A carta em tinta azul

03.11.2013

JCNET | Opinião 1
Zarcillo Barbosa

Toda batalha produz os seus heróis e até mesmo os derrotados têm lugar na história. Como Ricardo 3º, de Shakespeare, que ferido, a pé e perdido entre os combatentes trocava o seu reino por um cavalo. Cercado, espancado e ferido na guerra dos black blocs o coronel Reynaldo Simões Rossi, da PM paulista jamais pediu um cavalo para fugir do local, mas o diálogo com os manifestantes. A resposta foi dada com mais pauladas na cabeça e nas costas com uma chapa de aço. Ele teve a clavícula quebrada, cortes no rosto e só não foi linchado porque o acudiu um soldado, seu motorista, que sacou da arma. Surpreendente. A arma não foi disparada. E o coronel, ao ser socorrido, cambaleante, não abandonou o posto. “Segura a tropa. Não deixa a tropa perder a cabeça”. Havia motivos de sobra para mandar caçar os agressores feitos ratazanas prenhes. Os mascarados haviam danificado orelhões, caixas eletrônicos, terminais de ônibus e, pior, o próprio coronel. Entrevistado depois, suas lamentações se dirigiam não a ele, mas aos outros setenta e cinco policiais feridos nos conflitos.

“Ninguém escreve ao coronel”- é o título de um dos primeiros contos de Gabriel Garcia Marques. A história contada pelo velho Gabo se passa em outro contexto, mas dizia do coronel que esperava pela carta de aposentadoria, e ela nunca chegava. O coronelato é o último estágio da carreira do militar policial. Compreensível que o militar aguarde, ansioso, o momento de “vestir o pijama” e livrar-se de vez dos riscos da luta contra o crime. Outros lutam para continuar a servir e saem - entristecidos - quando chega a notificação da aposentadoria compulsória.

O ministro-chefe da Presidência da República, Gilberto Carvalho, acende o fósforo para ver se têm gasolina. Afirma que o governo estaria buscando interlocutores entre os black blocs. Carvalho ressaltou que é preciso “entender de onde vem esse processo”. O coronel Rossi também tentou. O anarquista não quer ser oprimido. Quer ser opressor. O argumento mais valorizado da política moderna são vitrinas quebradas. O ministro-chefe ainda não entendeu um processo que vem desde a Antiguidade. As mulheres gregas fizeram a greve do sexo e foram as ruas de Atenas porque não queriam gerar filhos para morrer na guerra. Olavo Bilac foi pivô de um quebra-quebra no Rio de Janeiro ao propor o serviço militar obrigatório. A revolta é sempre contra o sistema, dizia o filósofo Zizek, ainda em 2011, para ser mais atual. Quando o sistema não funciona “uma fagulha pode incendiar a pradaria”, pontuava Mao Tse-tung. Quando visitou os manifestantes do movimento Occupy Wall Street, Zizek contou a piada do trabalhador comunista que arrumou um emprego na Sibéria. Sabendo que suas cartas seriam violadas pelos censores, combina um código com os amigos: “Se vocês receberem uma carta minha com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos recebem a primeira carta, escrita em azul. “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais – a única coisa que não temos é tinta vermelha”. A falta de tinta vermelha, para Zizek, é uma metáfora da nossa condição: “nos sentimos livres, mas nos falta a linguagem para expressar a falta de liberdade”. Em Cidades Rebeldes as pessoas são “livres” para viver em favelas e sob a opressão das leis de mercado. A informalidade, os serviços precários, a violência urbana, a segregação social, a corrupção dos agentes públicos, a ineficiência da Justiça formam as raízes das mazelas da cidade. Os black blocs (grupos vestidos de negro) existem desde 1980 na Europa. Qualquer diálogo, para eles não passa de exercício romântico. É preciso desafiar o sistema. Quebrar os símbolos do capitalismo selvagem: lojas, caixas de bancos, revendas de carro, edifícios públicos. Começar tudo do zero já que as gerações passadas fracassaram. A propaganda se faz pela ação, sem hierarquia. Até com a cumplicidade da polícia, segundo se descobriu. Cada um interpreta de acordo com o lado do balcão em que se situa. Existe até a “rebelião dos desejos” que deu um filme de Hollywood – jovens que se especializaram em invadir mansões de celebridades para roubar roupas e objetos de grife, para uso próprio. Há um movimento circular que leva os manifestantes das redes para as ruas e das ruas para a rede. As previsões de que a internet iria criar um mundo virtual em oposição ao mundo real não se confirmaram. As ruas do Brasil foram mais uma prova disso. N.A. - Escrevo em tinta azul para o coronel.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e articulista do JC