Livros: 12 dos melhores lançamentos de 2013 no Brasil

04.01.2014

Jornal Opção
Euler de França Belém

O Jornal Opção lista alguns dos mais interessantes livros publicados no país em 2013. O grande lançamento talvez seja Homem Invisível, de Ralph Ellison

Homem Invisível, de Ralph Ellison

O grande lançamento de 2013 é uma nova edição de Homem Invisível (José Olympio, 573 páginas, tradução de Mauro Gama), de Ralph Ellison (1914-1994). Trata-se de um dos mais poderosos romances americanos do século 20. “Um livro de primeira grandeza, magnífico”, disse Saul Bellow. Costuma-se dizer que se trata do maior escritor negro dos Estados Unidos. Não é falso, mas é mais verdadeiro dizer de outro modo: Ellison merece figurar na lista dos cinco maiores escritores americanos do século 20, independentemente da cor da pele. A nova edição contém uma excelente introdução de 16 páginas escrita por Ellison. A edição anterior (Marco Zero, tradução de Márcia Serra, 499 páginas) era disputada a tapa (e muita grana) nos sebos. O “homem invisível” é o negro.

Tradução de Mauro Gama para o primeiro parágrafo:

“Sou um homem invisível. Não, não sou um espectro como aqueles que assombravam Edgar Allan Poe; nem sou um ectoplasma do cinema de Hollywood. Sou um homem com substância, de carne e osso, fibras e líquidos, e talvez até se possa dizer que possuo uma mente. Sou invisível — compreende? — simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Como as cabeças sem corpo que algumas vezes são vistas em atrações de circo, é como se eu estivesse cercado daqueles espelhos de vidro duro que deformam a imagem. Quando se aproximam de mim, só enxergam o que me circunda, a si próprios ou o que imaginam ver — na verdade, tudo, menos eu”.

Tradução de Márcia Serra para o primeiro parágrafo:

“Sou um homem invisível. Não, não sou um fantasma como os que assombravam Edgar Allan Poe; nem um desses ectoplasmas de filme de Hollywood. Sou um homem de substância, de carne e osso, fibras e líquidos — talvez se possa até dizer que possuo uma mente. Sou invisível, compreendam, simplesmente porque as pessoas se recusam a me ver. Tal como essas cabeças sem corpo que às vezes são exibidas nos mafuás de circo, estou, por assim dizer, cercado de espelhos de vidro duro e deformante. Quem se aproxima de mim vê apenas o que me cerca, a si mesmo, ou os inventos de sua própria imaginação — na verdade, tudo e qualquer coisa, menos eu”.

Marighella — O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, de Mário Magalhães

A Veja tentou desconstruir a excelente biografia Marighella — O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo (Companhia das Letras, de 744), do jornalista Mário Magalhães. Presume-se, pela crítica da revista, que pessoas que contrariem nossas ideias não devem ser biografadas. Mas Marighella, como demonstra Mário Magalhães, é um personagem fascinante e, de fato, influenciou esquerdistas em vários países (um grande editor italiano, por exemplo, rezava por sua “cartilha”). A pesquisa é primorosa — verdadeira aula de história do Brasil do século 20. O livro saiu em 2012, mas a repercussão se deu em 2013.

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura

O escritor cubano Leonardo Padura escreveu um romance que, a rigor, é uma grande biografia de Liev Trotski e, ao mesmo tempo, uma história de seu assassino, o espanhol Ramón Mercader. Trotski é bem conhecido (vale a pena ler a biografia de Robert Service, mas não a pobríssima escrita por Paulo Leminski), mas Mercader não tinha, por assim dizer, uma história; agora, tem, ainda que lacunar. Padura mostra como Mercader foi recrutado para matar o comunista ucraniano. Como se trata de obra de imaginação literária, o autor tem liberdade para contar a história de maneira vívida, como se os fatos estivessem acontecendo ante nossos olhos. O homem que amava os cachorros (Boitempo Editorial, 589 páginas, tradução de Helena Pitta) é um belo romance histórico.

As Crônicas do Brasil, de Rudyard Kipling

Uma das vantagens de As Crônicas do Brasil (Landmark, 141 páginas), do escritor inglês Rudyard Kipling, é o fato de a edição de ser bilíngue. O leitor pode conferir a qualidade da tradução de Luciana Salgado. Nas crônicas, publicadas em 1927, Kipling fala dos “mundos de café verde”, das “sussurrantes plantações de coco” e diz que o Império de D. Pedro II era “soberbo”. A Bahia é vista como “o coração ardente do nascimento do Brasil”. “Aqui, também, a Igreja dominou por completo; e aqui os escravos chegaram aos milhares, sem saber que seus filhos seriam cidadãos de uma República em que a Questão Racial não existe”, escreve. Idiossincrático? Como todos nós.

Fábulas Completas, de Esopo

A Cosac Naify pôs nas livrarias uma belíssima edição das “Fábulas Completas” (448 páginas) de Esopo. Com a vantagem de a tradução ter sido feita a partir do original grego, por Maria Celestre C. Dezotti, uma profissional qualificada, professora da Unesp, com ilustrações de Eduardo Berliner. São 383 fábulas. A Cosac diz que “a tradutora optou por utilizar como fontes a compilação do editor Émilie Chambry — tida como referência — e acrescentar a do também editor Ben Perry, mais atual e completa que a anterior. Com isso, somam-se 26 fábulas ao corpus comumente usado. Outra novidade proposta pela tradutora é a disposição da moral, que vem separada da narrativa para deixar claro o seu caráter de argumentação — e não de conduta ou comportamento, como se convencionou atribuir às fábulas”.

Tempestades de Aço, de Ernst Jünger

A Primeira Guerra Mundial completa 100 anos em 2014. As editoras brasileiras começam a lançar livros de qualidade sobre o assunto tanto no campo histórico quanto literário. O professor Cláudio Fernandes Ribeiro indica um romance de Ernst Jünger (1895-1998) como importante para compreender a atmosfera da guerra — “Tempestades de Aço” (Cosac Naify, 347 páginas, tradução de Marcelo Backes). João Barrento nota que “o século de Jünger começa verdadeiramente com a Primeira Guerra Mundial, que em ‘Tempestades de Aço’ se transforma de vivência particular em matéria literária (diarística) e magma ideológico, nas mãos do soldado que, na marmórea objetividade das suas descrições, estetiza a experiência e a ‘essência’ da guerra e do ‘éthos’ heroico, consumando ‘a deliberada transposição da arte-pela-arte para o plano da guerra’ (Walter Benjamin)”.

Pulphead — O Outro Lado da América, de John Jeremiah Sullivan

Tive uma impressão estranha sobre os ensaios de Pulphead — O Outro Lado da América (Companhia das Letras, 326 páginas, tradução de Chico Mattoso e Daniel Pellizzari), de John Jeremiah Sullivan. No início da leitura, avaliei-o como superficial. Depois, senti-me guiado pelas formulações, às vezes objetivas, às vezes enviesadas, mas não sei se concordo com a revista “Time”, que o vê como “o melhor ensaísta de sua geração”. Na apresentação, o crítico James Wood nota sua habilidade descritiva e o diferencia de outros, digamos, “novos jornalistas”: “Ao contrário de Tom Wolfe e Joan Didion, que trazem seus famosos estilos consigo como se fosse o cabelo arrumado e recém-cortado, Sullivan deixa que seus temas desordenem e alterem sua prosa. Ele trabalha como um romancista”.

O Encantador — Nabokov e a Felicidade, de Lila Azam Zanganeh

Quando vivo, o escritor russo Vladimir Nabokov era quase inabordável, porque também era crítico, dos mais implacáveis. Edmund Wilson travou uma batalha homérica com Nabokov a respeito da tradução que este fez de “Eugênio Oneguin”, de Púchkin. Há quem, para entendê-lo, decidiu biografar sua mulher. Porém, morto o autor de “Lolita” e “Ada”, pode-se abordá-lo com menos encrenca. “O Encantador — Nabokov e a Felicidade” (Alfaguara, 292 páginas, tradução de José Luiz Passos), de Lila Azam Zanganeh, é uma leitura perspicaz, até muito otimista, ao apresentá-lo como “grande escritor da felicidade”. O livro é elogiado por Orhan Pamuk e Salman Rushdie.

Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado, de Romeu Tuma Júnior

Há livros vingadores? Por certo, há. Talvez seja o caso de “Assassinato de Reputações — Um Crime de Estado” (Topbooks, 560 páginas), de Romeu Tuma Júnior, com texto do jornalista Claudio Tognoli. Não se trata de um livro brilhante — a informação de que Lula da Silva foi informante da ditadura civil-militar não é provada documentalmente —, mas é uma radiografia razoável da destrutibilidade do poder. Ao listá-lo faço uma concessão aos best sellers. Um “descompanheiro” de jornada pode ser “O Príncipe da Privataria” (Geração Editorial, 400 páginas), de Palmério Dória.

Heinrich Himmler — Uma Biografia, de Peter Longerich

“Heinrich Himmler — Uma Biografia” (Objetiva, 911 páginas, tradução de Angelika Elisabeth Köhnke e outros), do historiador alemão Peter Longerich, cumpre o que promete. O livro é uma notável biografia de um dos principais responsáveis pelo Holocausto. Ao examinar Himmler, o pesquisador faz uma poderosa radiografia da história da Alemanha, mostrando porque um homem sem muito brilho, como o chefão da SS, chegou tão longe. A biografia do nazista é, na verdade, uma grande história da Alemanha sob Hitler.

Armênio Guedes — Sereno Guerreiro da Liberdade, de Armênio Guedes

O jornalista Sandro Vaia escreveu uma biografia pequena, mas excelente de um comunista que, sim, tem vocação democrática. Contraditório? Pode ser, mas o esquerdista descrito em “Armênio Guedes — Sereno Guerreiro da Liberdade” (Barcarolla, 254 páginas) não é nada simpático à ditadura do proletariado. Armênio critica a luta armada e nota que, “seis meses depois do golpe” de 1964, “muita gente [na esquerda] não tinha noção de que tínhamos sofrido uma grande derrota”.

À Queima Roupa — O Caso Pimenta Neves, de Vicente Vilardaga

Em 2000, o jornalista Antônio Pimenta Neves matou, por ciúme, a jornalista Sandra Gomide. A repórter, que havia crescido profissionalmente à sombra frondosa do brilhante editor do jornal “O Estado de S. Paulo”, havia terminado o namoro com seu ex-chefe e não queria reatá-lo. No livro À Queima Roupa — O Caso Pimenta Neves (Leya, 395 páginas), o jornalista Vicente Vilardaga investiga a fundo a história dos dois profissionais. É duro com Pimenta Neves, o assassino, mas expõe, sem dourar a pílula, a problemática relação (de interesse?) entre a jovem repórter e o velho editor.