O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura

30.12.2013

Blog do Sorrentino: projetos para o Brasil
Walter Sorrentino

Termino o ano partilhando o que considero um rastro brilhante no firmamento literário, provindo de um premiado escritor cubano. O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, é um livro marcante a todos os títulos. Fascina seu caráter de romance histórico, cujo tema é o (até agora) fatídico assassinato do líder da IV Internacional e seu obscuro personagem, Ramón Mercader del Rio, que deu cabo da vida de Liev Davidovitch, Trotski, no México, em 20 de agosto de 1980.

As peripécias trágicas da época, das personagens (assassino e vítima), da guerra civil espanhola e da 2ª guerra mundial, do regime de Stálin na URSS, permeada pela trajetória de agentes soviéticos no movimento comunista mundial, se cruzam na vida de um escritor fracassado do tempo contemporâneo em Cuba, cuja geração sofreu com todos os embates pelos quais buscou se afirmar a nova sociedade no país.

Tudo vai articulado numa trama literariamente rica, construída com suspense digno dos melhores romances policiais, e com fidelidade aos fatos históricos da época – não sei o quanto de pesquisas em arquivos envolveu a vida real de Ramón Mercader, mas tudo indica ser bastante fidedigno, afora a ficção das reflexões íntimas dos agentes.

A boa literatura não reflete simplesmente o real, mas o refrata e instiga o pensamento crítico.

O narrador Iván, resgatado pelo Autor como uma espécie de seu alter ego, reflete sobre a realidade contemporânea de Cuba, a partir do acontecimento fortuito de seu encontro com personagem desconhecido que viria a ser Ramón de Mercader, refugiado em Cuba próximo da morte. Padura nos leva, por aí, a uma viagem ao tempo das grandes esperanças e utopias do século 20, e critica impiedosamente o que considera ter levado à falência a primeira experiência socialista na URSS e Leste europeu, com terríveis consequências para a sociedade cubana. Com grande habilidade narrativa e talento ficcional, nada há de identidade com o trotsquismo; a crítica deste com relação a Stálin e à URSS é sempre referenciada ao próprio. Entretanto, a paisagem desvendada é inseparável entre o Autor, o narrador e os contemporâneos do romance, implacavelmente crítica do stalinismo, como degeneração burocrática e totalitária do socialismo, e sua influência sobre o próprio regime cubano.

Não é o caso de endossar toda a apreciação histórica feita do papel de Stálin à frente da URSS e sua grande guerra patriótica, que teve papel decisivo para salvar o mundo da besta-fera nazifascista. Mas segue necessário voltar-se para os desvios, desmandos, enganos ou traições, como se queira, praticados em regimes da URSS e do Leste europeu, resgatar desse magma o essencial para reafirmá-lo em condições novas, atualizadas teórica e eticamente, pois que não há alternativa (é o caso de usar essa terrível alocução) para a crise civilizatória a que conduz o capitalismo contemporâneo.

Padura fez sobretudo boa literatura. Sobre os pontos de vista reais do próprio Autor, melhor consultar suas inúmeras entrevistas, das quais selecionei estas (http://jovencuba.com/entrevistas/entrevista-en-4-partes-con-leonardo-padura/). Diz ele: “Creo que fundamentalmente fue en la economía [de Cuba] en lo que se siguió ese modelo [de centralismo estatal], porque afortunadamente para todos nosotros a nivel político no hubo los excesos del estalinismo”. Vinte e dois anos após a queda da URSS e seu impacto na realidade global de Cuba vão tratados, agora, com desassombro, na sua literatura.

Liberdade é uma palavra-chave em todos os sentidos do romance. Ou melhor, sua contraparte: o medo. O medo é o tema íntimo de fundo das personagens, responsável pelo engessamento do pensamento crítico, que embotou os sentidos da teoria, da investigação, da vivência social, enfim, levou ao fracasso da experiência que motivou as melhores energias revolucionárias e humanista do século passado. Fez prevalecer escatologias, idealismos permeados de fé escolástica e mitos pelos quais se deu a vida, mas, afinal, conduziu a desilusões, cinismo, desesperança. Mesmo contextualizados – como devem ser e não abstraídos das condições concretas -, nos terríveis confrontos ideológicos que marcaram o século 20, talvez irrepetíveis em sua radicalidade e sectarismo, o resultado histórico da experiência não pode ser negligenciado: foi um tempo revolucionário de aprendizado e graves desvios. Serve de aprendizado.

Medo e liberdade estão em razões inversas nos regimes sociais. Inimaginável pensar um novo regime social que se queira vitorioso a longo prazo, amparado pelos trabalhadores e a maioria do povo, sem liberdade para essas maiorias, a sinalizar rumos para a nova sociedade. Enfim, o poder de aparato de Estado pode muito, mas não pode tudo; melhor uma concepção ampliada de Estado, que dê à sociedade civil, num novo regime social, amplo protagonismo, com liberdade. Os erros e desvios assim cometidos serão melhor corrigidos. É na Política e nos valores que se deve persuadir os sujeitos sociais e vencer.