O capital

28.06.2013

Jornal da USP
Claudia Costa


Edição considerada definitiva de O Capital no Brasil é publicada pela primeira vez a partir do âmbito do projeto alemão Mega-2

“A circulação simples de mercadorias – a venda para a compra – serve de meio para uma finalidade que se encontra fora de circulação, a apropriação de valores de uso, a satisfação de necessidades. A circulação do dinheiro como capital é, ao contrário, um fim em si mesmo, pois a valorização do valor existe apenas no interior desse movimento sempre renovado. O movimento do capital é, por isso, desmedido. Como portador consciente desse movimento, o possuidor do dinheiro se torna capitalista. Sua pessoa, ou melhor, seu bolso, é o ponto de partida e de retorno do dinheiro. O conteúdo objetivo daquela circulação – a valorização do valor – é sua finalidade subjetiva, e é somente enquanto a apropriação crescente da riqueza abstrata é o único motivo de suas operações que ele funciona como capitalista ou capital personificado, dotado de vontade e consciência.”

Esse é um trecho de O Capital, clássico de Karl Marx, originalmente publicado na Alemanha em 1867, considerado a mais profunda investigação crítica do modo de produção capitalista, que é lançado pela Boitempo Editorial, e tido por especialistas como a edição definitiva no Brasil. Publicação preparada no âmbito do projeto alemão Mega -2 (Marx-Engels Gesamtausgabe), instituição detentora e curadora dos manuscritos de Karl Marx e Friedrich Engels, ganha seu primeiro livro com tradução de Rubens Enderle e textos introdutórios de Jacob Gorender, Louis Althusser e José Arthur Giannotti. O objetivo de Marx era, por meio de uma crítica da economia política, compreender como o capitalismo funciona, e foi a partir desse desafio que desenvolveu um aparato conceitual e metodológico para entender toda a complexidade do capitalismo, suas categorias e a relação direta entre acumulação de capital e exploração da força de trabalho.

Segundo Francisco de Oliveira, que assina a orelha do livro, o percurso a ser seguido para entender a lógica do capital é árduo. “Ele (Marx) examina antes de tudo a mercadoria e sua formação, pois o capitalismo continua a ser, mesmo em sua fase amplamente financeirizada, um modo de produção de mercadorias”, explica o sociólogo. Já Giannotti afirma em sua apresentação, que a obra de Marx nunca perdeu seu interesse e sua relevância, a despeito das idas e vindas das modas atuais do pensar e dos novos paradigmas em que a ciência econômica se alicerça. “Parece-me que isso ocorre porque ela é mais do que um texto científico. Ao salientar a especificidade das relações fetichizadas do capital, a análise retoma a antiga questão do ser social e de sua historicidade.” E completa: “A questão hoje em dia é mais do que teórica. A grande crise pela qual estamos passando coloca em pauta a alienação do capital, em particular do capital financeiro, e a necessidade de alguma regulamentação dos mercados”.

A Coleção – A publicação do Livro I de O Capital – dividido em três partes – dá continuidade ao grande projeto da Boitempo Editorial de traduzir o legado de Karl Marx e Friedrich Engels, com o auxílio de renomados especialistas. Com 16 volumes publicados, a coleção Marx-Engels teve início com a edição comemorativa dos 150 anos do Manifesto Comunista, em 1998. Em seguida foi publicada A Sagrada Família (2003), obra polêmica que assinala o rompimento definitivo de Marx e Engels com a esquerda hegeliana. Ainda foram publicados títulos como Os Manuscritos Econômico-Filosóficos (2004), Sobre o Suicídio (2006), A Ideologia Alemã (2007), Lutas de Classes na Alemanha (2010), Os 18 de Brumário de Luís Bonaparte (2011), A Guerra Civil na França (2011) em comemoração aos 140 anos da Comuna de Paris, e os Grundrisse (2011). Neste ano foram mais três obras: Crítica do Programa de Gotha, O Socialismo Jurídico, As Lutas de Classes na França de 1948 a 1850, e agora o Livro I de O Capital, que também será lançado em e-book – o volume 2 tem previsão de lançamento para 2014 e o último em 2015.

Além das publicações, a Boitempo também está promovendo, em parceria com o Sesc, o seminário internacional Marx: a criação destruidora, com a participação de alguns dos mais renomados especialistas da tradição marxista, com destaque para o filósofo esloveno Slavoj Žižek, o geógrafo britânico David Harvey e o cientista político alemão Michael Heinrich, integrante do projeto Mega-2. Em São Paulo, a programação, dividida em três etapas, marca o histórico lançamento da edição especial, com tradução inédita do Livro I de O Capital, de Karl Marx, e ao mesmo tempo o lançamento do livro Para Entender O Capital – Livro I, do geógrafo britânico David Harvey, professor de Antropologia na pós-graduação da The City University of New York e um dos marxistas mais influentes da atualidade, reconhecido por sua análise das dinâmicas do capital.