Cidades rebeldes

15.11.2013

Le monde diplomatique Brasil
Jorge Barcellos
O livro sobre as ondas de protesto de junho que varreram as principais capitais do Brasil é leitura obrigatória para todos aqueles que buscam as razões da inquietude da juventude brasileira.
 
Duas características de imediato saltam aos olhos na leitura da obra. A primeira é seu caráter interdisciplinar. Com catorze artigos, ela reúne perspectivas notáveis de historiadores como Mike Davis e Lincoln Secco, urbanistas como Ermínia Maricato e Raquel Rolnik e cientistas sociais como Ruy Braga, entre outros autores. A segunda característica é a combinação entre abordagens acadêmicas e perspectivas "de dentro". Autores de peso como Slavoj Zizek e David Harvey oferecem um ponto de vista contemporâneo internacional e dividem espaço com textos produzidos pelos próprios atores do movimento, como o Movimento Passe Livre.
 
Por essa razão, as abordagens são bastante distintas. Tratam de megatendências os textos de Harvey, Davis e Zizek, que descrevem a lógica dos movimentos internacionais na organização da cidade, no transporte urbano e nas características dos protestos de diversos países. O texto de Harvey é o mais didático, o de Davis o mais irônico e o de Zizek, que fecha a coletânea, o único a desnudar o essencial: "o fato de que nenhum deles pode ser reduzido a uma única questão".
 
Os textos dos autores nacionais buscam vincular os movimentos de junho no Brasil às tendências globais, como o de Ermínia e o de Secco, que os
analisam detidamente. São artigos que têm o mérito de apresentar o caráter híbrido das pautas e mobilizações - "as lutas pelo transporte no Brasil foram um todo muito maior que o MPt.:', como diz o coletivo.
 
Espera-se, no entanto, uma continuação. Novas perguntas emergiram nos movimentos de julho, como o significado da participação dos Black Blocs, a articulação com os movimentos sociais tradicionais e partidos políticos e o papel do Fora do Eixo. As cidades continuam rebeldes. Urge investigar.