Ruy Braga: Ressentimento leva jovens do “precariado” a enfrentar polícia nas ruas

29.10.2013

Viomundo
Luiz Carlos Azenha

O recente aumento dos acidentes e das mortes no trabalho, a resiliência do número absoluto de trabalhadores submetidos à informalidade, a concentração da massa dos empregos na base da pirâmide salarial ou a elevação da taxa global de rotatividade e de terceirização da força de trabalho dão ideia da desagregação social que a ortodoxia rentista afiançada pela “Carta ao Povo Brasileiro” assegurou ao país na década de 2000. Por seu lado, a teoria da formação da “nova classe” somada à tese da hegemonia às avessas ajudaram a esboçar uma resposta sociológica ao enigma da conversão do petismo ao rentismo globalizado: para pilotar o modelo de desenvolvimento pós?fordista no país sem romper com o ciclo da valorização financeira só mesmo pacificando as fontes do trabalho barato, daí uma modesta desconcentração de renda na base da pirâmide salarial a fim de garantir uma severa concentração de capital financeiro no cume do regime de acumulação. Tudo somado ao “transformismo” da direção histórica dos movimentos sociais no país”. 

Ruy Braga, em A política do precariado. “O que os artigos desse livro indispensável nos descrevem são pessoas transformadas em insetos na ordem capitalista da metrópole paulistana”.

Francisco de Oliveira, no prefácio de Saídas de emergência: ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo

 

Não foi um protesto contra o mensalão, nem para barrar a PEC 37. As assim chamadas “jornadas de junho”, os protestos que chacoalharam o Brasil, foram resultado em boa parte da inquietação social do “jovem proletariado urbano acantonado no setor de serviços”, jovens incorporados aos milhões ao mercado de trabalho nos últimos anos, mas de forma precária.

A opinião é de Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP. Ele é autor de A política do precariado (2012) e organizador de Hegemonia às avessas: economia, política e cultura na era da servidão financeira (2010), em parceria com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek. É um dos autores de Cidades Rebeldes, uma reflexão sobre as manifestações de rua que eclodiram no Brasil em junho passado e que será tema de um debate esta noite em São Paulo.

“O grande protagonista deste processo de mobilização social foram os jovens trabalhadores que ganham pouco, enfrentam condições de trabalho muito precárias, uma intensificação do ritmo de trabalho, precarização contratual, aumento de rotatividade, problemas relacionados à flexibilização da jornada de trabalho e a relação disso com o modo de vida na cidade”, diz Ruy. São, também, estes jovens mestiços da periferia, as maiores vítimas da violência e do abuso policial.

Ruy ouviu de entrevistados a descrição de longas jornadas de trabalho, seguidas de longas viagens de ônibus, seguidas do equivalente a ‘esculachos’ da PM na periferia.

Embora os governos Lula e Dilma tenham tomado algumas medidas de caráter progressista, o fato de que grande parte do Orçamento federal — 44% — ainda é destinado ao pagamento de juros da dívida interna impediu a adoção de políticas públicas que pudessem atender às demandas da fração jovem do “precariado”. Houve maior formalização do trabalho, sim, mas as condições reais se deterioraram.

Isso fica claro, na avaliação de Ruy, em duas estatísticas: entre 2009 e 2012 a taxa de rotatividade, ou seja, a média de tempo que os trabalhadores passam no mesmo emprego, caiu de 19 para 16 meses; entre 2003 e 2010 o número de acidentes no trabalho praticamente dobrou, já pesado o crescimento do número de empregos.

Para Ruy, os setores dinâmicos da economia brasileira — dentre os quais se destaca o financeiro — trocaram “ganhos de produtividade por intensificação no ritmo de trabalho e extensão da jornada pela flexibilização”.

O sociólogo identifica frações do “precariado” nos grupos que adotam as táticas black bloc. São jovens que não passaram por movimentos sociais organizados que, na avaliação dele, pegaram carona nas manifestações para expressar seu mal estar e o ressentimento contra o aparato policial que sufoca as periferias.

O sociólogo diz que a inquietação “está profundamente enraizada na estrutura social do Brasil de hoje” e se expressa de forma organizada num recorde registrado em 2012: o número de horas paradas, resultante de greves, só foi maior nos anos de crise do governo Collor, em 1989/1990.

A conclusão de Ruy, portanto, é de que a inquietação está aqui para ficar.

Clique abaixo para ouvir a entrevista completa, com 23 minutos de duração.

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SERVIÇO

Autores de Cidades rebeldes debatem as Jornadas de Junho ?e o direito à cidade no MASP
Raquel Rolnik, Ruy Braga, integrante do MPL-São Paulo e Guilherme Wisnik se reúnem no dia 31 de outubro, no auditório do MASP, às 19h, para um debate de lançamento do livro Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil.

Com textos de Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Ermínia Maricato, Leonardo Sakamoto, Carlos Vainer, entre outros, Cidades rebeldes é o primeiro livro impresso inspirado nos megaprotestos que ficaram conhecidos como as “Jornadas de Junho”. Os debatedores são autores do livro e a mediação é do crítico, arquiteto e urbanista Guilherme Wisnik, curador da 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo “Cidade: Modos de fazer, modos de usar”.

O evento integra a programação da 10ª Bienal e é gratuito, aberto ao público em geral. Sujeito à lotação. Senhas serão distribuídas a partir das 18h.

Realização: Boitempo Editorial, 10ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, Instituto de Arquitetos do Brasil e Museu de Arte de São Paulo.