneos Žižek coloca-se como o intérprete dos macros acontecimentos político ao mesmo tempo em que é capaz de analisar fatos isolados e condicioná-los ao crivo da filosofia política: “Embora a crise da União Euporeia pareça uma crise econômico-financeira, ela é em sua dimensão fundamental, uma crise político-ideológica: o fracasso dos referendos sobre a constituição da União Europeia alguns anos atrás foi um sinal claro de que os eleitores viam-na como uma união econômica ‘tecnocrática’, sem nenhum projeto que pudesse mobilizar as pessoas” (ŽIŽEK, 2012A, p. 43).

O que inegavelmente caracteriza a filosofia deste pensador é a sua imensa capacidade de interagir com os acontecimentos de uma forma quase que instantânea, em uma espécie, que se poderia dizer, de filosofia jornalística, compromissada com a crítica dos fatos e das informações. Nesta interação com os fatos do mundo, sua filosofia se constrói passando por diversas fontes teóricas e, principalmente, na junção da psicanálise com o marxismo e com a teoria política. Seu pensamento, como já tive oportunidade de afirmar: “rareia entre a arte e a política, a filosofia clássica e a crença, o religioso e o profano, o teórico e o popular” (GRILLO, 2011, p. 37). Ainda, sobre a produção filosófica de Žižek observa-se: “Sua diversidade aponta para um hibridismo de cunho heteróclito, que privilegia tanto o registro alto quanto o registro baixo, borrando suas fronteiras com o intuito crítico de colocar ambos no mesmo patamar de análise” (Grillo, 2011, p. 37).

O filosofo de Liubliana singulariza-se por ser um grande comentador dos acontecimentos contemporâneos. A leitura de ambas as obras recentemente lançadas no Brasil permite recordar o início de sua produção intelectual no Brasil, quando em 2003, foi lançado Bem-vindo ao deserto do Real!, onde Žižek analisa o evento de Setembro de 2011, que abalou os Estados Unidos, a fatídica queda das “Torres gêmea”. Ou seja, esta forma filosófico-jornalística de produzir conhecimento já se incorporou ao filosofo esloveno, que tem como uma de suas marcar o repetir-se indefinidamente na compreensão crítica rasgante da contemporaneidade política.

A crítica ecológica e também os direitos humanos

Os temas da Ecologia e dos direitos humanos estão constantemente presentes nos escritos de Žižek e não é diferente quando referido às obras aqui tratadas; em ambas, o filósofo desenvolve perspectivas críticas. Vivendo no fim dos tempos é um pouco a análise das catástrofes ecológicas e do quanto elas são, ao mesmo tempo, por diferentes perspectivas políticas, subestimadas e superestimadas. O filósofo esloveno trata a Ecologia como o ponto chave para o despertar político. Ecologia e capitalismo são indissociáveis e, por isto, a luta política deve considerar a degradação ambiental inevitável dentro dos alicerces do capitalismo. Quando a crítica à Ecologia fica restrita ao campo do ecologicamente correto ocorre um esvaziamento da questão política fundamental. O capitalismo trata de engendrar o próprio capitalismo, tirando da questão ecológica proveito lucrativo – o que é inerente ao sistema econômico – e, igualmente dela, faz tema concernente ao consenso democrático, sem tecer maiores críticas à própria democracia.

Em uma linha de argumentação também não teórica marxista, o esloveno é um autor que não se cansa de acusar a dependência geopolítica dos direitos humanos. Para ele os direitos humanos são utilizados pelos Estados beligerantes como justificativa para as guerras propagadas neste final de século XX e início de século XXI. Entretanto, o que na verdade define as intervenções militares não são fatores ligados aos direitos humanos – estes são justificativas – sendo o cerne da questão os fatores econômicos estratégicos dos Estados exploradores.

Uma compreensão marxista da política e do direito

Tanto em Vivendo no fim dos tempos como em O ano em que sonhamos perigosamente encontramos um Žižek muito mais pós-marxista, que procura, a todo o momento, reinventar Marx, (re)apropriá-lo no que possa existir de mais contemporâneo na economia e na sociedade. Entretanto, quando não está nas bases teóricas marxistas, Žižek é o autor antiliberal, que acusa a disfunção do capitalismo atual. Abandona a análise marxista do capitalismo industrial ou tão somente das trocas comerciais como dados válidos com a finalidade de desvendar o funcionamento do capitalismo atual: “Ou seja, se o antigo capitalismo envolvia, em termos ideais, um empreendedor que investia dinheiro (seu ou emprestado) na produção (organizada e dirigida por ele mesmo) e recebia os lucros, hoje surge um novo tipo ideal: o empreendedor que não é mais dono de sua própria empresa, mas um gerente especializado (ou um conselho administrativo presidido por um CEO) que dirige uma empresa pertencente a bancos (também dirigidos por gerentes que não são seus donos) ou a investidores dispersos. Nesse novo tipo ideal de capitalismo sem burguesia, a antiga burguesia, tornada disfuncional, é refuncionalizada como gerentes assalariados – a nova burguesia é paga e, mesmo que possua parte da empresa, recebe ações como parte da remuneração de seu trabalho.” (ŽIŽEK, 2012A, p. 19 e 20).

Diferentemente do trecho acima citado, em outras passagens dos livros recentemente traduzidos no Brasil, Žižek apropria-se diretamente de Marx para validar sua crítica antiliberal. Um dos problemas desta tomada de posição é que, em muitos casos na sua produção intelectual, a análise marxista puramente teórica fica negligenciada tão só em desqualificar o liberalismo. Mas o mais instigante até o momento na produção zizekiana, é que, tanto em O ano em que sonhamos perigosamente quanto em Vivendo no fim dos tempos, o filósofo de Liubliana parece não ficar somente na crítica ao neoliberalismo, procura de certa forma, uma revalidação de Marx, ainda mais intensa no campo teórico do que antes percebida. Assim, Žižek eleva o afazer filosófico ao seu máximo exponencial ou talvez ao seu verdadeiro sentido, ao que Nietzsche já afirmava como sendo o “criar valores” (NIETZSCHE, 2005, p. 105), na medida em a teorização zizekiana não é acadêmica, seu pensamento não é um estudo bem elaborado sobre a política ou o marxismo, o que este pensador faz qualifica-se verdadeiramente como filosofia, pois é um pensamento estruturado e livre de arbitrariedades acadêmicas ou compromissos internos com a coerência linear do pensamento. Da mesma forma como é na literatura, na filosofia a construção de uma obra qualifica-se, por vezes, pela linearidade, por outras, pela disjunção ou corte epistemológico ou até mesmo pela indefinição teórica ou ambivalência do pensamento. O filósofo não tem o mesmo compromisso teórico do acadêmico e isto permite a Žižek reinventar o marxismo, amoldá-lo as suas análises do capitalismo e da sociedade contemporânea.

Ao sair dos temas puramente políticos para o campo do direito, o autor de Liubliana, entretanto, parece estabelecer-se mais com Marx do que remodelando Marx. Este filósofo está muito condicionado a compreensão marxista, antes, no começo do século 20, já revelada pelo jusfilósofo Pachukanis, para quem a forma jurídica é equivalente à forma mercadoria. No Brasil, para a compreensão do direito em termos marxista pachukanianos três pensadores conjugam escritos de grande importância, a saber: Alysson Leandro Mascaro, Márcio Bilharinho Naves e Celso Naoto Kashiura Junior.

No mesmo horizonte do que já vem sendo produzido aqui no Brasil, Žižek apropria-se da visão marxista sob o direito, no meu modo de entender mais correta. Além de apontar esta equivalência da forma jurídica à forma mercadoria, o filósofo esloveno esbanja marxismo jurídico em diversas passagens dos livros comentados, ao acusar a dependência da liberdade burguesa à infraestrutura marxista: “É neste ponto que a principal percepção de Marx ainda é válida, talvez mais do que nunca: para ele, a questão da liberdade não deveria ser circunscrita, em primeiro lugar, à esfera política propriamente dita (o país tem eleições livres?, os juízes são independentes?, a imprensa é livre de pressões ocultas?, os direitos humanos são respeitados....? (....) A chave para a efetiva liberdade, ao contrário, está na rede “apolítica” das relações sociais, do mercado à família, em que a mudança necessária, se quisermos uma melhora efetiva, não é uma reforma política, mas uma mudança nas relações sociais “apolíticas” de produção.” (ŽIŽEK, 2012A, p. 91 e 92).

Mas Žižek, pensador de várias facetas para a filosofia política e jurídica, singulariza-se, justamente, pela disjunção da base teórica que lhe sustenta. Ao sair das coordenadas científicas do marxismo e “criar o seu valor” para a interpretação da política ou, por exemplo, dos direitos humanos na contemporaneidade este brilhante filósofo torna-se ambivalente ao marxismo e, por outro lado, inventa e modela a diluição de seu pós-marxismo nos cem números de comentários que faz sobre a política e o direito.

A psicanálise como base teórica

Žižek progride teoricamente pelas bases da psicanálise social. Ao ler os escritos zizekianos estamos submetidos aos conceitos psicanalíticos como Gozo, Outro, Ego, Superego, Id, Real, Imaginário, Simbólico e todos os demais temas da psicanálise lacaniana e Freudiana, a última, de longa data, utilizados na crítica psicanalítica. O filósofo de Liubliana se orienta no mesmo sentido de junção da psicanálise com a crítica social precedida pela Escola de Frankfurt. Nesta ligação, ora aproxima-se mais de Marx ora o recurso à psicanálise é tão somente para estabelecer a crítica política, como se vê na passagem seguinte: “Devemos recordar aqui a distinção psicanalítica entre encenação e passage à l’acte: a encenação é um espetáculo que se dirige à figura do grande Outro, deixando-o imperturbável em seu lugar; já a passage à l’acte é uma explosão violenta que destrói o próprio elo simbólico. Essa não é a nossa situação hoje? As grandes manifestações contra o ataque dos Estados Unidos ao Iraque alguns anos atrás são um caso exemplar de uma estranha relação simbiótica e até de parasitismo entre poder e manifestantes. O resultado paradoxal foi que ambos os lados ficaram satisfeitos.” (ŽIŽEK, 2012B, p. 65).

Na trilha da psicanálise social Žižek consegue ser um dos autores contemporâneos mais original. Ele conjuga o universo lacaniano com a crítica política e marxista e, neste sentido, inova se comparado com autores como Adorno ou Erich Fromm, para os quais as bases teóricas de reflexão da psicanálise vinham do freudismo.

Autor indispensável na crítica contemporânea, Žižek continua a surpreende nos seus escritos. De imensa produção intelectual, não recua um passo na sua empreitada de desconstrução do liberalismo e da esquerda pragmática. Teórico insólito, Slavoj Žižek é peça chave para a compreensão fugidia do senso comum da crítica pós-moderna. Em Vivendo no fim dos tempos e em O ano em que sonhamos perigosamente a psicanálise social e o marxismo novamente apontam para o que há de mais belo e forte na obra de Žižek: a inovação teórica crítica na compreensão de acontecimentos profundos e cotidianos do nosso horizonte político.

Marcelo Gomes Franco Grillo é procurador geral do município de São Carlos. Mestre em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, possui estudos de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. Pesquisador da obra de Slavoj Žižek, é autor do livro O Direito na Filosofia de Slavoj Žižek: perspectivas para o pensamento jurídico crítico (Alfa-Omega, 2011).

Referências Bibliográficas

GRILLO, Marcelo Gomes Franco. O Direito na Filosofia de Slavoj Žižek: Perspectivas para o pensamento jurídico crítico. São Paulo: Alfa-Omega, 2011.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

ŽIŽEK, Slavoj. O ano em que sonhamos perigosamente. Tradução de Rogério Bettone, 1ªed., São Paulo: Boitempo, 2012A.

____________. Vivendo no Fim dos Tempos. Tradução de Maria Beatriz de Medina, 1ªed., São Paulo: Boitempo, 2012B.