A esquerda em romance

22.03.2014

A Gazeta Vitória | Entrelinhas
Victor Gentilli

A história é sabida. Ramón Mercader mata Leon Trotski com umgolpe de picareta no México em 1940 a mando de Joseph Stalin. O homem que amava os cachorros é um romance. Mas a vida do morto e do assassino reais é contada pelo cubano Leonardo Padura com o rigor dos bons biógrafos e historiadores.

Trotski foi um dos grandes nomes da revolução russa em 1917. Derrotado por Stalin na disputa pelo comando do partido comunista e do destino da Rússia socialista, o revolucionário vai sendo isolado até ser deportado e tem que sobreviver precariamente na Turquia, na Noruega, na França e, finalmente, no México. Em cada um desses países, tinha apenas um passaporte com enormes limitações. Afinal, era um líder comunista. Jamais aceitou combater a revolução da qual foi um dos líderes.

Mas, para Stalin, não era apenas um adversário que rejeitava a ideia de construção do socialismo em um único país e defendia o internacionalismo e a revolução permanente. Era um traidor. Um traidor que estava à frente de um grande movimento para derrotar a revolução. Um traidor que precisava ser eliminado, depois de eliminados todos os demais antagonistas acusados de trotskismo.

Ramón Mercader é um catalão bem nascido que irá se tornar comunista e se empenhará entre os republicanos na guerra civil espanhola. Será escolhido para a missão pelo serviço secreto soviético – que será conhecido como KGB – e durante três anos será preparado para a missão, à qual empenhou sua vida. Durante boa parte dos vinte anos de prisão no México é o belga Jacques Mornard (entre tantos outros nomes falsos que usou). O fundamental para defender a revolução era a disciplina e a obediência. Não podia se apresentar.

O assassinato de Trotski, com sua enorme carga simbólica, foi um dos marcos do domínio stalinista sobre a União Soviética e os partidos comunistas. Em todo o mundo, os comunistas viam em Stalin o “Guia Genial dos Povos”. Aqui no Brasil, os estatutos do PCB proibiam ao militante sequer amizade com trotskista – ou mero acusado de o ser. Solto em 1960, Mercader ganhará medalhas e será recebido como herói na União Soviética, medalhas que só lhe valerão para furar filas na burocrática URSS; afinal, não era um homem a ser exposto ao mundo. Sem condições de ir à Espanha, ainda sob Franco, termina seus dias já nos anos 1970 em Cuba.

Com exceção do final em Cuba, tudo é sabido. Leonardo Padura produz um romance com enorme densidade, mas com a linguagem e o ritmo de um thriller. Antes de O Homem que Amava os Cachorros, Padura era conhecido como autor de romances policiais, alguns deles traduzidos para o Brasil pela Companhia das Letras. O livro relata os encontros do narrador em Cuba, a partir de 1977 com o misterioso homem que amava os cachorros.

E os intercala com a vida de Ramón Mercader e Leon Trotski nos anos que antecedem o assassinato. É a história do movimento comunista que é revisitada. O contexto em que vivem os personagens são magistralmente apresentados. Mas a obra também mostra a União Soviética da perestroika e as diversas fases de Cuba durante e depois do período de apoio soviético.

O medo e o fanatismo acompanham a narrativa. Quem tem medo é o narrador, e é um medo decorrente da opressão que permeia o regime cubano. Afinal, cortou cana para defender a revolução nos primeiros anos após a tomada do poder pelos guerrilheiros comandados por Fidel Castro com o mesmo fanatismo com que Ramón Mercader ficou três anos em preparativos para matar Trotski, realizou a tarefa e manteve silêncio durante seus vinte anos de prisão. Mas reluta em narrar a história que lhe é contada por medo. O medo de ser prejudicado em sua vida pessoal ou profissional, o medo de enfrentar o poder.

O que moveria um homem a aceitar uma tarefa (quando aceitou nem sequer sabia qual era) e a cumpri-la com obediência e disciplina senão o fanatismo? Por uma única vez, no final do livro, aparecerá a palavra fundamentalismo. É disso que se trata. O livro tem a leitura agradável de um bom romance policial e o rigor histórico de quem realizou pesquisa de fôlego. O autor trabalhou durante cinco anos no livro, lançado em Cuba em 2009. Crítico do regime, mesmo assim Padura recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Cuba em 2012, pelo conjunto da obra. Num debate sobre o livro, o prefaciador Gilberto Maringoni chamou a atenção que o leitor permanece preso à leitura apesar do livro quebrar a lógica dos romances policiais que consagraram o autor: o leitor sabe de antemão quem morreu, como e quando morreu e a mando de quem foi assassinado. É fato: é leitura para pegar e não largar.