Leonardo Padura Fuentes e a melhor literatura negra escrita em espanhol

10.12.2013

O Estado de S. Paulo | Sabático
Eric Nepomuceno

Em nova obra, cubano combina perfeitamente o rigor histórico com o talento ficcional

Leonardo Padura – esse, que conhecemos hoje – é um escritor tardio. É bem verdade que seu primeiro livro, Fiebre de Caballos, foi escrito quando ele tinha 28 anos, em 1983. Levou mais cinco até ser publicado. Mas a distância entre aquela história de amor e a aparição do detetive Mario Conde, em 1991, é muito maior que a do tempo. Com seus livros policiais, Padura criou não apenas um personagem, mas possivelmente a melhor literatura negra escrita em espanhol desde o catalão Manuel Vázquez Montalbán.

Este O homem que amava os cachorros (Boitempo) é, sob muitos aspectos, a síntese mais redonda, mais perfeita, da escrita de Leonardo Padura. Conde, agora, não aparece. Mas este livro reúne o antes e anuncia o depois em sua obra. É o livro de uma alma inquieta e angustiada, e também de um escritor em pleno e absoluto domínio de seu ofício. Há uma minuciosa e extremamente rigorosa pesquisa histórica, e há o pleno voo da imaginação. É um livro para ser relido.

A reconstrução do contexto em que se passa boa parte da trama – as condições histórias, sociais e política dos anos 30 e 40 – mostra que, sob muitos aspectos, o tempo passa, mas as distorções se repetem. A saga errante de Trotski no seu exílio peregrino e o ódio feroz que Stalin dedica a ele é o reflexo de uma realidade que permanece mundo afora, talvez não com o envolvimento de dois personagens tão absolutamente marcantes da história contemporânea, mas com o ser humano de maneira geral.

O narrador, Ivan, transporta o enredo para a Cuba dos nossos dias, a de depois do desmoronamento do bloco soviético. E deixa o registro de muitos dos desvios do processo revolucionário, uma atmosfera rarefeita, a manipulação de sonhos e esperanças. No fundo, o que é posto contra o muro é a própria utopia do nosso tempo.

O caminho percorrido por Trotski, acompanhado de sua mulher Natalia e de um de seus filhos, Liova, teve várias escalas antes de se instalar definitivamente no casarão de Coyoacán, na cidade do México, onde seria assassinado pelo espanhol Ramón Mercader. Desde a ilha turca de Prínkipo, passa por Saint-Palais, no interior da França, depois por Barbizon, um povoado a duas horas de Paris, uma breve temporada na Noruega e finalmente a casa azul habitada por Diego Rivera e Frida Kahlo, num tempo em que Coyoacán era um subúrbio da capital mexicana, um lugar distante e aprazível.

O caminho percorrido pelo narrador, Ivan, não deixa de ser um exílio – só que interior, na própria Cuba, onde vê naufragar cada um de seus sonhos. Com uma calma prenhe de desesperança, Ivan mostra como as impossibilidades vão tragando, pouco a pouco, tudo que antes parecia ser possibilidades. Mas, ainda assim, crê na existência de uma saída, de alguma saída.

O terceiro personagem-chave é Ramón Mercader, o assassino. Ao tecer os relatos dessas três vidas – Trotski, Mercader e Ivan, o homem que amava os cachorros –, Padura demonstra um formidável manejo do tempo narrativo e suas eficazes ferramentas para a construção dos personagens.

São três pontos de vista que se alternam ao longo do livro, que desta maneira oferece uma visão panorâmica, um olhar amplo e atento que não deixa escapar nada.

Em O homem que amava os cachorros, Mercader aparece como algoz e vítima. Algoz de Trotski, vítima daquilo que Padura considera o fanatismo extremista nascido da ideologia comunista, em especial no seu período stalinista.

Para ele, Stalin foi, acima de tudo, um traidor perverso. Traiu o sonho coletivo de construir uma sociedade melhor e mais justa, uma revolução nascida para oferecer as possibilidades máximas da realização humana, e que terminou por desmoronar de maneira inglória em 1989, quando já não passava de uma caricatura burlesca do que poderia ter sido.

Ivan, o narrador, é igualmente vítima de uma atmosfera sufocante, de uma utopia frustrada. Mas para ele resta, ao menos, a esperança de que alguma vez a utopia inalcançada seja reconstruída.

Este é um livro incômodo, inquietante – e imperdível.

ERIC NEPOMUCENO É ESCRITOR E TRADUTOR – ENTRE OUTROS AUTORES, DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ