Padura: uma obra de grande interesse social e político e enorme qualidade literária

18.12.2013

Caros Amigos | Cultura
Boris Vargaftig

 

"De seu interior, na intimidade deste monstro frio que foi a burocracia soviética, percebe-se a destruição das esperanças nascidas da revolução operária e comunista dos bolcheviques"

Leonardo Padura é um escritor e jornalista cubano, autor de livros policiais cuja trama se passa na Cuba pós-revolucionária, logo após a restauração do capitalismo na União Soviética, com a supressão de sua ajuda.

O policial Mario Conde, herói principal destes primeiros livros, enfrenta situações complexas, que permitem a Padura ilustrar dramas da sociedade cubana, sem complacência mas sem cair no anticomunismo primário. Mario Conde tornou-se um cético, entristecido pela degeneração política e social a que assiste. Vale destacar que esteve na África em luta contra os mercenários do apartheid e que depositava suas esperanças no socialismo. Decepcionado, não chega entretanto a mostrar que se trata de uma evolução negativa resultante da tomada do poder por uma camada parasitária privilegiada e aliada de sua congênere soviética, a burocracia, contra a qual se erguera Trotski.
  
Padura escreveu anteriormente um livro admirável, "La novela de mi vida" (2001), sobre o poeta cubano da primeira metade do século XIX, José Maria Heredia. Este, homólogo de outro poeta, que escreveu na França um pouco mais tarde e que, segundo Padura, seria primo do primeiro. Neste livro, Padura demonstra maestria em articular situações complexas e em integrá-las na história viva, a conspiração pela independência de seu país. Tratando-se de fatos ocorridos no século XIX, não há porque tratar da evolução de Cuba na segunda metade do seculo XX. Embora impactante, de grandes qualidades literárias e psicológicas, este livro não se compara a seu último, "El hombre que amaba a los perros" (2009), agora disponível no Brasil sob o titulo O homem que amava os cachorros (Editora Boitempo, São Paulo).

Literatura

Trata-se de um grande livro, à altura de "Vida e Destino", a obra prima de Vassili Grossman. Através dos destinos cruzados do revolucionário Leon Trotski, de seu assassino Ramon Mercader e do escritor fictício cubano Ivan, gêmeo literário do melancólico policial Mario Conde, assistimos ao refluxo progressivo da vaga revolucionária dos anos 1917. De seu interior, na intimidade deste monstro frio que foi a burocracia soviética, percebe-se a destruição das esperanças nascidas da revolução operária e comunista dos bolcheviques. Como disse Trotski, esta destruição moral e política foi a consequência mais grave da vitória do stalinismo. E, como Trotski o havia previsto, a persistência no poder da burocracia, em aliança/oposição com as forças reacionárias internas e com países capitalistas, levaria à reinstalação do capitalismo. Sombria ironia, os grandes processos a partir de 1934 e sobretudo 1937-1939, ao condenarem a direção da Revolução de Outubro acusada de conspirar para restaurar o capitalismo, foram promovidos por aqueles que, anos depois, restauraram-no de verdade.
  
No regime burocrático, à perspectiva do desabrochar de cada ser humano, sucede um universo onde o homem não é senão o instrumento de uma politica criminosa onde está condenado  a priori, como no "Castelo" de Kafka. O leitor fica estarrecido pela manipulação de milhões de homens ao serviço de interesses de um poder mesquinho, traiçoeiro e aviltante.
  
O nazismo destruiu as forças vivas do movimento operário e da revolução. O stalinismo fez o mesmo, mas tentou sobretudo, num plano internacional, suprimir a própria esperança na possibilidade de se lutar por outra sociedade. Isto é mostrado de forma excepcional, tanto pelos fatos relatados e pesquisados de mão de mestre, quanto pela construção literária.

Stalinismo

Extraordinárias são as páginas em que Padura mostra o treino de Mercader pela NKVD. Mercader era filho de uma aristocrata espanhola, agente da NKVD e que havia participado do assassinato de centenas de revolucionários na Espanha –  trotskistas, anarquistas, membros das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista. Dificil situar-se na atmosfera daqueles anos, notadamente quando os fascistas ganharam a guerra civil e Stalin efetuou uma virada inesperada, assinando e aplicando um pacto com o regime hitleriano. Este pacto teve consequencias dramáticas, como a entrega de centenas de refugiados anti-nazistas à Gestapo pelos soviéticos, a sabotagem da luta anti-nazista e a liquidação das forças anti-stalinistas, com a condenação de dezenas de milhares de oficiais, como o Marechal Tukatchevski, para alegria das nazistas que logo atacariam a URSS. Neste contexto em que se acumulavam provas da traição do regime stalinista, o movimento trotskista e particularmente Trotski representavam para Stalin um enorme perigo, bem superior a suas forças reais. Era preciso liquidá-lo.

Eis o contexto histórico do livro, cuja veracidade é atestada por Sudoplatov, diretor para Tarefas Especiais do NKVD. Sudoplatov foi preso em 1953 após a morte de Stalin mas sobreviveu, contrariamente a outros responsáveis diretos pela repressão, Iagoda e Jevov, que compartilharam do banco de réus com suas vitimas, foram em seguida fuzilados e Sudoplatov foi solto em 1968. Ele deixou um livro espantoso em que relata suas atividades de agente do stalinismo (Special Tasks, Pavel e Anatoli Sudoplatov, Little Browen and Company, Canada, 1995).

A primeira tentativa desastrosa de assassinato de Trotski no México por um grupo chefiado pelo pintor Siqueiros foi planejada à distância por Sudoplatov e é relatada por Padura. Mercader, em circunstancias que relata Padura, assassinou o velho dirigente. Condenado a 20 anos de prisão, foi liberado em 1960 e acolhido como herói na União Soviética de então. Anos depois, veio a morrer em Cuba, acolhido por Fidel.

As vezes o livro está no "meio de campo", "border line": apresentar Ramon Mercader como uma vitima deste sistema stalinista que acaba por devorar seus próprios filhos, traz o risco de sentir-se compaixão pelo assassino. Padura abunda neste sentido, quando proclama que Trotski não era um anjo e tinha sangue nas mãos, pois reprimiu a revolta de Kronstadt, publicou o decreto sobre os réfens etc., mas não vai mais longe, pois mostra bem, sem transigir, que os carrascos são os carrascos e as vitimas, vitimas.

História

"Fica claro que se Padura libertou-se do pseudo-marxismo instilado pelo regime cubano, ele não se emancipou do ar dos tempos, uma atmosfera que se ressente da pseudo-democracia burguesa"

Não se exige que um escritor redija teses ou programas políticos. O grande mérito de Padura é de fazer reviver Léon Trotski em seu meio, Ramon Mercador no abominavel ambiente burocrático e Ivan no regime cubano atual. Porem escrever uma ficção politica, mais do que um romance histórico, não é um empreendimento neutro. Supõe-se que Padura tem presupostos políticos, o que aparentemente é o caso. Isto, de alguma forma, pode limitar seu excelente texto.

Fica claro que se Padura libertou-se do pseudo-marxismo instilado pelo regime cubano, ele não se emancipou do ar dos tempos, uma atmosfera que se ressente da pseudo-democracia burguesa.  Assim, fica subentendida a ideia que a violencia da burocracia stalinista já estava presente nos bolcheviques, e que Trotski, durante seu exilio em Prinkipo se arrependera de seu papel "vergonhoso" no esmagamento da insurreição dos marinheiros de Kronstadt e que ele sabia que se em março de 1921 os bolcheviques tivessem autorizado eleições livres, teriam provavelmente perdido o poder "no momento em que as massas cessaram de crer (no bolchevismo) era preciso crer nele à força" (pg 75,76). Na realidade, para Padura, a Democracia com um D maiusculo constitue o valor supremo. Isto aliás aparece num artigo recente na coluna Tendências/Debates da Folha de São Paulo. O que ele chama democracia, são as supostas liberdades democraticas. Estas são obviamente essenciais, mas mascaram a realidade do Estado burguês. Os bolcheviques eram partidarios da democracia, mas não da democracia em geral e sim da democracia operária exercida pelos soviets. Lutavam por um regime capaz de ser o ferro de lança da abolição da propriedade privada dos meios de produção e da supressão das classes num plano mundial.

O atrazo da revolução levou ao retrocesso social-democrata (frente popular na França e na Espanha por exemplo), e em seguida à subida do fascismo com o apoio da URSS (vide recusa da frente unica com os social-democratas na Alemanha às vésperas da tomada de poder pelos nazistas, que Trotski propugnava sem parar) ou então o pacto Stalin-Ribbentrop ou a sabotagem da revolução na Espanha, na França e na Itália pos 2a guerra mundial).

Democracia

Na Alemanha em 1933 e na Espanha e França em 1936 o problema não mais consistia na luta pela democracia no Partido contra a ditadura de Stalin, como em 1927. Nos anos 30, o movimento comunista devia proceder a uma escolha decisiva  : ou os trabalhadores soviéticos, esgotados por anos de guerra civil caiam no stalinismo, um socialismo nacional representando uma variante nacional do reformismo ou então, contra ventos e marés, mantinha-se a direção da revolução mundial  para derrotar o imperialismo nas suas cidadelas, o que tentava fazer Trotski. Não se tratava portanto de uma simples luta fratricida pelo poder, como sugere Padura e a perspectiva que Trotski assumisse um papel muito superior às suas forças materiais era um perigo que Stalin não ignorava.

Se Trotski o tivesse desejado, em 1921 num piscar de olhos dirigiria um golpe militar e o Exército Vermelho teria seguido unanimamente o chefe que adorava. Era justamente o que não queria Trotski, que desejava ardentemente abater o capitalismo num plano   mundial, o que não poderia resultar de um golpe, mas da extensão da tomada do poder pelos trabalhadores. Foi esta possibilidade de escolha que, às ordens de Stalin, Mercader destruiu.

Não se tratava assim unicamente de um crime de sangue, mas do assassinato do unico detentor neste planeta, naquele momento, de uma perspectiva, de uma politica bem experimentada e eficaz (permitiu a tomada do poder num país de 180 milhões de habitantes !). 
  
O homem que amava os cachorros é um romance, um livro sobre a política mas não um livro de política. Um livro  assim pode despertar as consciências como ocorreu com  A cabana do pai Thomas  de Harriet Beecher Stowe, escrito em 1852, sobre a escravidão ou  Os vizinhos, de Jan Tomasz Gross (2001) que ousou enfrentar os nacionalistas poloneses, tratando do massacre de Jedwabne, que liquida a pretendida inocência dos poloneses no extermínio dos judeus durante a guerra.Mas não estava ao alcance dos dois autores mudar as coisas no terreno.

Padura escolheu nossa época, um momento chave da história, quando a herança apodrecida do marxismo e do leninismo se esfacela sob os últimos  golpes da burguesia. Se não diz como alguns, "é o fim da história", mas "vou contar uma história sangrenta", o faz com grande talento, após pesquisa exaustiva, que suscita admiração. Entretanto, ao chegar aí, bifurca da política à moral, o que e seu direito mais estrito. Como escrevia Breton a Trotski "tudo é factível em arte".

"O mundo cruel e cínico desvendado por Padura existe realmente, mas cabe a pergunta: será que está simplesmente destinado a cair sobre nossas cabeças como naquele do triste "observador" Ivan, ou haverá um caminho para derrubar este edificio social e político calamitoso ?"

Manipulação

Ramon Mercader foi manipulado pelo KGB em benefício de Stalin, o chefe da burocracia soviética (ver texto anexo para explicar porque Stalin derrotou Trotski). Mas mesmo sob o angulo das responsabilidades é preciso ira além. Quem engendrou Stalin e a burocracia ? Entre as duas guerras mundiais, N. York, Londres, Paris e Berlin, mas não Moscou, conduziam as rédeas do mundo. As aparências são enganosas, Stalin dominava "somente" o sexto do mundo e havia limado as garras da revolução, dentro da União Soviética e no plano internacional. Tornou assim possível, sobretudo ao sabotar até o fim a frente única com os social-democratas, a erupção bárbara do nazismo ofensivo. Assim, se é necessário denunciar responsabilidades, é preciso ir mais longe que Padura, por em causa a democracia parlamentar capitalista, em nome da qual critica o stalinismo. Não avança ele neste sentido, bem ao contrario, se pretende que o stalinismo é filho do marxismo, como o seria o trotskismo. Aqui, é preciso distinguir bem, para entender a historia, a vítima do algoz. Sua análise, muito pessimista, não abre perspectivas para o futuro mas suscita uma certa compaixão, uma denúncia da perda das ilusões e do que chama “fé no marxismo” assimilado a uma religião.

Assim, apesar da excelência do livro na denúncia do stalinismo, este ponto de vista é infelizmente muito “politicamente correto”. Reduzir o marxismo a uma utopia é como reduzir a teoria da relatividade ou dos quanta a um simples credo.

O mundo cruel e cínico desvendado por Padura existe realmente, mas cabe a pergunta: será que está simplesmente destinado a cair sobre nossas cabeças como naquele do triste "observador" Ivan, ou haverá um caminho para derrubar este edificio social e político calamitoso ?

Bem verdade que a resposta está mais nas mãos dos revolucionários do que dos escritores e seria muito injusto pedi-la ao autor deste grande livro acusador.