Em dia com a dialética

15.04.2013

Caros Amigos - Ideias de botequim
Renato Pompeu


Em paralelo a seu grande evento Marx: a criação destruidora, uma série de palestras e cursos em várias capitais brasileiras, a Boitempo Editora está lançando livros de alguns dos palestrantes, como Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético, do famoso filósofo esloveno Slavoj Žižek, que pretende restaurar, à luz da concretude e da cultura contemporâneas, uma discussão sobre o movimento como categoria não só da filosofia como da realidade externa ao pensamento. Interessante é que, em relação à edição original em inglês do ano passado, o próprio autor cortou alguns capítulos. Ou Para Entender 'O capital', do pesquisador inglês David Harvey, um livro realmente útil, e não reducionista nem esquemático, para aprender a como bem aproveitar a leitura da obra de Marx, especialmente o volume 1 de O Capital, volume que, por sinal, foi relançado em setembro último pela própria Boitempo, sob o título O capital – Crítica da economia política – Livro I – O processo de produção do capital. Pena que a grande maioria dos chamados marxistas do passado não teve acesso a uma obra como a de Harvey, de modo que o que era uma espécie de ciência em progresso — o marxismo — se acabou transformando em uma verdadeira religião dogmática.



Crise Capitalista

O que fica claro com toda essa movimentação em torno de Marx é que, depois de um período de obscurecimento em grande parte devido às vicissitudes do extinto socialismo real, o seu pensamento está de novo despertando grande interesse, principalmente porque a atual crise estrutural do capitalismo concreto pode ser muito bem entendida a partir das teorizações de Marx em O capital. Há problemas, entretanto, que nem Marx explica. É o caso, por exemplo, do suicídio. Um completo levantamento está em O Suicídio e Sua Prevenção, de José Manoel Bertolote, lançado pela Editora Unesp. Um milhão de pessoas se suicida por ano em todo o mundo e vários milhões de sobreviventes são profundamente afetados por isso. Bertolote indica, entre outras coisas, como reconhecer que uma pessoa pode estar prestes a suicidar-se e o que fazer para impedir que ela consume o ato. Mas, voltando à economia e à política, também a Editora Unesp lançou, em terceira edição, Direita e Esquerda — Razões e Significados de uma Distinção Política, em que o mais importante teórico da política da segunda metade do século 20, o italiano Norberto Bobbio, demonstra que as diferenças entre a direita e a esquerda continuam bem vivas nos atuais tempos de tentativas de fuga a essas distinções, como mostra a ascensão de movimentos que não se apresentam nem de direita nem de esquerda, caso do Cinco Estrelas da Itália e da Rede da Sustentabilidade do Brasil. Ainda da Editora Unesp são os proveitosos estudos incluídos em A Crise Financeira Internacional — Origens, Desdobramentos e Perspectivas, obra organizada por Fernando Ferrari Filho e Luiz Fernando de Paula e que se caracteriza por discutir os rumos que a crise pode ainda tomar. Também a Editora Unesp acaba de lançar A Evolução dos Estudos de Segurança Internacional, do inglês Barry Buzan e da dinamarquesa Lena Hansen, a propósito dos avanços e recuos das discussões sobre a conceituação da segurança internacional (ou seria insegurança internacional?) desde os fins da Segunda Guerra Mundial até os dias de hoje.

Contestado

Apesar de a Guerra de Canudos e a Revolução Farroupilha serem muito mais famosas, a Guerra do Contestado, que começou em 1912 e durou quatro anos, entre Santa Catarina e o Paraná, foi a maior guerra civil da América Latina, como assinalou o escritor uruguaio Eduardo Galeano. Sobre ela temos um estudo publicado pela J. M. Editora, A Atualidade do Contestado – Edição do Centenário da Guerra Camponesa, de Milton Ivan Heller. Em número de envolvidos e de vítimas, foi, segundo o autor, a mais violenta repressão contra movimentos camponeses na história do Brasil.

Educação

Além da questão agrária ainda não resolvida, os brasileiros têm de lidar com o problema tanto quanto se pode prever insolúvel a médio prazo da educação, para cujo encaminhamento falta visivelmente vontade política. Talvez ela possa ser despertada por essa edição, revista a partir dos manuscritos originais, de À Sombra Desta Mangueira, de Paulo Freire, lançamento da Civilização Brasileira. Se de O Capital de Marx se pode dizer que é muito comentado e muito pouco lido, do método Paulo Freire se pode dizer que é muito celebrado, mas praticamente nunca foi aplicado, nem mesmo, por exemplo, por seu próprio autor quando foi secretário da Educação municipal de São Paulo.

Periferia

O contista Alessandro Araujo, em Pro Santo & Outras Perdições, publicação da Editora Torre, consagra-se como intelectual orgânico dos moradores da periferia e dos moradores de rua da Grande São Paulo. Do outro extremo do Brasil, do Ceará, o cordelista Eduardo Macedo apresenta O Boi Morre-Não-Morre e os Primeiros Folhetos, lançamento da Fortaleza Expressão Gráfica Editora, em que, segundo o próprio autor, ele “execra o diabo e o capitalismo neoliberal”. Outra intelectual orgânica de novo tipo é Eliana Sousa Silva, uma moradora do chamado Complexo da Maré, conjunto de favelas do Rio, a qual se tornou doutora em Serviço Social com esse Testemunhos da Maré, edição conjunta da Aeroplano Editora e da Faperj, em que ela reproduz “as vozes dos agentes do Estado, moradores da comunidade, traficantes e milicianos”. Ela literalmente sabe do que está falando, como, de resto, todos os autores aqui citados.

Renato Pompeu é jornalista e escritor