Eles não dizem não a eles mesmos

15.01.2014

Revista Época
Ivan Martins

A legião dos autoindulgentes nunca foi tão grande, e tão daninha

Conheço um cara que tem problemas de disciplina. Eu. Toda noite, juro que vou levantar às 6h30 da manhã para fazer exercício, mas raramente consigo. Toda semana prometo a mim mesmo que vou antecipar o texto desta coluna, mas sempre fica para a última hora. Vira e mexe, digo que vou parar de ver televisão, que vou lavar louça com mais frequência, que não vou beber no fim de semana. Como eu não faço metade das coisas que prometo a mim mesmo, vivo moído de culpa - e me acho uma droga. Do meu ponto de vista, é inevitável passar a vida negociando entre os deveres e a preguiça, entre os desejos e a obrigação. Muita gente, porém, já desistiu.

Tornou-se comum, ao meu redor, pessoas que não têm compromisso e nem culpa. São os autoindulgentes, uma legião que sempre diz a si mesmo que está tudo bem. São especialistas na arte de se auto perdoar. Ignoram a louça, o horário, os amigos, a família e, fundamentalmente, o sentimento dos outros. Fazem o que querem e têm compromisso apenas com seu prazer imediato. O resto que se dane. São adolescentes adultos aprimorando a arte de fazer mal a si mesmos e aos demais.

Eles não são egoístas. O egoísta é uma pessoa que cuida apenas dela mesma. Os autoindulgentes nem conseguem fazer isso. São egoístas míopes, que só enxergam as próximas 8 horas. No longo prazo, são um desastre para eles mesmos. Preguiçosos e mimados, parecem imbuídos da sensação de que suas vontades são urgentes e todos os deveres (inclusive morais) podem ser adiados ou esquecidos. Acham que têm todo o tempo do mundo para fazer o que é certo. Hoje, porém, farão apenas o que têm vontade.

Se os autoindulgentes fossem sozinhos no mundo, não haveria problema. Apenas afundariam num mar de narcisismo inconsequente. Mas eles têm mulher, irmãos, pais, filhos, amigos. Eles deixam um rastro de estrago atrás de si. O sujeito que não sabe dizer não para si mesmo não acha tempo para mais nada. Está fundamentalmente sozinho no seu universo, que lentamente desmorona. Os outros existem apenas como plateia, ou para insuflar seu ego, ou para compor uma galera, ou oferecer socorro quando a realidade, cedo ou tarde, rompe a cortina de ilusão.

É tão comum como deprimente que o rebelde autoindulgente de hoje - aquele que toma todas, faz de tudo e não deve satisfações a ninguém -, termine, entre os 30 e os 40 anos, dando trabalho aos pais idosos, como se fosse uma criança. Sem nunca ter deixado a adolescência, acaba, na idade adulta, como dependente dos pais que despreza. Haja rebeldia!

Se eu pareço raivoso, me desculpem. São sentimentos pessoais e biográficos - alimentados pela convicção de que vivemos uma epidemia de egos descontrolados.

Nossa cultura fomenta o comportamento irresponsável em relação a si mesmo e aos demais. Sacrifício, apenas no contexto do trabalho. Quase todos sabem que é preciso ralar para ganhar dinheiro ou manter um bom emprego, mas, encerrado o expediente, um monte de seres humanos simplesmente aperta o foda-se. Fora do mercado, não há responsabilidade.

Quem à nossa volta está discutindo princípios, valores, ética? Poucos, porque essas coisas têm preço existencial elevado. Se você abraça um princípio, terá de sustentá-lo. Se tem valores, terá de renunciar ao que se opõe a eles. A ética pode vetar atividades prazerosas - como um emprego confortável e inidôneo ou sexo com uma pessoa escrota. Autoindulgentes não querem esse tipo de sacrifícios. Em troca do prazer instantâneo, topam qualquer coisa. São baratinhos.

Estes dias, ando lendo um romance primoroso – O homem que amava os cachorros, do Leonardo Padura – que conta a história de um idealista como não existe mais. Leon Trotsky, um revolucionário russo do início do século XX, pagou o preço mais alto que existe pela coerência aos seus princípios. Foi exilado e perseguido, seus filhos foram mortos e, ao final, ele foi assassinado, em 1940, por um sujeito que se fez passar por um amigo, mas era agente da polícia secreta de Joseph Stalin.

Você eu não somos feito dessa madeira. Tampouco exigimos, ao nosso redor, que os outros sejam heróis. Mas algo de grandeza é necessário. Um mínimo de respeito consigo mesmo e com os demais. Um mínimo de disciplina e de responsabilidade. Alguma ética, algum princípio, qualquer generosidade. O mundo pode ter se tornado um lugar grande demais para ser transformado por meia dúzia de ideias, mas a nossa vida pode ser melhorada – ou destruída – pelo convívio com uma única pessoa. Melhor que não seja alguém com tolerância infinita para as suas próprias fraquezas.

Ivan Martins escreve às quartas-feiras