O assassinato do sonho e da utopia: uma resenha de “O homem que amava os cachorros”

06.01.2014

Blog da convergência
Henrique Carneiro

Publicado recentemente no Brasil pela Boitempo editora, o romance “O homem que amava os cachorros”, do escritor cubano Leonardo Padura, é uma narrativa ficcional em torno a fatos reais que marcaram a história do século XX e até hoje delineiam a política mundial.

Dessa forma, embora haja três grandes personagens: Leon Trotsky, seu assassino Ramón Mercader (foto) e o cubano escritor e veterinário improvisado Ivan (que se especializa em cirurgia de extração de cordas vocais de porcos para sua criação ilegal em edifícios), em torno dos quais se entrelaçam as narrativas, a história que se narra é a história de todos nós, da humanidade e seus conflitos políticos recentes mais decisivos: a revolução russa, a guerra civil espanhola, a segunda guerra mundial, a guerra fria.

A trama central do livro, seguindo a trilha do gênero do romance policial que consagrou o autor, é a preparação e execução de um assassinato: o de Leon Trotsky. Mas não se trata simplesmente da morte de uma pessoa por meio covarde de um infiltrado que soube manipular e trair a confiança de amigos e o amor de uma mulher. O que se relata, acima de tudo, é a perversão da maior utopia da história ou, nas palavras do autor suposto da história, como “um filho da puta ajudou Stalin a dar cabo de 20 milhões de pessoas em nome do comunismo” (p.578).

O crime que se disseca neste romance é “o maior massacre cometido na história em tempos de paz” (p. 376), de um partido contra seus próprios dirigentes e militantes, o extermínio da imensa maioria dos membros da direção do partido bolchevique que fizeram a revolução de outubro por meio de processos judiciais farsescos e grotescos cuja única comparação se poderia encontrar na Inquisição, com os réus sendo obrigados a confessar os crimes mais hediondos e implausíveis, com suas famílias sendo torturadas e executadas. “A guerra de morte já não era contra a oposição, mas contra a história (…) Stalin teria de matar todos que conheceram Lenin” (p. 313).

Este processo transformou a sociedade que tinha realizado a maior obra de rebelião, de emancipação e de solidariedade, num estado construído sobre o medo. O pior crime do stalinismo foi a instauração de um sistema tão assombroso de medo inquisitorial, de banalização do mal, que pode ser chamado de um modelo totalitário, e, nesse aspecto, se tornou o modelo por excelência do totalitarismo contemporâneo, ao lado do próprio nazismo, com o qual se aliou num pacto vergonhoso que permitiu e colaborou com o início da agressão nazista. O próprio Trotsky usou o termo totalitarismo tanto para o stalinismo como nazismo: “Un régimen totalitário, sea del tipo stalinista o fascista, por su misma esencia solo puede ser um régimen transitório, temporal.” (En defensa del marxismo, Barcelona, Fontamara, 1977, p. 35).

Se Luís XVI afirmou “L´État c´est moi”, “estava enunciando uma fórmula quase liberal em comparação com as realidades do regime de Stalin (…) o secretário-geral podia dizer, com toda justiça, “La societé c´est moi” (p. 403). A sociedade soviética foi transformada num sistema de “terror vertical e horizontal” onde o “medo extensivo e onipresente” exacerbou os “instintos mais baixos” até o ponto de deixar de sentir na mente “a brutalidade semântica do verbo fuzilar” (p.366).

O fuzilamento se tornou banal, a tortura um método, a adulação do chefe uma devoção sagrada, a abdicação de si e de todos os valores em prol exclusivamente da obediência cega se alçou a um nível nunca visto, o espírito crítico do marxismo destruído pelo servilismo incondicional do dogma e da verdade revelada por um profeta vivo e reinante, que impunha sua autoridade sem qualquer traço de qualidades intelectuais ou mesmo de uma biografia exemplar. Um ex-seminarista georgiano anônimo, medíocre e brutal com olhar e moralidade reptiliana se especializou na arte da intriga e da purga sangrenta, matando os camaradas e depois matando os assassinos dos camaradas e depois os assassinos dos assassinos, levando uma geração inteira de “crédulos” do comunismo pelo mundo a perderem suas ilusões e junto todas as suas esperanças.

Só isso permite entender a Rússia de hoje em dia, com um governo bonapartista com traços semi-fascistas numa sociedade racista, xenófoba, homofóbica e dominada pela última geração do stalinismo, da escola da polícia política, que se reconverteu ao capitalismo mais mafioso e ao domínio religioso mais fundamentalista do clero ortodoxo, sem grandes resistências dentro da sociedade. O país da maior revolução do século XX dentro de três anos vai cumprir o seu centenário e o que se vê hoje é um modelo do atraso, da catástrofe e da reação.

A grandeza do romance de Padura, além da pertinência do tema e de suas qualidades literárias, reside na coragem de abordá-lo a partir de um país em que sobrevivem alguns dos últimos resquícios do modelo stalinista e que foi peça chave no encadeamento dos fatos descritos no livro: Cuba.

Porque o assassino de Trotsky veio a se aposentar em condições de luxo em Cuba?

Esta é a única questão não respondida e esta elisão do desfecho do drama revela muito sobre a cultura do medo que se construiu na União Soviética e depois se importou numa versão atenuada, mas não menos eficiente, para a ilha do Caribe.

Quando se poderá escrever sobre os diálogos entre Fidel Castro e os soviéticos que permitiram que Ramón Mercader se abrigasse em Havana?

O alter-ego de Padura não é tanto o narrador oculto que só se revela ao final chamado de Daniel Fonseca Ledesma, mas o personagem de Ivan, que conhece Mercader na praia e reluta sempre, por medo, em escrever a história de terror que passara a conhecer. Sua morte, pelo desabamento de uma casa representa “a ruína de uma cidade inteira”, a Havana que permanece sempre o pano de fundo real de uma história mundial, relatada a partir de uma ilha que ainda não enterrou o seu Stálin, mesmo que numa versão atenuada, kruscheviana e brejneviana e, hoje em dia, numa transição privatista indefinida, mas governada pelo mesmo princípio autocrático do partido único e do fuzilamento exemplar dos dissidentes (numa escala incomparavelmente menor que na URSS, mas com os processos de 1989 contra Arnaldo Ochoa, os irmãos La Guardia e outros, emulando sua matriz moscovita[1]). Quando algum escritor cubano poderá tratar disso em Cuba?

Os cães resumem e balizam esta história de medo e compaixão. “Cães raivosos” era o epíteto mais usado pelo promotor Vichinsky, o ex-menchevique que vai como promotor acusar os maiores líderes da revolução dos crimes mais absurdos clamando por sua execução. Da mesma forma impiedosa e negadora do seu próprio nome, Caridad, vai agir a mãe de Ramon Mercader, ao anunciar-lhe a missão secreta que devia levá-lo a abdicar de tudo, e para sinalizar essa renúncia, abate com um tiro o cão mascote dos lutadores na trincheira republicana na Espanha. Depois são os cães que exemplificam os melhores sentimentos humanos de compaixão e fidelidade, com Trotsky exigindo ficar com sua cadela Maya quando expulso da URSS, ou o próprio assassino Mercader compadecido de seu cão borzói doente e incapaz de sacrificá-lo por suas próprias mãos.

O que é uma morte de cão? A que dirigentes revolucionários receberam do governo que ajudaram a criar? Ou a de cães amados que devem merecer uma agonia abreviada e anestesiada? Os cães são símbolos tanto daquilo que é vil e desprezível como daquilo que é a maior amizade e compaixão.

Os meandros psicológicos dos personagens são mostrados num olhar intimista em que Trotsky revela seus remorsos pelos seus atos autoritários do período revolucionário, como a repressão à Kronstad e a militarização dos sindicatos, ou seu sentimento de culpa pelo destino terrível de seus familiares, ceifados um a um pela vingança cruel de Stalin. O próprio Mercader também se revela como uma figura edípica fixado no amor à própria mãe e no ódio ao pai burguês catalão. Como um “filho do ódio” se manteve sempre calado nos 20 anos de cárcere mexicano sem nunca revelar seu verdadeiro nome e identidade.

E, acima de todos, se destaca o conflito psicológico de Ivan, uma síntese do drama de todos os cubanos, mantidos na ignorância e no medo em relação à história da revolução russa (até hoje as obras de Trotsky são desconhecidas e Padura, na nota de agradecimento ao final, deixa claro do “quase absoluto desconhecimento que tinha (como qualquer cubano de minha geração) dos principais acontecimentos e das ideias do antigo dirigente bolchevique”, p. 587) e, particularmente, do fato de que o assassino laureado por Brejnev com a maior condecoração após cumprir as duas décadas de cárcere mexicano, viveu na Rússia e, finalmente, foi recebido e protegido na ilha até os seus últimos dias. Como ele não deixou nenhum registro de memórias e nem sequer seu túmulo é conhecido, resta aos historiadores a especulação ficcional de Padura para nos ajudar a compreender o que foi oculto, pois “pensar é um luxo que está proibido aos sobreviventes… Para fugir do medo, o melhor sempre foi não pensar” (p. 541).

Padura ousou pensar e, ainda mais, ousou escrever.

A se lamentar apenas na excelente tradução brasileira é o prefácio de Gilberto Maringoni que edulcora os crimes do stalinismo, reduzidos a “erros, excessos e escolhas”. Curioso um prefácio que se dedica de forma equívoca a tentar negar a tese central do livro, ou seja, a abjeção hedionda dos crimes stalinistas, cuja mensuração não se reduz somente a quantificação dos milhões de mortos, mas ao assassinato de um sonho, de um ideal e de uma utopia.

Além de cometer erros factuais, como a data do lançamento da IV Internacional (não foi em 1935, mas em 1938), o prefaciador tenta superficialmente negar a tese de que a participação soviética na guerra civil espanhola preferia derrotar o lado republicano, por meio do extermínio de anarquistas e poumistas a vê-los vencer (como dizia a carta de Orlov que o próprio Ramon relata: “Stalin nunca desejara que os republicanos espanhóis ganhassem a guerra” p. 536), e, ainda pior, após considerar o assassinato de Trotsky apenas como um “erro” atribui ao “agressivo cenário externo” a “caça às bruxas” na Rússia, omitindo não só a colaboração entre Stalin e Hitler, como o fato de que essa “caça às bruxas” começou em meados dos anos de 1920, após a vitória soviética na guerra civil num momento sem maiores ameaças externas à URSS.

O prefaciador revela seu próprio cripto-stalinismo, ao prefaciar um livro centrado justamente na denúncia dos crimes de Stalin e, ao fazê-lo, tratar tais crimes como simples “erros”. Mas, pior ainda foi o mediador explicitamente stalinista escolhido para o debate de lançamento do livro em São Paulo, o petista Breno Altman, que, sem qualquer disfarce, declarou que se fosse ele, faria o mesmo que fez o assassino Mercader! (ver abaixo)

O próprio Mercader romanceado por Padura após ler Trotsky se arrepende do que fez: “se antes de ir para o México tivesse lido aqueles livros, acho que não o mataria” (p. 546). Mas, independentemente do debate sobre a verossimilhança dos remorsos do Mercader romanceado por Padura, isso não impede um stalinista brasileiro nos dias de hoje reivindicar que mataria Trotsky e, podemos supor, todos os outros milhares de assassinados! É de se perguntar se também mataria os parentes dos dissidentes e se torturaria e eliminaria revolucionários intrépidos como Andreu Nin, executado pela GPU na primeira missão na qual, segundo o Romance, Ramón Mercader participou (cumprindo funções logísticas).

A editora merece os parabéns pelo oportuno lançamento, mas deveria ser mais cuidadosa em escolher quem apresenta este livro, pois promover stalinistas para debater sobre este tema revela que essa herança nefasta continua a contaminar a esquerda mundial, não só porque subsistem muitos de seus aspectos em regimes como o cubano ou o norte-coreano, mas porque ainda há quem reivindique assassinatos políticos no seio da própria esquerda num debate.

Assim como se estabeleceram as Comissões da Verdade brasileiras ou de outros países onde houve crimes de Estado, ainda falta uma Comissão da Verdade dos crimes do stalinismo, não só na URSS ou na Ucrânia, mas em todo o mundo. Ainda há cadáveres insepultos, como o de Andreu Nin, torturado e morto na Espanha. O que o stalinismo construiu foi “uma nova espécie de fé ideológica e um novo tipo de submissão capaz de superar a obediência política para se transformar em cumplicidade criminosa” (p. 176). Incrível é esse livro ter sido lançado num debate com a participação de quem declara publicamente orgulho por essa “cumplicidade criminosa” que não assassinou apenas Trotsky, Bukharin e tantos milhões de pessoas, mas também tentou matar a própria ideia do socialismo.

[1] Veteranos da revolução desde a Sierra Maestra como Daniel Alarcón Rodrigues (Benigno) em Vie e Mort de la Révolution Cubaine (Paris, Fayard, 1996); e Norberto Fuentes em Dulces guerreros cubanos (Barcelona, Seix Barral,1999) e outros trataram destes episódios em livros publicados no exterior e proibidos em Cuba.