As feridas abertas

13.12.2013

Carta Capital
Renato Pompeu
Enfim, um romance de um cubano que nunca abandonou seu país e que discute francamente os malogros do socialismo em sua nação. O autor, Leonardo Padura, nascido em 1955, tornou-se jornalista, roteirista e professor de Literatura e ficou famoso internacionalmente como escritor de romances policiais, tendo até recebido o Prêmio Hammett Internacional.
 
Como seus livros descreviam mazelas da sociedade cubana, era mais editado no exterior do que em seu país. Em 2005, publicou na Espanha sua obra-prima, O Homem Que Amava os Cachorros, cujo centro é a estada em Cuba do assassino espanhol de Trotski, Ramón Mercader, depois de ter cumprido pena pelo homicídio no México.
 
O livro só foi publicado em Cuba em 2009, depois da saída de Fidel Castro do poder. Quando a história começa, na passagem do século XX para o XXI, Iván, um escritor cubano não muito bem-sucedido, lembra-se de ter encontrado na praia, três décadas atrás, um homem misterioso que passeava com dois galgos russos. A história se passa em três planos: a vida de Iván na Cuba atual, a juventude de Mercader na Espanha e na França nos anos 1930 e o exílio de Trotski. Tudo parte de relatos do homem da praia, que disse ter sido amigo de Mercader. 
 
O romance, uma condenação candente de Stalin, líder soviético apontado como traidor dos ideais socialistas, também se manifesta contrário ao totalitarismo em outros países socialistas, como a própria Cuba, em que a população rege seus atos cotidianos pelo medo de retaliações das autoridades, com espiões por toda parte.
 
A obra de Padura é aceita por grande espectro ideológico de admiradores. Embora o autor tenha recebido o Prêmio Literário Nacional de Cuba em 2012, é sistematicamente elogiado por personalidades como a blogueira anticastrista Yoani Sánchez.
 
De todo modo, o livro mantém acesas as esperanças numa sociedade mais justa do que as existentes hoje em qualquer país do mundo. Em artigo recente, Padura se queixa da falta de transparência em Cuba: "É um país onde as mudanças têm sido tomadas para restaurar a 'normalidade' alterada pela deformação da singularidade, em um processo lento, mas necessário, cujos objetivos e formas (mais um caso de singularidade) são pouco conhecidos por seus habitantes. Nós, que vivemos nesse país".