O antigo muito atual

15.06.2013

Revista Filosofia: ciência e vida
Catarina Santos


A nova tradução do Livro I de O capital, pela Editora Boitempo, traz uma lapidação conceitual contribuindo para alcançar o sentido percebido e atribuído por Marx. Rubens Enderle captou, com sua sensibilidade e conhecimento profundo da língua alemã, as sutilezas do idioma. Por exemplo, os cuidados com o verbo aufheben. Marx utilizou dois dos seus três sentidos em O capital: a) suprimir, anular, destruir, revogar, cancelar, suspender, superar; b) conservar, poupar, preservar.

Além da primorosa tradução, a edição traz uma versão reduzida da apresentação do livro feita por Jacob Gorender à publicação pela coleção Os economistas. Seu nome está entre os marxistas mais reconhecidos no meio acadêmico. A essa contribuição valiosa é acrescido um texto brilhante de Louis Althusser, publicado na edição francesa, fazendo uma advertência sobre o que é O capital. Completando a introdução ao livro propriamente dito, José Arthur Giannotti tece suas Considerações sobre o método.

Obra crítica sobre o capitalismo, O capital é o representante da fase madura de Marx. O Livro I traz a análise do modo de produção capitalista e as suas relações de produção e de circulação. Dito de outro modo, a produção das mercadorias e a sua comercialização. Entre as mercadorias destaca-se uma: a mão de obra livre. Uma avaliação da substância e da magnitude do valor, indo do valor de uso ao valor de troca, aponta as inovações que o modo de produção capitalista introduz nas relações socioeconômicas.

As Revoluções Burguesa e Industrial compõem o pano de fundo de toda a pesquisa do autor. As formações econômico-sociais fazem parte de um processo histórico natural, segundo o qual os indivíduos não são responsáveis por "relações das quais ele continua a ser socialmente criatura (p. 80). A compreensão da atribuição de valor às mercadorias apresenta um elemento novo, característico das relações de produção capitalista: a extração da mais-valia da mercadoria trabalho humano. Esta será a medida do valor de um produto transformado em mercadoria e da própria mercadoria força de trabalho. O tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de um valor-de-uso lhe dará o seu valor.

A fórmula "D-M-D", só é explicada com a conversão da mercadoria em capital, o que ocorre através de um valor excedente originado no processo de produção, ao se agregar trabalho a matéria-prima. Ou seja, a força de trabalho livre colocada à venda em uma divisão do comércio de mercadorias, o mercado de trabalho. O cálculo do seu valor identifica-se com o das outras mercadorias, considerando-se o que é necessário para produzi-la, os meios de subsistência. O sobre valor auferido na venda do produto final tem sua origem nesta esfera: a transformação da matéria-prima em produto através do trabalho assalariado. No processo de produção, o operário terá subtraída uma parte do valor diário da sua força de trabalho. Isso porque, da ótica do capital, o investimento inicial deverá ser inferior ao valor do produto final. O objetivo do capitalista é o de produzir valores de uso que tenham valor de troca e sejam geradores de valor excedente.

Valor contra valor não é interessante ao capital. O processo produtivo é o meio de realização da mais-valia. Sobre esse alicerce Marx desvendará todas as nuances do processo de produção capitalista. O capital continua atual, é uma leitura indispensável para a compreensão das relações sócio-política-econômicas. Bacharel em Sociologia pela PUC-RJ e bacharel e mestre em Filosofia pelo PPGF-UFRJ. Atualmente está fazendo doutorado em Filosofia no PPGF-UFRJ, vinculado ao Centro de Ética e Filosofia da Mente da UFRJ. Professora e poetisa. O CAPITAL O Capiml, Livro I, O processo de Produção Capitalista. Autor: Karl Tradução: Rubens Enderle. Editora: Boitempo. 856 págs.