Na rota de Vietnã e China

26.01.2014

O Globo | Mundo | Volta ao mundo
Helena Celestino

O muro caiu, o mundo mudou, a União Soviética esfacelou-se, o regime cubano continua quase o mesmo. Terça-feira começa a reunião de chefes de estado da Celac, Comunidade dos Estados Latinoamericanos e Caribenhos, em Havana, para onde Dilma vai após a participação no Fórum Econômico em Davos, o balanço anual da elite do capitalismo. Neste outro lado do mundo, ao final do encontro, está prevista uma declaração conjunta contra o bloqueio dos EUA, até hoje um empecilho para relações comerciais, financeiras culturais e diplomáticas entre os dois Estados — nem linha aérea liga os vizinhos.

Alguma expectativa entre os cubanos? “Se você perguntar às 50 primeiras pessoas na rua sobre a Celac, elas dirão que terão de ver muito discurso na televisão e vão perder a novela”, diz Leonardo Padura, escritor, jornalista, roteirista e crítico social, cujos livros de ficção são considerados uma maneira de entender Cuba.

“Não sei dizer se ainda há na população a ideia de utopia. As pessoas não têm ideia desses grandes discursos. Pode haver um setor do pensamento cubano fazendo reflexões sobre o tema, mas não é fundamental. Viver o cotidiano cubano é tão complicado que as pessoas só pensam nisso.”

A reunião de cúpula acontece num momento de distensão. Pela primeira vez desde que Cuba foi expulsa da OEA em 1962, um secretário-geral da organização vai a Havana, aceitando o convite para participar da reunião de chefes de Estado. Há poucas semanas, a União Europeia — maior investidor estrangeiro e segundo parceiro comercial — anunciou a intenção de suspender as sanções impostas à Cuba em represália à prisão de 73 dissidentes em 2003. E, como a gente viu, o presidente cubano e o americano trocaram um aperto de mão diante das câmeras do mundo, na homenagem a Nelson Mandela, na África do Sul.

É pouco, quase nada, mas assim caminha a diplomacia. “É bom haver uma comunicação, só que há 20 anos a ONU condena o embargo e a política dos Estados Unidos, mas nada mudou”, comenta Padura. No mais recente livro do escritor lançado no Brasil, O homem que amava os cachorros (editora Boitempo), Padura retraça a história de Trotski no exílio e a perseguição implacável de Stalin ao opositor político. É uma ficção com rigorosa pesquisa histórica, um embate que continua se reproduzindo na vida real ao redor do mundo mesmo se os personagens não são tão marcantes. Semelhanças com Cuba? “Creio que o processo se parece mais com o da China e do Vietnã. Trata de manter o controle socialista sobre os meios de produção fundamentais e o controle político. Começam a abrir estruturas no país de caráter mais liberal ou capitalista, mas a essência política não mudou e o governo não pretende mudá-la.”

Ter a China como modelo não anima: se em poucas décadas o país tirou da pobreza centenas de milhões de pessoas e tornou-se a segunda maior economia do mundo, este crescimento veio junto com uma feroz repressão política, controle da informação, censura aos sites estrangeiros para ocultar a corrupção dos dirigentes políticos e desigualdade social crescente.

Em Cuba as mudanças são ainda tímidas. Com a flexibilização da economia, agora são 445 mil pessoas trabalhando legalmente por conta própria: o Estado continua patrão de 80% dos cubanos. O impacto das novas regras na economia do país é pequeno e, para a maioria, aumentou o custo de vida sem melhora dos salários. Internet, viagens e automóveis são acessíveis a muito poucos, tudo custa oito ou nove vezes se comparado com os preços internacionais, sendo ridiculamente caro para os salários pagos no país. Para os escritores da geração que acreditou na revolução, como é viver em Cuba? “Muitos já não se interessam pelo debate político, perderam a fé na influência de suas palavras. Quando escrevo, tenho de pensar na consequência política das palavras, mas, com toda sinceridade, cada vez escrevo com mais liberdade, preocupado mais com a minha literatura e menos com a leitura política que se possa fazer em Cuba.”

Lá pelo meio dos anos 70, Cuba passou dois anos preparando-se para receber o primeiro Festival Mundial da Juventude. A bordo de um navio russo, chegaram mais de mil representantes da esquerda mundial — etiqueta que incluía de anarquistas e guerrilheiros a militantes dos ortodoxos partidos comunistas — numa demonstração de apoio à ilha contra o bloqueio americano. A festa durou duas semanas, com o melhor da música caribenha rolando em grandes palanques montados pela cidade, com cubanos pedindo autógrafos aos tovarichs nas ruas, jovens — e não tão jovens — vendo ao vivo a revolução nos trópicos.

As utopias, já bastante abaladas no resto do mundo, pareciam resistir em Cuba: dezenas de milhares se reuniam para ouvir durante horas os discursos de Fidel, mulheres com filhos no colo se inscreviam para lutar na guerra de libertação de Angola, fotos do Che eram um must na decoração.

? Os pontos chave

1
Livros de Leonardo Padura
sãoconsiderados uma maneira
de entender Cuba.

2
Para ele, país copia China
e Vietnã: mudança econômica
sem abertura política.

3
“Cotidiano cubano é tão
complicado que as pessoas
só pensam nisso”, afirma.