Escritor cubano romanceia exílio e morte de Trotski, em narrativa desigual sobre a falência de uma utopia

05.01.2014

G1 | Máquina de escrever
Luciano Trigo

O livro mais comentado do final de 2013 e deste início de 2014 – e leitura recentemente recomendada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aos “presos políticos” da Papuda – é seguramente O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura. Trata-se de uma versão romanceada dos últimos anos de Leon Trotski, do exílio imposto por Stalin em 1929 ao brutal assassinato no México, em 1940, com um golpe de machado na cabeça – um dos momentos mais simbólicos da História do século 20, por mostrar, em sua covardia e brutalidade, a que grau pode chegar a perversão de uma utopia política.

Eu implico um pouco com reconstituições ficcionais de episódios e personagens que já foram explorados à exaustão pelos historiadores, caso do exílio e morte de Trotski, reconstituídos e examinados em detalhes em inúmeras biografias e ensaios de grande qualidade – bastando citar, entre os mais recentes, Trotsky – A biography, de Robert Service, e Trotsky – Downfall of a revolutionary, de Bertrand Patenaude, sem falar na clássica biografia em três volumes de Isaac Deutscher. Mas este é apenas um dos três eixos do romance de Padura, habilmente entrelaçado com duas outras narrativas convergentes: a da trajetória do assassino de Trotski, o comunista espanhol Ramon Mercader, aka Jacques Mornard, e, esta totalmente ficcional, a história pessoal do narrador, Ivan, um escritor viúvo e frustrado, às voltas com às dificuldades cotidianas da Cuba contemporânea, há décadas em crise econômica endêmica.

Temos então na verdade três livros que se articulam, e se o primeiro pode parecer frustrante, por ficar aquém da já bem conhecida história real, os outros dois surpreendem, pela construção habilidosa de personagens e tramas novas para o leitor. Sem esconder sua simpatia exagerada por Trotski, Padura no entanto humaniza o seu algoz, acrescentando complexidade e profundidade a um homem reduzido na memória coletiva ao triste papel de assassino a soldo de Stalin. Reconstituindo a história dramática das origens familiares de Mercader em Barcelona, de sua heróica e aventurosa participação na Guerra Civil Espanhola e da convicção revolucionária com que aceitou sua última e fatídica missão de carrasco, depois de outras ações arriscadas em Moscou e Paris, Padura evita a armadilha de transformá-lo em um vilão absoluto. Mesmo esse empreendimento, contudo, não é exatamente original, já que no final dos anos 60 o espanhol (e ex-dirigente comunista)  Jorge Semprún lançou um romance de intenções semelhantes, A segunda morte de Ramon Mercader, atualmente fora de catálogo mas facilmente encontrável nos sebos.

Mercader acaba assim roubando a cena, tornando-se o personagem mais interessante do livro de Padura. Quanto ao terceiro eixo, o da narrativa em primeira pessoa do escritor cubano recém-enviuvado que recupera e registra a história de seu encontro com López, o tal “homem que amava os cachorros” do título, no final dos anos 70, ele é mais interessante pela inesperada articulação com as histórias de Trotski e Mercader – articulação que só se revela plenamente no final do livro – do que propriamente pelo retrato que faz das dificuldades enfrentadas pela sociedade cubana, sufocada econômica e politicamente (para isso, é muito melhor ler Pedro Juan Gutierrez, autor da “Trilogia suja de Havana”). Curiosamente, em Cuba Trotski sempre foi vendido como um inimigo da revolução e traidor dos ideais bolcheviques…

Mas, como escritor oficialmente reconhecido em Cuba, o autor não vai além de uma crítica lacrimosa, enviesada e ambígua, sem deixar clara sua posição em relação ao lentamente agonizante regime castrista. Premiado autor de romances policiais (protagonizados pelo detetive Mario Conde e lançados no Brasil pela Companhia das Letras), Leonardo Padura se mostra mais à vontade na construção de enredos engenhosos, que evoluem para a revelação de um segredo ou o desvendamento de um enigma, que na reflexão sobre as motivações de seus personagens. Além disso, é necessário dizer, o autor muitas vezes se perde num estilo cheio de barroquismos e de gosto duvidoso (“Na luz leitosa do amanhecer invernal…”, “… insignificância cósmica diante do poder essencial do eterno” etc), como que querendo mostrar seus dotes como um escritor “sério”, após se consagrar como autor de romances policiais de entretenimento.

Por tudo isso, O homem que amava os cachorros parece desequilibrado e contraditório: por um lado, sua apresentação do conflito Trotsky-Stalin  é marcada pela adesão maniqueísta ao primeiro, mas é justamente a negação desse maniqueísmo no retrato de Ramon Mercader que salva o livro, enquanto a evocação do drama coletivo cubano de hoje fica muito nas entrelinhas. Aumenta essa impressão de desequilíbrio o prefácio encomendado para a edição brasileira, no qual um professor universitário, em vez de falar sobre o livro de Padura (que mal é citado), apresenta sua própria síntese da história soviética, relativizando e atenuando consideravelmente os horrores cometidos por Stalin, hoje fartamente conhecidos e documentados, a ponto de sugerir que parte da culpa pelos milhões (e não milhares) de mortos, por execução após perseguição política ou pela fome, deve ser atribuída ao “agressivo cenário externo” e à pressão dos malvados países capitalistas. Prefácio desnecessário e totalmente fora do lugar.

Assista abaixo ao “book-trailer” de O homem que amava os cachorros: