Movimentos e cidades em rede

22.10.2013

O Globo | Prosa
Adriana Barsotti

Obra reúne reflexões de pensadores brasileiros e estrangeiros sobre manifestações nas ruas do país

Em 2011, o filósofo Slavoj Žižek visitou a Liberty Plaza, em Nova York, onde estavam acampados os manifestantes do movimento Occupy Wall Street. Durante seu discurso aos manifestantes, contou uma piada que circulava na antiga República Democrática Alemã: um trabalhador alemão consegue emprego na Sibéria e, sabendo que suas cartas seriam violadas pelos censores, combina um código com os amigos. “Se vocês receberem uma carta minha com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos recebem a primeira carta, escrita em azul. “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais — a única coisa que não temos é tinta vermelha”.

A ausência da cor apontada por Žižek motivou a Boitempo a lançar a coleção Tinta Vermelha, cujo primeiro livro é Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. O título faz referência a Rebel cities: from the Right to the City to the Urban Revolution (sem tradução para o português), do geógrafo David Harvey, em que reflete como as cidades podem se reorganizar de forma mais justa e sustentável. Harvey e Žižek estão entre os 16 autores dos artigos da coletânea, classificada pela editora como um “livro de intervenção”, pois a obra tem a ambição de refletir sobre as Jornadas de Junho ainda no calor dos acontecimentos. A falta da tinta vermelha, para Žižek, é uma metáfora da nossa condição: nos sentimos livres, mas nos falta a linguagem para expressar a falta de liberdade.

Pois os artigos de Cidades rebeldes têm a ambição de interpretar as vozes daqueles que tentaram verbalizar nossas prisões cotidianas nas ruas do Brasil este ano. No texto de apresentação, a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik aponta o dedo para a máscara do que chama de “fundamentalismo de mercado”, que tentou reduzir os movimentos a protestos pela falta de emprego, renda e democracia representativa, ignorando os múltiplos conteúdos e agendas das ruas, inclusive o questionamento do “sistema” capitalista. “Aos aflitos com a falta de novos modelos, eu perguntaria como teriam se sentido após a Revolução de 1848, na França...”, provoca.

No artigo “Quando a cidade vai às ruas”, Carlos Vainer, professor do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da UFRJ e coordenador da Rede de Observatórios de Conflitos Urbanos, afirma não ver motivos para a perplexidade de políticos, governantes e mídia diante das Jornadas. Ao evocar Mao Tsé-Tung — para quem “uma fagulha pode incendiar uma pradaria” — ele compara as nossas cidades às pradarias, que estariam secas, prontas para incendiar. Para ele, a política neoliberal aprofundou nos últimos 40 anos a favelização, a informalidade, os serviços precários, a violência urbana e a segregação social. Não bastasse isso, diz, os megaeventos acentuaram o caráter de cidade de exceção do Rio.

David Harvey, em “A liberdade da cidade”, também identifica no neoliberalismo as raízes para as mazelas das cidades. Para ele, a governança substituiu o governo; os direitos e liberdades prevalecem sobre a democracia; a anarquia do mercado prepondera sobre a deliberação sustentada na solidariedade social. Harvey assinala que o direto à cidade deve ser perseguido, mas lembra que ele é, sobretudo, coletivo. “A maneira pela qual vemos nosso mundo e a maneira pela qual definimos suas possibilidades quase sempre estão associados ao lado da cerca onde nos encontramos”, lamenta.

Em “Problemas no paraíso”, Žižek estabelece um denominador comum entre a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street e as Jornadas. Para ele, as tentativas de particularizar tais movimentos, atrelando-os a contextos específicos, servem para encobrir sua maior motivação: a insatisfação contra o sistema capitalista. “O que unifica tantos protestos em sua multiplicidade é que são todos reações contra as múltiplas facetas da globalização capitalista”.

Embora o diagnóstico sombrio prevaleça e permeie os artigos da coletânea, há uma ponta de otimismo em diversos autores sobre a possibilidade de ação política aberta pelas Jornadas de Junho. Em “A rebelião, a cidade e a consciência”, o professor da Escola de Serviço Social da UFRJ Mauro Luis Iasi afirma que devemos apostar no que chama de rebelião do desejo. Nessa direção, Harvey também desconcerta: “Poderíamos nos dar ao luxo de não sermos utópicos?”

O mérito da coletânea foi ter dado voz a múltiplos pontos de vista, em consonância com o movimento das ruas. Um dos 16 artigos é assinado pelo Movimento Passe Livre e um ensaio fotográfico do Mídia Ninja ilustra as páginas do livro. Embora o fenômeno das redes sociais usadas para a convocação dos manifestantes atravesse os artigos de Lincoln Secco, Leonardo Sakamoto e Venício de Lima, este não foi o foco de suas abordagens. Ficou faltando um artigo que se detivesse sobre o movimento circular que levou os manifestantes das redes para as ruas e das ruas para a rede. As previsões de que a internet criaria um mundo virtual em oposição ao mundo real não se confirmaram. As ruas do Brasil foram mais uma prova disso.

Adriana Barsotti é jornalista, colunista do Globo a Mais e doutoranda em Comunicação Social pela PUC-Rio