A rebelião 'pé de obra'

14.10.2013

O Estado de S.Paulo
Ruy Braga

Futebolistas se inspiram em jornadas de junho e se unem contra condições de trabalho impostas pela cartolagem

O espectro das jornadas de junho continua a rondar o País, reaparecendo em lugares ainda há pouco considerados insólitos. Se não há dúvidas de que a insatisfação popular com os gastos com as novas arenas foi uma das principais razões do início das mobilizações que açambarcaram o Brasil durante a Copa das Confederações, quem apostaria que também fora dos gramados o espírito do tempo sensibilizasse os jogadores profissionais?

Pois há duas semanas, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciou seu novo calendário. Devido à Copa do Mundo, que ocupará 45 dias da programação, o início da temporada foi antecipado para 12 de janeiro de 2014. Ou seja, a fim de não contrariar interesses comerciais ligados aos campeonatos estaduais, ao Brasileirão e às copas continentais interclubes, a entidade máxima do futebol brasileiro decidiu sacrificar o período de preparação dos desportistas.

Assim, a maioria dos clubes será obrigada a realizar uma pré-temporada de alguns poucos dias. Entre especialistas, não há dúvida de que o tempo de preparação não deve ser inferior a 30 dias, caso contrário, os atletas arriscam-se a sofrer contusões mais graves ao longo de toda a temporada.

O esporte mimetiza a vida. A última década de progresso econômico com relativa redistribuição de renda entre os que vivem dos rendimentos do trabalho foi acompanhada, segundo dados do Ministério da Previdência Social, pela duplicação do número de acidentes de trabalho. Mesmo relacionando essa verdadeira epidemia ao aumento da População Economicamente Ativa (PEA) e ao bom desempenho da economia, ainda assim a acentuada degradação das condições trabalhistas é patente.

Seria despropositado relacionar o despotismo empresarial, igualmente manifesto na permanente elevação da taxa de rotatividade do trabalho, à curva ascendente dos acidentes, adoecimentos e mortes de trabalhadores? Mutatis mutandis, um sistema despótico aparentado em que lucros comerciais e midiáticos ampliam-se à custa da saúde dos atletas não estaria se insinuando atrás do novo calendário?

Tudo como dantes no quartel de Abrantes, não fosse um detalhe: após anos de críticas veladas à maratona de jogos e ao tempo exíguo de preparação, finalmente, 75 jogadores profissionais, liderados por estrelas como Rogério Ceni, Paulo André, Alex, Alexandre Pato, Barcos, Dida, Juninho Pernambucano, Zé Roberto, Valdivia, D'Alessandro, Juan e Luís Fabiano, decidiram reivindicar coletivamente uma reunião com a CBF a fim de debater o número máximo de partidas do ano, o tempo mínimo de pré-temporada, o período de férias e o equilíbrio financeiro dos clubes.

De fato, o espectro de junho ronda os gramados. Mas há outras razões para essa mudança comportamental. Afinal, não é segredo que o aprofundamento da crise econômica europeia, somado ao desempenho positivo da economia brasileira e ao aumento dos investimentos decorrente da Copa do Mundo, criou um clima favorável à repatriação de craques que atuaram por várias temporadas no bem organizado futebol europeu.

Afora o fato de que muitos dos que assinaram a nota à imprensa divulgada no dia 24 de setembro vivem um momento da carreira mais suscetível às contusões, a verdade é que podemos estar diante de uma revolução cultural no futebol, com jogadores recusando-se a ser tratados como "pé de obra", isto é, como uma massa subalterna e silente, por cartolas alheios a suas condições de trabalho.

Há poucos meses, um recado equivalente não foi enviado aos políticos? Se em junho uma geração mais escolarizada de jovens trabalhadores precarizados criticou, além da péssima qualidade dos serviços públicos, as condições de vida nos grandes centros urbanos, chocando-se com um enrijecido sistema representativo, os desportistas profissionais avançam pela mesma vereda, revoltando-se contra um calendário alienante que os obriga a interpelar uma petrificada confederação esportiva.

Além disso, se em junho os manifestantes se organizaram horizontalmente, ignorando as estruturas sindicais tradicionais, o atual movimento dos jogadores também passou por cima da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf). Em síntese, os craques saíram do Twitter.

Da mesma maneira que, ao ser desafiado pelas ruas, o sistema político tradicional buscou absorver a insatisfação popular por meio de medidas paliativas, o presidente José Maria Marin não fez ouvidos moucos à nota dos desportistas, apressando-se em afirmar que está disposto a debater as reivindicações.

Obviamente, é difícil prever qual será o resultado desta mobilização. Afinal, segundo estudo realizado recentemente pela Fundação Getúlio Vargas, o futebol brasileiro movimenta cerca de 11 bilhões de reais por ano, podendo chegar a 62 bilhões de reais com a modernização dos estádios e da gestão esportiva. Trata-se evidentemente de um universo poderosíssimo de interesses comerciais e midiáticos gravitando em torno da bola.

No entanto, nos dias atuais, algo parece meridianamente claro: nas ruas e nos gramados, a era da passividade bovina ficou para trás.

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Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP e autor de A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista (Boitempo)