O capital

15.05.2013

Fórum - Sobre livros, ideias e atitudes
Ricardo Musse

Crítica da economia política. Livro 1 – O processo de produção do capital
Karl Marx
Tradução: Rubens Enderle
Boitempo, 894 págs., R$ 98


Momento alto do projeto de publicar as principais obras de Karl Marx e Friedrich Engels, a Boitempo apresenta, finalmente, o primeiro volume de O capital. A versão coube a Rubens Enderle, também responsável por outros volumes da série, entre eles, A ideologia alemã. Trata-se da terceira tradução brasileira de O capital. O leitor dispõe, com isso, da possibilidade de confrontar diferentes soluções para conceitos clássicos ("mais-valia", nesta edição, tornou-se "mais-valor") e para passagens de difícil tradução.

Marx interessou-se pela economia política desde o início da década de 1840, data de suas primeiras anotações sobre o tema. O livro projetado de crítica daquela que constituía então a principal vertente do pensamento burguês' foi postergado várias vezes. O avanço de suas pesquisas pode ser acompanhado em outros trabalhos: a crítica a Proudhon, em Miséria da filosofia (1847), e no Manifesto Comunista (1848).

Após a derrota da Revolução de 1848, na Alemanha e na França, Marx exila-se em Londres, cidade na qual passou o resto de sua vida. Dedica-se desde então integralmente ao projeto de "crítica da economia política': premissa da compreensão da sociedade capitalista. A primeira versão desse trabalho, o manuscrito conhecido como Grundisse e publicado apenas em 1939, foi concluída em 1857-1858.

A primeira edição de O capital (reformulada significativamente quatro anos depois por ocasião da segunda edição) saiu apenas em 1863. Nesses cinco anos, além de escrever os cadernos publicados postumamente como, Teorias da mais-valia, Marx concentrou-se, sobretudo na questão da exposição de sua pesquisa. A precisão formal do livro 1 de O capital (talvez o volume mais bem concebido da história) soluciona problemas de difícil encaminhamento.

Marx almeja a uma redação de fácil apreensão clara, límpida, que não afugentasse os principais destinatários do livro, os trabalhadores europeus. A principal dificuldade, no entanto, dizia respeito à necessidade de, sem prescindir do relato da gênese, não se limitar a uma exposição da história do capitalismo. A atualidade do livro assenta-se precisamente nessa combinação que faz com que O capital seja essencial a quem quer estudar o desenrolar histórico do capitalismo, mas não pode ser confundido com um mero relato do processo de produção do capital.

O que torna o livro mais que uma história do capitalismo (cuja validade não teria como ir além da segunda metade do século XIX) é seu arcabouço conceitual: uma série de categorias e tendências cujos desenvolvimentos podem ser acompanhados e atualizados para o presente histórico. Na descrição do processo de acumulação do capital, Marx, por exemplo, aponta para a tendência à concentração e à centralização do capital, que explica o recente predomínio globalizado das grandes corporações.

Para ele, a troca mercantil determina não apenas as relações econômicas e jurídicas, mas a própria sociabilidade no capitalismo. A compreensão dos desdobramentos políticos e culturais dessa sociedade não pode ignorar o fenômeno do "fetichismo da mercadoria", que estrutura tanto a objetividade das relações econômicas e sociais como a própria configuração da ciência e da consciência em geral.

O acompanhamento teórico do fenômeno do fetichismo não descuida da elucidação das condições que o desvelam. Em suas diferentes manifestações, no dinheiro, no capital, na esfera da circulação, no âmbito da produção etc., o fetichismo tem por avesso a situação de crise, de tal modo que não é inadequado considerar que o roteiro da crise (econômica, social, política, cultural) é moldado por uma intensificação do fetichismo, que, por sua vez, escancara as contradições do capitalismo.

As classes, o conjunto dos trabalhadores e dos capitalistas, e com elas a figura do Estado, entram em cena apenas no capítulo VIII, no qual Marx aborda a duração da jornada de trabalho. Essa, no entanto, é apenas a ponta do iceberg de um conflito social insolúvel, que gira em torno do destino da mais-valia, pauta ainda hoje prioritária da luta de classes e das demandas por novos direitos sociais.