Marx não morreu

10.03.2013

Brasileiros
André Siqueira

Evento internacional reúne especialistas para explicar por que a obra do pensador alemão continua a ser a melhor ferramenta de análise das crises e conflitos do mundo atual

Com essa Fukuyama não contava. Duas décadas depois de o cientista político americano decretar o fim da história – ao considerar o liberalismo político e o capitalismo de livre mercado como o modelo definitivo de governo, uma obra prestes a completar 150 anos ressurge praticamente das cinzas e revela uma assustadora atualidade. O Capital, cujo primeiro volume foi escrito por Karl Marx em 1864, volta a ser tirado das prateleiras pelos interessados em entender como uma crise de proporções equivalentes à de 1929, que resultou na Grande Depressão dos anos 1930, foi deflagrada em 2008 nos Estados Unidos e se espalhou pelo mundo. Uma catástrofe ocorrida sob os narizes de economistas que, até então, imaginavam que o único desafio intelectual que Ihes restava era como multiplicar os lucros dos ávidos investidores.

A Boitempo Editorial farejou, no Brasil, a crescente demanda pelos ensinamentos do mestre alemão e lança, neste mês de março, uma nova edição do clássico em português – traduzida a partir da edição do projeto alemão MEGA-2, que reúne os manuscritos originais de Marx e Friedrich Engels. Mais ainda, organiza a série de eventos Marx: A Criação Destruidora, que de março a maio vai reunir especialistas do País e do exterior e percorrerá Porto Alegre, Brasília, Recife, Salvador e São Paulo. Nesta última capital, o evento será realizado em parceria com o SESC Pinheiros, dividido em três etapas. Além do primeiro volume de O Capital, serão lançados durante os seminários os livros Para Entender O Capital, do geógrafo britânico David Harvey, Menos que Nada: Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético, do filósofo esloveno Slavoj Žižek ; Estado e Forma Política, do professor da Faculdade de Direito da USP Alysson Leandro Mascaro; e Marx, Modo de Uso, do filósofo francês Daniel Benscid (morto em 2010).

Em entrevista à Brasileiros, Harvey, que estará em São Paulo, no dia 23 de março, Porto Alegre (25) e Salvador (26), disse ter percebido, pelo volume de acesso às suas aulas on-line sobre O Capital, o aumento do interesse pelo autor alemão. "Há, é claro, muito preconceito contra Marx nos EUA. Isso é menos visível na Europa. Mas desde a crise de 2008, e mesmo antes, vimos uma crescente preocupação em analisar por que o capitalismo não estava entregando suas promessas, o que levou muitas pessoas a estudar Marx a sério", afirma.

Uma mudança radical nessa nova onda de estudo do marxismo, segundo o especialista, é que não há mais espaço para se pensar alternativas ao capitalismo que se assemelhem com o comunismo e o socialismo como se tornaram conhecidos no século passado. "Há muitos experimentos em curso no mundo, em busca de outros meios de sustentar a sociedade, transformar as relações sociais e nossa relação com o meio ambiente. Mas são fragmentados e não se unem em um só movimento de massas. É um momento interessante para ver a evolução dessas experiências", defende. "Precisamos abrir espaço para que um novo pensamento surja."

Harvey diz preferir tratar essas manifestações como anticapitalistas, em vez de comunistas ou socialistas – pela conotação negativa associada aos termos. E acrescenta que o objetivo principal de O Capital é dissecar o sistema econômico dominante, e não apresentar opções a ele. "Há muito pouco em O Capital sobre quais são as alternativas, mas é muito interessante a análise que mostra porque as crises são inevitáveis no capitalismo, porque a desigualdade social é produzida pelo capitalismo e porque a devastação do meio ambiente é cada vez maior sob o capitalismo", afirma.

A professora da Faculdade de Economia e Administração da USP Leda Paulani, atualmente secretária de Planejamento, Orçamento e Gestão da Prefeitura de São Paulo, está entre os especialistas brasileiros na obra de Marx que farão parte dos seminários. Ela avalia que a retirada dos ensinamentos de Marx dos currículos acadêmicos não se deveu apenas à dicotomia entre comunismo e capitalismo dos anos da Guerra Fria. "Os anos de ouro (período de elevado crescimento econômico entre as décadas de 1940 e meados de 1970) foram uma absoluta exceção na história do capitalismo, quando os Estados nacionais tiveram mais autonomia e construíram as bases do bem-estar social. O que vimos nos últimos 30 anos, sob o paradigma neoliberal, é a verdadeira face do capitalismo", diz Leda.

Para a professora, o atual dilema da esquerda é a falta de alternativas efetivas ao capitalismo. "O discurso da mídia e da academia, dentro e fora do Brasil, continua a ser o ortodoxo", afirma. "Por outro lado, vão se esgotando as possibilidades de arranjo dentro da lógica capitalista, e vemos os EUA estatizarem o sistema bancário e vários países utilizarem estratégias heterodoxas para evitar o pior."

Autor de uma das primeiras dissertações sobre Marx apresentadas na USP, em 1968, o sociólogo Emir Sader afirma que a crise de 2008 deixou os teóricos do neoliberalismo "na defensiva", embora ainda não estejam claras as alternativas ao pensamento dominante. "Nosso objetivo, por enquanto, é resgatar aquilo que, até agora, é o melhor método de análise do mundo e trazê-Io para a prática contemporânea", defende o intelectual, que participará de um debate sobre o estudo de O Capital no Brasil.

Ainda que não esteja clara a configuração das atuais forças de oposição ao capitalismo, o professor da Unicamp Ricardo Antunes – que ministrará, no dia 14 de maio, a aula "Crítica ao idealismo: o proletariado e a práxis revolucionária"– tenta identificar qual é a nova morfologia da classe trabalhadora. "Há quem diga que o proletariado acabou, o que é uma grande falácia. O funcionário das fábricas do ABC conquistou direitos, mas a terceirização coloca ao lado deles trabalhadores em condições muito ruins. Na Europa, o desemprego fez surgir um proletariado precarizado e pós-graduado", avalia.

"A análise de Marx é tão atual que encontramos uma equivalência entre os trabalhadores que abrem empresas para vender seu trabalho como se fossem pessoas jurídicas e aqueles que, conforme o autor, compravam máquinas para produzir em casa e 'proletarizavam' a si mesmos", diz Antunes. "Nosso desafio hoje é redescobrir Marx e colocar em prática um de seus principais ensinamentos: duvidar de tudo."

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