O que as ruas ensinam além da rebeldia

01.08.2013

O diário do Norte do Paraná
Da redação


Coletânea da Boitempo faz um raio X das manifestações de rua que acabaram por ditar uma nova agenda política para o Brasil

*



Primeiro livro impresso a ser publicado sobre as manifestações, Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil é uma coletânea que consolida uma nova coleção da Boitempo, de livros de intervenção a preço de custo, intitulada “Tinta vermelha” em homenagem ao texto que o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu durante o Occupy Wall Street. Chega às livrarias de todo o Brasil na semana que vem.

O livro convoca o pensamento crítico independente para refletir os fatos recentes, em meio a uma guerra de interpretações das vozes rebeldes, que se estendeu inclusive às ruas (na disputa de cartazes empunhados pelo conjunto heterogêneo). Os textos abrangem vários temas e são quase todos inéditos. Participam da coletânea autores nacionais e internacionais, como Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Raquel Rolnik, Ermínia Maricato, Jorge Souto Maior, Mauro Iasi, Silvia Viana, Ruy Braga, Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto, João Alexandre Peschanski entre outros convidados.

Além de analisar a conjuntura política e social, o lançamento pretende contribuir com o debate iniciado pelo Movimento Passe Livre (MPL) – que também participará com um artigo –, ajudando a consolidar suas bases teóricas e práticas. Paulo Arantes e Roberto Schwarz assinam os textos da quarta capa.

Os principais temas abordados são o direito ao transporte público e à cidade, a violência nas manifestações, partidarismo, luta política e democracia. O livro também conta com registros fotográficos do coletivo Mídia Ninja e ilustrações diversas sobre as manifestações.

A obra, editada em parceria com o portal Carta Maior, segue a linha do livro Occupy - movimentos de protestos que tomaram as ruas, com o mesmo formato e preço (R$10,00 o impresso, R$5,00 o e-book).

TRECHO

As vozes das ruas: as revoltas de junho e suas interpretações
Raquel Rolnik


Podemos pensar essas manifestações como um terremoto que perturbou a ordem de um país que parecia viver uma espécie de vertigem benfazeja de prosperidade e paz, e fez emergir não uma, mas uma infinidade de agendas mal resolvidas, contradições e paradoxos. Além disso – e isso é o mais importante – fez renascer entre nós a utopia... No campo imediato da política, o sismo introduziu fissuras na perversa aliança entre o que há de mais atrasado/excludente/ prepotente no Brasil e os impulsos de mudança que conduziram o país na luta contra a ditadura e o processo de redemocratização; uma aliança que tem bloqueado o desenvolvimento de um país não apenas próspero, mas cidadão.

Os autores desta coletânea apontam várias agendas como o epicentro do terremoto. Para Ruy Braga, “a questão da efetivação e ampliação dos direitos sociais é chave para interpretarmos a maior revolta popular da história brasileira”. O direito a ter direitos, que alimentou as lutas dos anos 1970 e 1980 e inspirou a Constituição e a emergência de novos atores no cenário político, parecia esvanecido no contexto da formação de uma espécie de hibridismo de Estado, desenvolvimentista e neoliberal, com uma cultura política e um modelo político-eleitoral herdados da ditadura.

Nas palavras de Carlos Vainer (parafraseando Mao Tse Tung), “uma fagulha pode incendiar uma pradaria” e, no nosso caso, essa fagulha foi a mobilização contra o aumento da tarifa nos transportes públicos convocada pelo Movimento Passe Livre (MPL).

O MPL - São Paulo formula a questão da tarifa em seu ensaio neste livro como uma afirmação do direito à cidade. De acordo com o texto/manifesto, a circulação livre e irrestrita é um componente essencial desse direito que as catracas – expressão da lógica do transporte como circulação de valor – bloqueiam. João Alexandre Peschanski, compartilhando dessa visão, analisa a proposta da tarifa zero, sua apropriação possível pelo sistema capitalista e, ao mesmo tempo, seu potencial transformador da sociedade.

Nas ruas, o direito à mobilidade se entrelaçou fortemente com outras pautas e agendas constitutivas da questão urbana no Brasil, como o tema dos megaeventos e suas lógicas de gentrificação e limpeza social. As palavras de Ermínia Maricato – “os capitais se assanham na pilhagem dos fundos públicos deixando inúmeros elefantes brancos para trás” – me lembraram um cartaz que vi em uma das passeatas: “Quando meu filho ficar doente vou levá-lo ao estádio”. A questão urbana e, particularmente, a agenda da reforma urbana, constitutiva da pauta das lutas sociais e fragilmente experimentada em esferas municipais nos anos 1980 e início dos anos 1990, foram abandonadas pelo poder político dominante no país, em todas as esferas. Isso se deu em prol de uma coalizão pelo crescimento que articulou estratégias keynesianas de geração de emprego e aumentos salariais a um modelo de desenvolvimento urbano neoliberal, voltado única e exclusivamente para, como diz Vainer, facilitar a ação do mercado e abrir frentes de expansão do capital financeirizado, do qual o projeto Copa/ Olimpíadas é a expressão mais recente... e radical.

(Apresentação da coletânea Cidades Rebeldes)

***


Título: Cidades rebeldes
Subtítulo: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil
Autores: Vários
Páginas: 112
Preço: R$ 10,00 [ebook R$5,00]
Coleção: Tinta vermelha
Editoras: Boitempo e Carta Maior