Nada fácil, porém fundamental

20.07.2013

Revista Retrato do Brasil
Renato Pompeu


O primeiro volume de O Capital tem nova tradução em português Deve-se saudar mais uma tradução de O capital-Livro I, lançada pela Boitempo Editorial, num primoroso trabalho de Rubens Enderle. Afinal, Marx "realizou a maior proeza literária que um homem pode almejar. Marx mudou a consciência do mundo", como escreveu o escritor britânico George Bernard Shaw (aliás, amigo de Tussy, filha de Marx). Mas, apesar da tradução tão fluente, não se esperem facilidades nem milagres. A melhor resenha sobre isso foi escrita pelo próprio Marx: "Todo começo é difícil; isso vale para qualquer ciência. O entendimento do capítulo I, em especial a parte que contém a análise da mercadoria, apresentará, portanto, a dificuldade maior. Quanto ao que se refere mais especificamente à análise da substância do valor e da grandeza do valor, procurei torná-las acessíveis ao máximo. A forma do valor, cuja figura acabada é a forma do dinheiro, é muito simples e vazia de conteúdo. Mesmo assim, o espírito humano tem procurado fundamentá-la em vão há mais de 2 mil anos, enquanto, por outro lado, teve êxito, ao menos aproximado, a análise de formas muito mais complicadas e repletas de conteúdo. Por quê? Porque o corpo desenvolvido é mais fácil de estudar do que a célula do corpo. Além disso, na análise das formas econômicas não podem servir nem o microscópio nem reagentes químicos. A faculdade de abstrair deve substituir ambos. Para a sociedade burguesa, a forma celular da economia é a forma de mercadoria do produto do trabalho ou a forma do valor da mercadoria. Para o leigo, a análise parece perder-se em pedantismo. Trata-se, efetivamente, de pedantismo, mas daquele de que se ocupa a anatomia microscópica. Por isso, com exceção da parte relativa à forma do valor, não se poderá acusar este livro de ser de difícil compreensão. Pressuponho, naturalmente, leitores que queiram aprender algo de novo e queiram, portanto, também pensar por conta própria".

Portanto, o próprio Marx considerava particularmente difícil o primeiro capítulo. Na mesma passagem, também julgava bastante inadequadas as interpretações do grande militante socialista alemão Ferdinand Lassale a respeito dos próprios conceitos de Marx. Imagine-se o que aconteceria entre a maioria esmagadora dos leitores, sabida mente menos preparados do que Lassale. Mais graves ainda são as constatações de Vladimir Lenin, em seus Cadernos filosóficos, de 1916: "Aforismo: é impossível entender O Capital de Marx, e especialmente seu primeiro capítulo, sem ter profundamente estudado e entendido o todo da Lógica de Hegel. Consequentemente, meio século depois, nenhum dos marxistas entendeu Marx!!".

Isso, é claro, inclui na categoria dos que não entenderam Marx pensadores e militantes importantes, como Trotski, Stalin, Rosa Luxemburgo, Kautsky e, presumivelmente, o próprio Engels. E, para se ter uma ideia da dificuldade em entender a Ciência da lógica, do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel, basta lembrar que o próprio Lenin reconheceu não ter entendido algumas partes. Um pequeno trecho da introdução desse livro de Hegel dá uma amostra de sua complexidade: "O entendimento determina e mantém firmes as determinações. A razão é negativa e dialética, porque resolve no nada as determinações do entendimento; é positiva, porque cria o universal e nele compreende o particular".

Mas há esperanças. Hoje é mais fácil entender O capital do que no tempo de Lenin. A própria Boitempo, por exemplo, publicou os Grundrisse (2011) -em que Marx torna mais transparentes os conceitos de Hegel-, obra que só veio a público depois da morte de Lenin, e Para entender O capital (2013), do geógrafo inglês David Harvey. Essas são obras que ajudam a adquirir uma compreensão mais plena da obra maior de Marx, seguramente um dos livros mais importantes que a humanidade produziu.