Em thriller, cubano revê o assassinato de Trótski

08.12.2013

Folha de S.Paulo | Ilustríssima
Joca Reiners Terron

RESUMO O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, ficcionaliza as jornadas de Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader. O escritor, seguindo tendência em voga nos romances investigativos de fundo histórico, mescla ensaio, memória e realidade ao contrapor o teórico da Revolução Russa a seu algoz.

*

Leonardo Padura deparou-se com um problemão ao decidir escrever O homem que amava os cachorros [trad. Helena Pitta, Boitempo, R$ 69, 592 págs.]: como relatar uma trama policial cujo desfecho -o assassinato de Trotski e suas circunstâncias históricas- era conhecido por todos?

A resposta não é simples, assim como o romance resultante não é apenas um policial, pelo menos não como a obra precedente do escritor cubano poderia sugerir.

Padura, narrador de longa quilometragem e criador do detetive Mario Conde, protagonista de oito livros, sabia que o melhor caminho seria a trilha menos batida.

Sem evitar aquilo que é público e evidente a respeito do assassinado notável, tomou como centro da trama a existência encoberta por brumas do assassino obscuro.

A ascensão e queda de Lev Davidovich Bronshtein, ou Leon Trotski (1879-1940), está retratada em todos os meios impressos possíveis: panfletos, artigos, reportagens, perfis, biografias e até folhetos de cordel.

Trotski foi um dos principais líderes e teóricos da Revolução Russa, organizador e comandante do Exército Vermelho. Após a morte de Vladimir Lênin em 1924, disputou com Josef Stálin (1879-1953) a liderança da União Soviética. O rival venceu, e Trotski acabou exilado em 1929, vítima de uma perseguição política que pretendia não somente apagá-lo da história soviética mas do mapa-múndi.

A missão foi posta em prática por Ramón Mercader (1914-78), ou Jacques Mornard Vandendreschs, agente espanhol comunista que se infiltrou na casa de Trotski na Cidade do México e cravou-lhe uma picareta na cabeça.

"O fato de Mercader ser um personagem histórico sem história é a chave do livro", escreve Padura, em entrevista por e-mail. "A questão é que Trotski é completamente histórico, pois teve biografados quase todos os dias de sua vida. Enquanto isso Mercader é um grande mistério de quem só sabemos, ao certo, que matou Trotski em 20 de agosto de 1940. O resto deixa grande margem para ficção, espaço que aproveitei ao máximo e me ajudou a construir o romance com um maior sentido dramático."

VÉRTICE

A dramaticidade a que Padura se refere é amplificada graças ao vértice da narrativa, justamente um personagem fictício chamado Iván Cárdenas Maturell, cubano pertencente à mesma geração do autor (nascido em 1955) e com algumas coincidências biográficas: leitor dedicado de romances policiais, escritor noviço e jornalista a contragosto.

Logo no início, em meio ao furdunço de suas mazelas cotidianas e a seu trabalho em uma publicação veterinária, Iván relata o encontro com um setentão misterioso na praia de Santa María del Mar, próxima de Havana, em 1977.

O jornalista estava entretido com um livro de Raymond Chandler (o romancista policial norte-americano, autor de um conto que empresta título a "O homem que amava os vachorros) quando a chegada do velho estrangeiro e de seus dois cães borzóis lhe rouba a atenção. Iván se interessa inicialmente pelos raros galgos russos perdidos naquele balneário de uma ilha caribenha politicamente isolada: como teriam chegado ali?

Por meio de Iván, um narrador em primeira pessoa que espelha a realidade vivida por Padura nos anos de completo isolamento da Cuba pós-revolucionária até o período atual, no qual tudo -utopias, esperanças e supostas verdades- está esfacelado, o problema de construção do romance encontra sua solução.

REGRA DE OURO

A mescla de testemunho pessoal, ensaio e crônica histórica é uma espécie de regra de ouro da nova onda de romances investigativos de fundo histórico em língua espanhola, explorada com êxito, por exemplo, pelo escritor espanhol Javier Cercas em Soldados de Salamina [trad. Wagner Carelli, R$ 34,90, 274 págs.] e em Anatomia de um instante [trad. Ari Roitman e Maria Alzira Brum, R$ 49,90, 436 págs.], ambos publicados pela Biblioteca Azul.

Os livros levam os leitores a considerar se a história, no fim das contas, não passaria de uma gigantesca psicose de massa à qual sobrevivemos (bem, nem sempre), invariavelmente chamuscados por pequenos traumas íntimos.

Ao contrapor a existência fartamente documentada de Trotski àquela provável de Mercader – veterano da Guerra Civil Espanhola cooptado em 1937 pela NKVD, a polícia política da URSS, passando a partir daí a assumir novas identidades e a tomar parte em operações secretas –, Padura dispõe lado a lado esses homens, evidenciando como suas trincheiras eram opostas, porém tão próximas.

Diferentemente de um biógrafo estrito senso, o ficcionista pode declarar sua empatia pelos personagens. Essa é, sem dúvida, a premissa de O homem que amava os cachorros, ao menos em relação a Trótski e Mercader, retratados em toda a sua humanidade.

Estaria aí a distinção entre um livro de não ficção e um romance histórico? "O romance é o reino da liberdade. O escritor é como Deus, e isto já foi dito muitas vezes", diz Padura, mais uma vez.

"Mas existem limites para esse poder. A verdade histórica é um limite que não se deve violar, pois um livro também tem o poder da letra impressa, que tende a ter um sentido de credibilidade. Daí que personagens como Trotski ou Mercader possam ser vistos com maior ou menor simpatia de acordo com minhas intenções literárias e convicções políticas ou ideológicas. Fui o mais respeitoso possível com o documental, sem renunciar à minha liberdade de romancista."

Na "bibliografia e crítica da bibliografia" ao final de outro livro dedicado a Trotski recém-publicado no Brasil, A paixão segundo a revolução, incluído no volume Vida [Companhia das Letras, R$ 46, 392 págs], o poeta paranaense Paulo Leminski registra que "não parece ser possível escrever uma história da Revolução Russa isenta de 'partis pris', partidarismos ou outras interferências ideológicas".

A afirmação, em tom de evidente justificativa por cometer tão apaixonada defesa de seu personagem, também ressalta que suas principais fontes eram comprometidas desde a origem, como as referenciais biografias de Stálin e Trostki realizadas pelo "trotskista" Isaac Deutscher, igualmente consultadas por Padura.

"Um livro de não ficção não tem a possibilidade de ser simpático ao personagem, ou não deveria tê-la", ressalta o escritor cubano, "O respeito ao histórico deveria ser total, apesar de de às vezes não ser assim, como sabemos."

Ao contrário do narrador, Iván Cárdenas Maturell, o leitor não demora a intuir a identidade do velho dono dos cães borzóis da praia de Santa María del Mar. Após permanecer preso por 20 anos e passar breve temporada em Moscou, Mercader transferiu-se para Cuba, onde viria a morrer.

Essa fatal coincidência enfia Cuba e o fracasso minucioso de Iván no epílogo da história de enganos que foi o século 20.

Antes, porém, o leitor é obrigado a testemunhar o excruciante apertar do garrote em volta do pescoço de Trotski em seu périplo de fugitivo da URSS, que incluiu assassinatos e suicídios de asseclas e familiares, passando por Turquia, Noruega, França e México, palco onde, afinal, cai o pano.

Como aqueles atores canastrões que são anunciados ao longo de uma peça inteira sem dar as caras, Ióssif Viassariónovitch Djugashvíli, vulgo Josef Stálin, só aparece ao final -e mesmo assim na forma da picareta que atinge sem piedade a cabeça do velho ideólogo.

Não por coincidência, a última frase escrita por Trotski, do prefácio inacabado de sua biografia de Stálin, foi interrompida em "A ideia tinha...".

JOCA REINERS TERRON, 45, é autor dos romances A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves" e Do Fundo do Poço se Vê a Lua (ambos pela Companhia das Letras), entre outros.