"A verdade histórica é um limite que não se deve violar", diz escritor Leonardo Padura

08.12.2013

Folha de S.Paulo | Ilustríssima
Joca Reiners Terron

Leia entrevista completa com o cubano Leonardo Padura, autor romance O homem que amava os cachorros, que ficcionaliza as jornadas de Leon Trótski e seu assassino, Ramón Mercader.

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Diferentemente de um biógrafo estrito senso, o ficcionista pode declarar sua empatia pelos personagens. Parece ser a sua premissa no livro, ao menos em relação a Trótski e Mercader, retratados em toda a sua humanidade. Estaria aí a distinção entre um livro de não ficção e um romance histórico?

O romance é o reino da liberdade. O escritor é como Deus, e isso já se disse muitas vezes. Mas existem limites para esse poder. Ao menos eu penso assim.

A verdade histórica é um limite que não se deve violar, pois um livro também tem o poder da letra impressa, que tende a ter um sentido de credibilidade. Por isso eu sou muito respeitoso com minhas investigações históricas.

Daí que personagens como Trótski ou Mercader possam ser vistos com maior ou menor simpatia de acordo com minhas intenções literárias e convicções políticas ou ideológicas. Um livro de não ficção, como já se disse, não tem essa possibilidade, ou não deveria tê-la.

O respeito ao histórico deveria ser total (ainda que às vezes não ocorra assim, como bem sabemos), e as posturas ou intenções políticas, comerciais etc. do escritor podem influir em sua visão sobre a história real. Mas posso assegurar: tudo o que em minha novela se diz de personagens históricos, de processos reais, foi investigado historicamente.

Fui o mais respeitoso possível com o documental, sem renunciar à minha liberdade de romancista.

A figura de Trótski em contraste com a de Stálin, como traçada pelo senhor, é comovente. Haveria na história de Trótski o mesmo componente dualista que marca o surgimento de algumas religiões?

Sobre esse dualismo não posso dizer muito, mas sobre o personagem histórico sim e para começar te diria que Trótski pode parecer mais humano porque não teve a possibilidade de exercer o poder durante anos, como Stálin. Além disso, Trótski foi, em seu momento histórico, um derrotado, e isso lhe dá um caráter mais atrativo.

E, por último, Trótski fez seus malfeitos, como todos sabemos, mas não assassinou 20 milhões de pessoas, não montou os processos de Moscou, não assassinou suas companheiros da velha guarda... e Stálin sim.

O senhor pretende algum dia explorar os eventos ocorridos na Revolução Cubana?

Considero a Revolução Cubana como parte de um processo universal de prática do socialismo e dessa perspectiva a analiso.

Mas o faço do ponto de vista de um personagem comum, não um líder revolucionário nem um assassino ideológico, e portanto vejo esses acontecimentos de uma perspectiva mais pessoal, cotidiana... e por isso talvez resulte mais dramática, pois meu personagem é a vítima de uma história, de um processo, e não um protagonista. A Iván, o cubano, a história lhe cai em cima, ele não a maneja nem a cria.

Seria possível escrever O homem que amava os cachorros se a história de Mercader não fosse tão obscura?

Creio que não. O fato de Mercader ser um personagem histórico sem "história" é a chave do livro.

A questão é que Trótski é completamente histórico, pois teve biografados quase todos os dias de sua vida. Enquanto isso Mercader é um grande mistério de quem só sabemos, ao certo, que matou Trótski em 20 de agosto de 1940. O resto deixa grande margem para ficção, espaço que aproveitei ao máximo e me ajudou a construir o romance com um maior sentido dramático.

Na composição de um romance histórico de tamanha envergadura, como evitar o didatismo e ater-se aos aspectos que interessam ao leitor?

Para evitar o didatismo há uma fórmula - não pretender dar lições. E eu não pretendo fazer isso.

Creio que meu trabalho foi revisar uma verdade histórica, pô-la em seu contexto, metê-la debaixo da pele dos personagens e tratar os personagens como seres humanos, apesar de que alguns deles foram assassinos, líderes, messias.

O século 20 destruiu todas as utopias? Ou resgatar figuras históricas injustiçadas como Trotski pode trazer de volta a esperança?

Creio que sim, que as grandes utopias foram muito maltratadas pelo século 20, e que certas figuras, como Trotski, Rosa Luxemburgo, Mandela, podem ajudar a que todos voltemos a crer em certos projetos sociais.

Mas sempre teremos que partir do jogo limpo. Não da manipulação das crenças, dos abusos do poder, dos messianismos que terminam em totalitarismo.

JOCA REINERS TERRON, 45, é autor dos romances A tristeza extraordinária do Leopardo-das-Neves e Do fundo do poço se vê a lua (ambos pela Companhia das Letras), entre outros.