Violência e paixão

05.05.2014

Correio Braziliense | Filosofia
João Lanari Bo

Slavoj Žižek: as múltiplas formas que violência que assolam o homem contemporâneo

Escrito em 2008, o curto, porém denso, livro de Slavoj Žižek sobre violência, esse tema tão perto e tão longe das nossas existências, chega ao Brasil. Nesse meio-tempo, o prolífico pensador esloveno produziu quilos de livros e toneladas de artigos, apontando sua metralhadora giratória para os “vassalos do alfabeto”, como dizia Glauber Rocha —ou seja, aqueles que habitam a zona de conforto dos preconceitos arraigados. No texto em tela, a munição parece inesgotável: seus aliados, os de sempre,Marx, Hegel, Lacan, Brecht, Freud, Kierkegaard e um sem número de referências “pop”, sobretudo cinematográficas; seus alvos, Bill Gates, Stalin, Bush, “comunistas liberais”, George Soros, Fukuyama, KGB e qualquerumque reproduza sem rodeios a ideologia dominante do capital e/ou exerça o poder sem freios, ilícita e ilimitadamente. 

Em Violência: seis reflexões laterais, como bom lacaniano, Žižek pensa e tem dúvidas, atira no que vê e acerta no que não vê. A questão é saber como o Outro aflora e nos desconcerta, como certificar-nos de que, em última análise, nossa percepção da violência — aquela que relaciona violência a algum agente identificável — é apenas a superfície de um mundo soturno e pantanoso. Para começar, violência, para o esloveno, possui pelo menos três níveis de significação: “subjetiva”, aquela que nos impacta e intimida, perpetrada pelos indivíduos diabólicos, pelas massas fanáticas, pelos tiranos sanguinários, pelo terrorismo espetacularizado, emsuma aquela que nos é visívelemseus detalhes gráficos; “objetiva”, aquela que se insinua e criaumambiente de violência latente, pervasivo e invisível, como racismo e discriminações de toda a sorte, envenenando a atmosfera e liberando energias predatórias; e, finalmente, a “violência sistêmica”, aquela que emana dos efeitos catastróficos de sistemas políticos e econômicos que primampela injustiça e egoísmo, ou ainda, como indica com precisão o filósofo, aquela que faz com que o destino de camadas inteiras da população possa ser decidido pela “dança especulativa solipsista” do poder e do capital, que perseguem seus objetivos sob uma abençoada indiferença em relação aos possíveis (e danosos) impactos na realidade social.

Existem momentos na história em que as violências subjetiva, objetiva e até mesmo a sistemática se superpõem, criando uma sensação aterrorizante de vertigem: Hitler e o holocausto é um deles; Stalin e a paranoia persecutória dos expurgos é outro;Bush e a“aventura” iraquiana lograram mais um, desestabilizando o país e gerandoumaonda de violência que persiste até hoje. Žižek utiliza o conceito kantiano de “antinomias da razão” para explicar a persistência desses estopins de violência, a despeito de todas as conquistas civilizatórias da humanidade — no caso do Iraque, como o edifício racional de contenção e mitigação de conflitos, construído em negociações e convenções internacionais ao longo de décadas, em particular na ONU, foi ignorado pela razão bélica do governo Bush sem a menor complacência. As antinomias da razão — designação para o ”fenômeno de oscilação da tese à antítese, a razão se encontrando diante de um enunciado de duas demonstrações contrárias, mas cada uma sendo coerente consigo mesma”, como informa o Dicionário de filosofia, de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes — podem lançar também alguma luz sobre um caso crônico e aparentemente insolúvel, como é o conflito entre israelenses e palestinos. Quem tem a razão? Todos, cada um a sua maneira, com fundamentos “coerentes consigo mesmo”.

A possibilidade de sucesso das mediações tradicionais diante de uma tal antinomia é reduzida, basta ver o malogro dos sucessivos esforços de sedimentar conversações de paz entre os atores: desnecessário sublinhar o impacto da não solução do conflito, por outro lado, na escalada da violência na região e alhures Žižek não se propõe a fornecer soluções mágicas e receitas mirabolantes para resolver esses paradoxos. Para ele, a violência éumsintoma, na acepção psicanalítica do termo: o limite dessa patologia talvez seja a“violência divina”, aquela que é um signo da própria impotência de

Deus, o grande Outro. O grande momento da violência divina é, naturalmente, a revolução francesa (Žižek, como bom eurocêntrico, prefaciou uma bela coletânea
de textos de Robespierre). “Quando os que se encontram fora do campo social estruturado ferem‘às cegas’, reclamando e impondo justiça/vinganca imediata, eis
a violência divina”, afirma, citando, como exemplo, o “pânico” que se apoderou do Rio de Janeiro quando“massas de favelados” desceramdo morro saqueando e incendiando supermercados (o livro não indica a data precisa que ocorreu o acontecimento).
 
Esta é uma das pouquíssimas menções no livro sobre violência na América Latina, ao lado de um breve comentário sobre a fronteira do México com os
EUA e a imigração ilegal. Mesmo fora do foco, para nós, latino-americanos imersos em diversos círculos de violência, a leitura do tratado žižekiano revela-se esclarecedora e instigante.
 
João Lanari Bo é professor de cinema da Universidade de Brasília