O papel central da mídia

01.02.2014

Revista Sociologia | Resenha
Ana Selva Albinati

A coletânea de artigos desse livro é fruto do III Seminário Internacional Teoria Política do Socialismo, realizado em 2009 na Faculdade de Filosofia e Ciência da UNESP, que reuniu especialistas nacionais e internacionais na obra de Lukács.

A sua importância pode ser aquilatada em vista da posição ímpar que o autor alcançou em sua longa e muitas vezes reconfigurada trajetória intelectual na luta contra o irracionalismo, na defesa do realismo crítico como condição de apreensão das possibilidades concretas de transformação da realidade, e no reconhecimento da emancipação humana como métrica do desenvolvimento social.

Os artigos percorrem a trajetória do filósofo a partir de três grandes temáticas: “Dialética e trabalho”, “Política e revolução”, “Estética e luta ideológica”, precedidas de uma Introdução a cargo de Csaba Varga, a respeito do significado de Para uma ontologia do ser social na compreensão das ciências sociais, e seguidas de uma conclusão de Maria Lúcia Barroco, que atualiza a importância do pensamento de Lukács na crítica ao irracionalismo.

A temática “Dialética e trabalho” se inicia com a investigação de José Paulo Netto acerca do significado do texto Moses Hess e os problemas da dialética idealista, de 1926, na trajetória de Lukács, no intuito de demonstrar que encontramos ali um marco inicial da “via que leva de Hegel a Marx”.

Nicolas Tertulian trabalha as diferenças entre a ontologia fundamental de Heidegger e a ontologia do ser social de Lukács, mostrando como do reconhecimento das questões próprias da contemporaneidade, que a rigor só podem ser pensadas a partir do resgate da ontologia, são desenvolvidas perspectivas teóricas absolutamente distintas e inconciliáveis.

Ainda nesse bloco, comparecem as discussões acerca da centralidade do trabalho na compreensão da forma da sociabilidade e em sua relação com a política, nos textos de Sérgio Lessa e Ivo Tonet.

A seção “Política e revolução” inicia-se com artigo de Mauro Iasi, onde nos é apresentada, com riqueza de nuances, a transição de Lukács do universo das ciências do espírito ao marxismo, indicando como o arcabouço teórico de sua formação atua na precaução em relação à leitura economicista e à instrumentalização do marxismo, condição que o singulariza como intérprete de Marx.  

Antônio Rago Filho reenvia o leitor à compreensão do enfrentamento a que Lukács se dispôs em sua obra mais polêmica, A destruição da razão, enquanto Marcos Del Roio e Paulo Barsotti analisam em seus textos a reflexão do autor sobre a política, bem como os momentos turbulentos de sua atuação na vida política.

 Antonino Infranca, que fecha essa seção, retoma o sentido da democratização, tal como concebida por Lukács em seus textos finais, e trabalha as confluências entre essas reflexões e as de Gramsci e Dussel.  

As discussões, nessa seção, apontam os elementos controversos do pensamento político de Lukács e clareiam, sobretudo, as questões que se colocam efetivamente na consecução de uma “revolução política com alma social”, proposição marxiana que baliza a tematização da política no campo do socialismo.

A seção “Estética e luta ideológica” trata do lugar e do caráter da estética no pensamento de Lukács. O exame de seus textos de juventude e a emergência dos elementos germinais de sua proposição estética de maturidade são tematizados nos artigos de Arlenice Almeida da Silva e Carlos Eduardo Jordão Machado; já Ester Vaisman, assim como Miguel Vedda, se propõem a elucidar a trajetória do autor rumo a uma estética realista, desfazendo leituras equivocadas e falsas oposições.

 Fechando essa seção, Juarez Torres Duayer focaliza uma temática específica da grande Estética, as considerações sobre a arquitetura moderna como expressão sintomática das relações inumanas sob o capitalismo.

Tratando-se de uma coletânea, é de se esperar que alguns artigos se destaquem pela incursão mais rigorosa no tema proposto, mas de uma forma geral o conjunto de textos possibilita não só uma cartografia da produção lukácsiana, relativa aos temas enfocados, mas sobretudo uma dimensão da complexidade do seu pensamento.

Vale a pena registrar que a  publicação de György Lukács e a emancipação humana vem se somar ao resgate da obra do autor no Brasil, que se verifica através da publicação de textos inéditos em língua portuguesa pela editora Boitempo, que já inclui em seu catálogo Prolegômenos para uma ontologia do ser social (2010), O romance histórico (2011), Lênin: estudo sobre a unidade de seu pensamento (2012),  Para uma ontologia do ser social v. I (2012) e v. II (2013), além da publicação de análises de sua obra por parte de especialistas do Brasil e do exterior.



Ana Selva Albinati é Professora do Departamento de Filosofia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.